François Fillon e outros

Certo é que os dilemas deontológicos varrem boa parte do planeta

Por Fernando Dourado Filho, de Colmar (França)

François Fillon, candidato presidencial francês

No auge do impasse Collor, já se vai um quarto de século, conheci um sujeito meio bufão, desses que se comprazem em dar testemunhos sobre a História e seus bastidores. Quem não soubesse de seus antecedentes, poderia até acreditar que ele era, efetivamente, a figura providencial por que tentava se passar. Já os que sabiam de seu histórico, se contentavam em lhe pagar um jantar e ouvir de viva voz um relato que, embora delirante e enviesado, conseguia divertir. Isso porque trazia nas entrelinhas o DNA de um Brasil em que a desigualdade de oportunidades era de lei e o erário era o atalho para a fortuna com que tanto sonhava. 

Esse homem de vida intensa e já falecido, natural de Curitiba – o QG da operação que eviscera a máquina pública brasileira –, gostava de indagar os conhecidos sobre o que preferia: um cheque de 10 milhões ou um mandato de senador? A própria pergunta já traía o raciocínio viciado. Ora, quem quisesse abrir um negócio ou não tivesse vocação política alguma, deveria optar pelo primeiro. É o que manda a lógica. Já outros certamente viam numa cadeira no Senado uma chance única de influenciar os rumos do Brasil. Para estes, dinheiro nenhum valia o privilégio e exerceriam a honrosa função até gratuitamente. Para ele, contudo, a resposta certa era exercer o mandato e monetizá-lo. Daí elucubrava. 

Muito do que vivemos no Brasil de hoje pode ser sintetizado na dicotomia canhestra que embutia a pergunta primária daquela figura tão antiga e, paradoxalmente, tão atual. Para ele, assim como para milhares de pessoas que gravitam em torno de protagonistas de poder – seja como aspirantes ou coadjuvantes –, a chamada carreira política obedece menos a um chamamento e mais à busca de uma posição onde se possam compatibilizar a capacidade de influenciar – desejavelmente a soldo de uma parte interessada – e, ao cabo de algum tempo, a de usufruir da prebenda de tonificar seu núcleo político com dinheiro, com risco mínimo.  

Vendo o Brasil atravessar uma quadra de refundação num pós-Carnaval que promete ser fértil em revelações sobre o funcionamento dessa mesma engrenagem, espantou-me constatar que a França não está longe de consagrar práticas escusas. Isso porque a toda hora espoucam escândalos que fariam o general De Gaulle ruborizar. Um dos mais desconcertantes dessa temporada traz elementos comuns ao "modus operandi" brasileiro, o que tropicaliza a austera paisagem rural gaulesa. Pois não é que o inatacável François Fillon (foto) foi pego com a boca na botija, se valendo de expedientes dignos de Brasília? A que me refiro? 

Pois bem, o impoluto candidato da direita, opção eleitoral mais viável para conter a arremetida de Marine Le Pen, do Front National – uma entidade portadora de promessas insanas que, se cumpridas, colocariam por terra o sonho europeu – empregou os dois filhos e a esposa em seu gabinete. Se em favor desta ainda se podem alegar o desempenho de funções de assessoria doméstica, chocou que os dois filhos percebessem, quando estudantes, mais de 3 mil euros ao mês, num arranjo do estilo "verba de gabinete" comum em nossas plagas. Ora, na tradição de austeridade que se impunha à presidência francesa até Sarkozy, isso era impensável.   

Certo é que uma varredura pelo Twitter no noticiário do mundo não deixa margem a dúvidas de que os dilemas deontológicos – quando não de deslavada corrupção – varrem boa parte do planeta. Agentes chineses sequestraram em Hong Kong um milionário refugiado. O presidente da Samsung desfila algemado sob o olhar público. Abe, no Japão, protagoniza estranho caso de favorecimento. Na Malásia, jogos de poder na Coreia do Norte pretextam execuções no saguão do aeroporto. Na Argentina, nem Macri se safa. Nos Estados Unidos, logo a família Trump sucumbirá à fatalidade do conflito de interesse. O que não dizer de Putin? 

Ora, embora os casos acima sejam dessemelhantes, não se pode negar que a política já não é só o afrodisíaco de que falava Dr. Ulysses Guimarães. Tal definição é suave e romântica diante dos fins a que se presta em algumas latitudes. Eles podem tomar forma de abuso de poder, perseguições e até de mortes. Impõe-se admitir que não há mal algum em querer ganhar dinheiro. É isso que faz a grandeza das nações. É claro que a força empreendedora pode ser sabotada pelo poder discricionário da burocracia. Nessas horas, a História tenta ensinar que é melhor fazer coro com os íntegros e travar o bom combate. Evitando assim a cooptação, o que equivale dizer descer ao "inferno à procura de luz", no verso de Lupicínio. 


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