O mundo vai à Feira

Repasso mentalmente a visita à Euroshop, um dos maiores eventos de varejo do mundo

Por Fernando Dourado Filho, de Colônia e Berlim (Alemanha)

Fernando Dourado Filho visita a Euroshop, um dos maiores eventos de varejo do mundo

No momento em que escrevo essas anotações para o blog, viajo a quase 300 quilômetros por hora num trem silencioso que liga as cidades renanas à velha capital alemã. Sonolento e alquebrado, devido ao ritmo puxado dos últimos dias, repasso mentalmente a visita à Euroshop (foto), uma das maiores feiras de varejo do mundo, que termina logo mais em Düsseldorf. Enquanto meus clientes se deleitavam com as inovações tecnológicas que só serão reeditadas no mesmo formato em 2020, vez por outra eu espichava o olho para o que acontecia no cenário cultural daquele espaço gigantesco e, conforme veremos, cheguei a algumas conclusões que gostaria de compartilhar com vocês. Se do ponto de vista da organização, tudo obedeceu ao invejável padrão alemão de previsibilidade e eficiência, há de se atentar para outras ocorrências que merecem consideração.

1) Tal como já constatei em diversas feiras a que compareci nos últimos 30 anos, é irrisória a presença de negros e afro-descendentes de forma geral. Embora a Euroshop traga novidades do setor de varejo, muitas dela ligadas ao estado da arte da informática e nanotecnologia, temos de admitir que tampouco é tão "high tech" a ponto de afugentar os africanos, diante de seu progresso precário. Por outro lado, que serventia podem ter gôndolas reguladas a peso que disparam alarmes aos repositores de estoque sempre que a mercadoria está em falta? Ora, na África, mesmo nos países mais desenvolvidos do Sul e do Oeste, será sempre mais barato recorrer à mão de obra abundante e treiná-la para pequenas tarefas. Se isso já é impensável na Escandinávia ou na Europa Ocidental, temos bom caminho a percorrer entre o Cairo e Lusaka, Casablanca e Nairóbi;

2) Em igual medida, o mesmo se pode dizer da China e Índia, muito embora os primeiros compareçam como expositores de produtos de batalha, se destacando um pouco mais nos pavilhões de iluminação. Mesmo assim, é bom que se diga, no chamado "low end" da oferta. É muito curioso atentar para o estilo despojado. Entre eles, não se verão estandes de impecável bom gosto, com todo o esplendor da criatividade e do valor agregado do mundo europeu. O que muito se vê é equipamento extravagante, com algum componente tecnológico, porém pilotado por uma equipe sequiosa de saber o que o cliente ocidental quer para que eles apontem equipes para customizá-lo. O que isso demonstra? Pouca pró-atividade e disposição inventividade, mas imensa capacidade de reação à expectativa alheia. A maioria das indústrias é de Xangai, o que não causa nenhuma surpresa. Sempre foi a fábrica da China, ao passo que Pequim funciona como centro político; 

3) Ainda sobre os chineses, está viva a recorrência de um hábito de que não abrem mão: o almoço na hora certa. Ao meio-dia em ponto, inapelavelmente, mesmo que o estande esteja cheio de visitantes ilustres, os chineses se sentam para comer com apetite e concentração. Alguém se encarrega de lhes trazer pratinhos de comida cantonesa acondicionada em caixas de isopor. Isso me fez lembrar certa feita numa feira de instrumentos musicais em Pequim. Contratei três estudantes para me ajudar a atender os visitantes. Mas todas queriam sair ao mesmo tempo para almoçar. Neguei permissão. Que elas não vieram sequer pedir, aliás, senão informar. Reagiram com horror quando eu disse que queria a presença permanente de duas delas comigo, enquanto a terceira almoçava. Que se revezassem. Depois, na despedida, disseram ter me julgado um tirano por aquele ato desabusado. "Contra a lei", sussurrou uma delas. Comer à hora certa é importante atributo de saúde. Mais do que isso, foi uma conquista do regime comunista que ficou enraizada. Ainda hoje é assim;

4) Uma excelente notícia: como se está falando espanhol nesse mundo! É perceptível que num ambiente onde mais de 100 idiomas cruzam os ares a todo momento, e em que até o português não faz feia figura, o castelhano tenha tomado uma dianteira nítida face ao francês, o italiano e mesmo ao russo. É como se a língua de Cervantes tivesse virado uma alternativa imediata de aprendizado e de adoção nesses últimos anos. Isso é maravilhoso para a imensa maioria dos países latino-americanos, a Espanha e, é claro, para luso-falantes como nós, que temos imensa facilidade em aprender essa língua outrora tão pouco levada a sério em nossos meios. É evidente que sem o inglês aquilo viraria uma torre de Babel absoluta. É candente observar o quanto a proficiência do inglês faz toda a diferença. Uma apresentação feita por uma notável consultora alemã sobre a cidade do futuro resultou em tremendo fracasso dado o nível ruim e a pobreza de seus escuros expressivos.

5) Para concluir, vale observar que nessas lides de levar o consumidor a comprar sempre um pouco mais do que precisa, o varejo brasileiro estava bem representado e muita gente se abstrai das condições algo frágeis da estabilidade politica e coloca suas cartas no bom desempenho da economia que começa a ficar patente para muitos. Embora ninguém ouse dizer com todas as letras que o pior ficou para trás, o certo é que se não tivermos percalços promovidos pelos que querem a desarrumação do cenário, talvez consigamos retomar o bom caminho em 2018. Melhor dizendo, consolidar o que está sendo trilhado. Mas, pensando bem, essa já é outra historia e agora o trem já se aproxima de Berlim. Hora de achar um hotel e curtir um pouco da paz primaveril que se instaura por essas bandas e torcer para que as chuvas do de ontem deem uma trégua. Como se diz aqui, "bis Bald". Bom fim de semana!


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