Donald: a largada digna de Pateta

A erosão da credibilidade já faz estragos até na Rússia onde ele vinha conseguindo mais citações que Putin

Por Fernando Dourado Filho, de Madri (Espanha)

Fernando Dourado Filho analisa um mês de Donald Trump como mandatário na Casa Branca

Brincar numa hora dessa com personagens da Disney pode até parecer um sacrilégio. Mas não tem como ser de outra forma quando se trata de falar sobre as patetices do primeiro mês de governo de Donald Trump. A título de esclarecimento ao leitor leigo, ressalvo que, efetivamente, o Pato Donald tem algo em comum com seu xará presidente: ambos padecem de surtos de ambição desmedida, muitas vezes fora da realidade. Tal comportamento decorre de um jeito meio mimado de ser comum a ambos, mas cujas origens, no caso do Pato dos quadrinhos, permanecem desconhecidas. Já no caso do presidente, o voluntarismo pode ter decorrido da carteira generosa do pai. Seja como for, hoje queremos falar do mandatário norte-americano e ficará mais fácil explicar o que tem seu comportamento de patético, logo digno de Pateta, o personagem trapalhão do universo da Disney. 

Pois bem, mal cheguei à Europa e deparei com um bom artigo de Llàtzer Moix, no jornal "La Vanguardia". Fazendo o percurso tentador de sair do específico para o geral, começa dizendo que Trump "mente mais do que fala". Entre suas invencionices bufonas, já fabulou um romance com Carla Bruni, logo desmentido pela própria. Disse que sua famosa torre da Quinta Avenida tem 68 andares, quando tem 10 a menos. Atribuiu-se a propriedade do Empire State Building, outra mentira deslavada. Na campanha, chegou a afirmar que o desemprego nos Estados Unidos batia os 42% quando, na verdade, baixou de 10% para a metade sob Obama. Inventou que sua posse diante do Capitólio foi recorde de comparecimento de público, outro fato inverídico, de pronto comprovado pelas fotos. Aludiu ainda ao bom agouro do sol que luzia no dia, quando se veem fotos de Melania, a esposa, abrigada sob um guarda-chuva. Essa paixão pelo embuste – ou pela tal pós-verdade – é bem inventariada pelo jornalista. 

Citando outra fonte, desta feita a publicação "Politico", constatou-se que apenas 16% do que ele disse em campanha alcançava o umbral de meia verdade. As demais eram lixo puro. Tão contagiante parece ser o efeito de cima para baixo que já teve que demitir Michael Flynn, o homem chave do Conselho de Segurança Nacional. Tudo por ele ter se reunido às escondidas com o Embaixador da Rússia em Washington. Emulando o chefe, blefou, negaceou e tergiversou a respeito diante de ninguém menos do que o vice-presidente Pence. Posto diante do inevitável, caiu fora como um reles ministro de uma republiqueta de bananas. E pensar que tal cadeira já foi ocupada por Henry Kissinger e Zbignieuw Brzezinski em governos passados. Na verdade, sobre cada um daqueles assessores que o cercam no ato de assinaturas midiáticas antes que Donald as despeje em invariáveis mensagens por Twitter, já pesa um deslize digno de nota apenas um mês desde a posse.

Pouco a pouco, a escassa mitologia se esfarela. Como dizem observadores bem posicionados, ele não é sequer bom negociador. Ele é bom em fazer crer os incautos que seja um bom negociador, coisa tola e diferente. A erosão da credibilidade interna começa a fazer estragos até na Rússia onde Donald, antes de ser alçado a Pateta, vinha conseguindo mais citações na imprensa do que o próprio Putin. O tom de entusiasmo de seus patrocinadores já baixou e eles temem que haja um recrudescimento de medidas quanto à presença russa no Donbass ucraniano por conta de pressões republicanas. O jornalista catalão conclui sua matéria da melhor das formas, citando Montaigne: "Ao mentir, faço mais dano a mim mesmo do que àqueles para quem minto". É questão de tempo para que Donald venha a conhecer a plenitude dessa verdade. Então deverá sair bastante chamuscado das teias em que o narcisismo, a impulsividade, a ignorância indigente e a imaturidade emocional o remetem.   


leia também

"Carnaval à vista" - Embora reconheça a exuberância da festa carioca, é para o eixo Recife-Olinda que se voltam meus afetos

A China é economia de mercado, quer queiramos ou não - Não podemos imaginar que ganharemos algo confrontando a maior economia do mundo com argumentos frágeis

A China rural não existe mais - A mudança do modelo de crescimento econômico continuará elevando as demandas do país mais populoso do mundo

A luz no final do túnel é um trem chinês - O país de proporções gigantescas mantém a estratégia de crescer

A necessidade de controlar a internet nas empresas - O mau uso pode causar até mesmo demissão por justa causa

A nova ambição do encantador de clientes - Galló anuncia missão de ser “o maior varejo de moda das Américas”

comentarios


Seja o primeiro a comentar a notícia!



Comentar

Adicione um comentário: