Raciocínio de empreendedora

Tomada pela sinceridade que só as amizades antigas permitem, ela se declarou muito feliz com a opção que fizera

Por Fernando Dourado Filho, de Colônia (Alemanha)

Fernando Dourado Filho conta a história de uma bancária que se tornou prostituta

Vamos aos fatos como eles são. Tem homens que gostam de fazer sexo com prostitutas profissionais. Acham que é uma relação mais objetiva, direta e, cinicamente, podem até dizer que sai muito mais barato do que se tivessem que trilhar o longo caminho das ligações sentimentais profundas. O que afirmo nada tem de novidade. Se assim não fosse, a profissão tida como a mais antiga do mundo teria já deixado de existir assim como a de datilógrafos ou navegadores de bordo. Outros tantos homens, é óbvio, prescindem dessa prestação e vivem sua sexualidade com parceiras (os) fixas (os) ou de forma nenhuma. Enfim, vai do gosto e do momento de cada um. Para efeitos do tema que trataremos, nos interessa o primeiro grupo. 

Pois bem, dia desses soube de uma história curiosa a esse respeito. Um senhor muito cioso de sua privacidade e bastante namorador, para nos fixarmos num termo simpático, buscou sexo num site e lá se foi ao encontro da escolhida em endereço que ela lhe passou pelo celular, com todas as coordenadas devidamente apostas no GPS. Chegando ao apartamento, na região de um confortável condomínio da periferia paulistana, eis que ela abriu a porta para recebê-lo. Qual não foi a imensa surpresa que tiveram ao constatar que se conheciam há bom tempo. Isso porque ela fora gerente de conta de um grande banco privado em prestigiosa rua de São Paulo. Se a reação dele foi de estupor, a dela não poderia ter sido mais profissional. 

Sem querer que o encontro perdesse o clima, ela o incentivou a descalçar os sapatos, tomar um uísque e relaxar. Vencidas as barreiras após o choque do reencontro, teve inicio um animado bate-papo sobre a nova situação. Se ele pouco tinha o que contar da vida, ela tinha uma longa crônica a relatar, já que só assim lhe satisfaria a curiosidade. Tomada pela sinceridade que só as amizades antigas permitem, ela se declarou muito feliz com a opção que fizera. Só lamentava não ter pensado nisso mais cedo quando ainda estava na casa dos 20 anos, e não da dos 30 como agora. Além do mais, podia fazer seus horários livremente e trazer à vida uma qualidade que era incompatível com as antigas funções de bancária de alto nível, enfatizou. 

Como viu que nem o sexo nem o drinque tinham desmobilizado a perplexidade dele, ela foi bastante concreta. "Veja bem, antes eu recebia R$ 9 mil e os impostos comiam a metade. Hoje eu ganho três vezes essa soma sem recolher um tostão para o governo. Minha filha estuda logo ali adiante, num colégio frequentado até por filhos de cantores sertanejos famosos. Muitas vezes vou deixá-la e pegá-la, o que antes era impossível. O apartamento aqui é próprio e aluguei um salão de beleza para minha irmã. Não sei mais o que é problema de trânsito porque trabalho em casa. Já fiz duas viagens em família ao Nordeste e no próximo ano vamos à Argentina. Quanto à gestão do dinheiro, você sabe que não fiz outra coisa a vida toda. Só que agora faço investimentos para mim", contou.  

Perguntada se tinha fixado um prazo para abandonar essa vida, ela riu com gosto. É claro que se trata de um mercado concorrido e as profissionais precisam pensar como jogadores de futebol. A partir de certa idade, os atributos físicos não serão mais os mesmos e é bom antever o futuro e cobrar o máximo no presente. Mas não descartava que uma relação afetiva surgisse mais adiante. Poderia até dar muito certo contanto que não fosse vista como panaceia. Afinal, perguntou, quantos relacionamentos não se sustentam por pura conveniência patrimonial? 

Então despediram-se com os afagos que o momento pedia e votos de reencontro. No fundo, ele estava tomado por grande admiração por aquela mulher que sempre parecera tão assertiva. Só não podia se apaixonar. 


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