O mais novo xodó da Europa

A comunidade de negócios percebe claramente que o pior ficou para trás. E que o futuro sorri para Portugal

Por Fernando Dourado Filho, do Porto (Portugal)

Fernando Dourado Filho fala sobre Portugal, o mais novo xodó da Europa

Que Portugal é um país caro à alma brasileira, já não constitui novidade para ninguém. É bem verdade que para muitos de nós, trata-se de uma descoberta recente. Isso porque a diversidade das origens que povoam o Brasil fez com que as afinidades identitárias fossem tão variadas quanto é múltipla a ascendência de nossa gente. Nesse contexto, Espanha, Itália, Alemanha, Japão, Síria e Líbano poderiam ocupar o lugar de referência ancestral. No caso da maioria dos nordestinos, contudo, sempre coube a Portugal uma devoção incondicional. O tempo passou e a rendição aos encantos dessa terra hoje constitui unanimidade nacional, fato evidenciado pela quantidade de voos diários que ligam o pequeno país a diversos pontos de nosso imenso território. Além da afinidade linguística, o patrimônio histórico e artístico dessa ponta da Península Ibérica é caminho certo para uma reflexão sobre nossas origens e DNA. 

O que mais tem chamado minha atenção, contudo, é a verdadeira coqueluche que Portugal vem se tornando para viajantes de todo o mundo. Embora nunca tenha deixado de ser um destino apreciado pelos europeus em férias – especialmente para os ingleses que há muito tempo descobriram o Algarve – hoje praticamente todas as nacionalidades se fazem presentes nas ruas poéticas da bela Lisboa ou às margens do Douro na não menos encantadora cidade do Porto (foto). Em viagem recente ao Alentejo, fiquei pasmado com a quantidade de holandeses, escandinavos e eslavos que se encantavam pelas ruas de Évora, como se estivessem embevecidos por tudo o que faz da cidade encantadora. A começar, bem entendido, pela enologia de marca e gastronomia riquíssima. Tudo isso a preços que são comparativamente baixos quando cotejados com os vigentes na maioria da Europa. 

A afabilidade do povo é algo que encanta os visitantes. Eu diria que sem abrir mão de seu estilo de vida e de seus valores mais caros, os portugueses têm uma vocação para agradar que os qualifica a ocupar uma posição de ponta na indústria da hospitalidade. Sem querer avançar hipóteses aventureiras, me sinto tentado a dizer que a crise que assolou o país a partir do final da década passada, nocauteando outros tantos como a Grécia e machucando bastante a vizinha Espanha, funcionou como um catalizador de qualificação. Assim, quem era carente de uma formação diferenciada, passou a dedicar tempo e esforço para obtê-la. Da parte do governo, embora não imune a desmandos e denúncias de malversações que assolam o mundo com inusitado furor, Portugal não sucumbiu a quaisquer discursos populistas que apontassem falsos dilemas e soluções redentoras. Isso não é pouca coisa. 

Por fim, se o caráter industrioso do povo é velho conhecido do Brasil, um lugar de destaque caberia à elite portuguesa. Tanto à local quanto à de além-mar. Colhendo os bons frutos de uma diáspora bem disseminada em várias partes do mundo, Portugal conta com quadros que se destacam tanto à frente de organismos multilaterais de prestígio mundial quanto com executivos que brilham em indústrias como a automobilística. O que se vê hoje é uma elite que está à vontade em muitas partes do mundo – reeditando que já era de regra desde os tempos das grandes navegações –, e uma pujante valorização do legado cultural da terra. O advento desse "soft power" vem em boa hora e é justo tributo a quem saiu da crise pelo caminho árduo do trabalho e do sacrifício. A impressão que se tem é que a comunidade de negócios percebe claramente que o pior ficou lá para trás. E que o futuro sorri para Portugal.  Ainda bem.


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