A sétima arte

O cinema ainda é uma deliciosa viagem virtual e, felizmente, ainda ao alcance de muitos

Por Fernando Dourado Filho, de Guarulhos (SP)

Cena do filme "La la land"

A semana passada deixou um saldo de entretenimento de excelente qualidade, baixo custo e, como veremos, resultou na reflexão com que abro essa segunda-feira que antecede o Carnaval. Digo-o porque entre a quinta-feira e o domingo estive quatro vezes no cinema. Se isso não chega a ser um sacrifício, devo admitir que o calor saariano de São Paulo certamente me facilitou a decisão. Afinal, pode haver forma mais barata de ficar a 23°C – contra os trinta e tantos que reinavam na rua – num ambiente de silêncio e puro encantamento? Dificilmente. Tudo fica melhor quando os filmes nos remetem a viagens virtuais, tramas bem urdidas ou ousadas tentativas de reinvenção de linguagem. 

Nesse contexto, depois de assistir a "La la land" (foto) – um filme que me inspirava resistências enraizadas por se tratar de um musical – lembrei-me do slogan do grupo Luiz Severiano Ribeiro, proprietário de muitas salas de projeção Brasil afora entre os anos 1960 e 1990. "Cinema é a maior diversão", dizia. Afinal, o filme referido encanta a audiência pela leveza, alguma fantasia, despojamento do elenco e pelo frescor que suscita, a justo título, as opiniões mais controvertidas. Embora muitos possam ter pensado que teriam feito mais negócio se tivessem ido tomar uma cerveja, fato é que a plateia estava mesmerizada e houve até tentativa de aplauso no final. Eis um caso de filme que honrou o lema do grupo carioca. 

O segundo filme foi o excelente "Lion". Não entrarei aqui no mérito dos filmes mesmo porque esse terreno está muito bem servido pela crítica especializada, a começar por Eleonora Rosset, que sempre enxerga algo além do que percebemos. Mas conhecendo a Índia e estando familiarizado com o caos de suas estações ferroviárias, não poderia ter sido maior minha emoção ao ver as paisagens rurais desaguarem, com o desenrolar da trama, nas águas do mar da Tasmânia, na Austrália, nesse que foi um dos melhores filmes que vi nos últimos anos e por cujo futuro muito torço. Nicole Kidman consegue dar o toque de classe inerente a seu carisma e comprometimento com essa arte.

"Estrelas além do tempo" foi também dos melhores que vi recentemente. Focado nas vidas de cientistas negras que trabalharam em partes vitais do programa espacial americano – e, apesar disso, sofreram tremendas provações por conta das políticas de segregação racial que não poupavam sequer o mais nobre dos programas científicos dos Estados Unidos de então –, o filme é baseado na história real de três mulheres notáveis e não há quem saía da sala sem matutar sobre quantas pessoas não ficaram no meio do caminho do que poderiam ter sido carreiras brilhantes. Tudo isso por conta de discriminações odiosas, por elas superadas a duras penas e com muito brilho. 

Por fim, se você vai ficar na cidade e passará ao largo das festas de Carnaval – se é que elas existem na sua cidade –, recomendo ver "Aliados". Se o tema de dois espiões que se apaixonam não chega a ser inovador no cinema, há de se levar em conta que a química da dupla Marion Cotillard e Brad Pitt não é banal. Tanto no palco de guerra do Marrocos dos anos 1940 quanto na Londres intensamente bombardeada pela Luftwaffe, os atores são convincentes nos papéis verossímeis que desempenham e tenho certeza de que você terá sempre a ganhar se vencer certa resistência contra o que pode parecer um mero filme comercial que, afinal, também resulta em entretenimento de qualidade. 

Com isso, espero ter dado minha contribuição à cultura para os próximos dias. A esse respeito, embora sempre tenha gostado de cinema, devo admitir que uma componente irrequieta em meu temperamento me afastou das salas durante boa parte dos anos 1980 e 1990. Talvez em função da adrenalina da idade e pela sensação de que a vida estava correndo lá fora, e não necessariamente confinado numa sala escura cercado por desconhecidos. Hoje, devo admitir, é uma diversão inigualável, especialmente em tela grande e ao lado de um público sóbrio que, tanto quanto possível, nos poupe do penetrante cheiro de pipoca. Seja como for, ainda é uma deliciosa viagem virtual e, felizmente, ainda ao alcance de muitos.   


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comentarios




Eleonora Rosset

Fernando querido, Como sempre você brilha no seu texto leve e tão simpático. Fiquei super orgulhosa com a menção do meu nome e dos meus olhos que veem mais do que muitos. Sou sua fã! Beijos!

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