Bilionários sem propósito

Muitos não estão prontos para o usufruto da fortuna, o que os leva a resvalar para o ridículo

Por Fernando Dourado Filho, de Estrasburgo (França)

Fernando Dourado Filho faz uma crônica sobre os bilionários sem propósito

Parece que foi Balzac quem disse que por trás de toda fortuna havia um lastro de crime. Antes que a "boutade" do escritor francês possa virar slogan do PSOL ou de alguma outra sigla maniqueísta, é bom enfatizar que foi o líder comunista Deng Xiao Ping afirmou que "enriquecer é glorioso". Sem emitir maiores juízos de valor, certo é que a possibilidade de geração de riqueza é fator determinante de prosperidade e bem-estar dos povos. Se, por outro lado, alguns poucos se empavonam em ostentar, o problema não decorre do dinheiro em si, mas do que ele representa para certas pessoas. Muitas delas não estavam prontas para o usufruto de grande fortuna, o que as leva a resvalar para o ridículo, no afã de se mostrar a si mesmas à altura. A crônica recente atesta, ademais, que os verdadeiros bilionários procuram manter perfil baixo e não tiram do dinheiro os prazeres fundamentais da vida que são, na verdade, gratuitos. 

Mas a propósito do quê abordo esse tema na boca do fim de semana? Acaso é meu desejo voltar às diatribes de Eike Batista e afirmar o quanto ele foi infantil ao lidar com um aceno espasmódico de que poderia vir a se tornar um bilionário sustentável? Não. Não é de meu feitio espezinhar quem deve estar sofrendo demasiado pelos maus passos. Queria sim falar do monarca saudita que desembarcou na Indonésia essa semana, à frente de uma família estendida de mais de mil pessoas e com meio milhão de quilos de bagagem. Trata-se da primeira escala de um longo périplo. Caso típico dos mandatários que saíram do camelo e tomaram assento no Rolls Royce em menos de um século, há de se ressaltar que a ostentação no mundo dito árabe não se confunde com o conceito de "nouveau riche" consagrado em algumas partes do Ocidente. Nas teocracias, o dinheiro abundante pode sinalizar simplesmente que Alá reconhece no governante um homem virtuoso. E resolveu compensá-lo.

Comentando tempo desses o dia a dia dos bilionários com uma amiga, ela relatou algumas das extravagâncias risíveis protagonizadas pelos russos nas grandes estações de esqui da Europa. Numa delas, na Suíça, o programa noturno consiste em comer "fondue" num chalé-restaurante que fica na parte mais alta do sítio. Ora, essa rústica e deliciosa iguaria helvética custa, em qualquer lugar, não mais que 50 francos, se tanto. Como forma de adubar a conta, eis que o gerente do local resolveu transformá-lo em experiência. Assim, os comensais são agraciados com um bisonho passeio de trenó de seus apartamentos até o restaurante e vice-versa. Ao final, devidamente embriagados, não hesitam em pagar até 1.200 francos por cabeça. Indagado se não se sentia constrangido em perpetrar tal abuso, o hoteleiro mostrou a longa lista de espera que tinha para aquela noite. Nessa ocasião, a amiga viu um russo pagar 3.000 francos pelo melhor par de esqui profissional do mundo para presentear um principiante. É total falta de senso de proporção.    

Voltando às monarquias do Golfo, as histórias que correm à boca pequena em Genebra são pródigas em detalhes. Como, por exemplo, a da princesa saudita que foi à loja da Cartier e não encontrou o anel de safira que procurava. Ofereceram a mesma opção de "design" em rubi e esmeralda, mas não era o que ela queria, pois tinha uma festa naquela mesma noite. Alguém então disse que o anel estava disponível em Londres e poderia chegar no dia seguinte. Mas ela teve melhor ideia. Mandou chamar a tripulação e partiu para a Inglaterra de imediato a bordo de um enorme 747, só para si e um pequeno séquito. No cair da tarde, estava de volta à Suíça, pronta para a noite de gala. Já o pessoal do Kuwait, sabendo o quanto é trabalhoso acomodar no avião uma limusine blindada de forma a que não comprometa a segurança do voo, manda distribuir gorjetas de 40 mil francos para a equipe responsável pela operação, geralmente formada por cinco pessoas.  

Entre todas essas histórias que poderia citar às dezenas, poucas são mais grandiosas e fanfarronas do que a festa que o Xá do Irã ofereceu em Persépolis para celebrar os 2.500 anos da dinastia persa. O cardápio foi confiado ao Maxim´s de Paris. Consistia em ovos de codorna recheados com caviar Imperial do Mar Cáspio regados a Champagne Grande Dame. A segunda entrada era mousse de cauda de lagosta com um Château Haut-Brion branco, safra de 1964.  Na sequência, cordeiro com trufas. O vinho era um exclusivo Château Lafite Rohschild 1945. Como sobremesa, um "sorbet" de Champagne Moët Chandon, safra de 1911. Depois era a vez do pavão assado ornado com as próprias penas na cauda, recheado de "foie gras", escoltado por uma salada de trufas. O vinho era um Comte Georges de Vogüé, 1945. Para finalizar, figos frescos com creme, sorvete de champanhe de framboesa e Dom Perignon rosé, ano 1959 – um vintage, portanto. Após o café, talvez jamaicano, Cognac Prince Eugène e charutos. Depois disso, alguém pode se espantar com a chegada dos aiatolás ao poder? 

Por hoje é só. Qualquer hora dessas falaremos dos bilionários com propósito. Gente como Bill Gates que dedica parte importante de seu tempo a causas humanitárias da maior relevância em lugares onde o dinheiro pode sim fazer toda a diferença. De risíveis, já adianto, eles nada têm. Mas, ao fim e ao cabo, enriquecerão muito mais a crônica da vida humana na Terra.     


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