"Carnaval à vista"

Embora reconheça a exuberância da festa carioca, é para o eixo Recife-Olinda que se voltam meus afetos

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Fernando Dourado Filho conta o que espera do Carnaval deste ano

Quando viajo mundo afora, muita gente pergunta em que consiste o Carnaval. Como nordestino, é claro que puxo a brasa para minha sardinha. Embora reconheça a exuberância da festa no Rio de Janeiro, é para o eixo Recife-Olinda que se voltam meus afetos. E, sem quaisquer laivos de culpa, passo direto por Salvador, por entender que os ritos baianos – excessivamente monetizados – não batem com o espírito de quem passou a juventude no Galo da Madrugada nas manhãs do sábado e o restante da celebração pelas ruas estreitas da Marim dos Caetés. Bairrismo? Claro. Seja como for, muito coisa mudou nesses últimos anos. Tanto no Carnaval quanto em mim. 

Três motivos concorrem para tanto. Se dos anos 1980 até o começo do milênio, eu ainda participava entusiasticamente de todas as prévias que nos preparavam para a folia, a forma intensa de celebrar o amor por Pernambuco começou a declinar quando as músicas que ouvia desde a infância foram paulatinamente substituídas por um repertório que já não evocava em meu coração os mesmos sentimentos de pertencimento do passado. Uma coisa era a voz inconfundível de Claudionor Germano entoando frevos de Capiba. Outra bem diferente era ouvir a voz de Daniela Mercury na Avenida Guararapes. Essa foi a primeira decepção. 

Peço um momento: seria decepção a palavra certa? Talvez não. Digamos que tenha sido só um ponto de inflexão. Daniela, a exemplo de Ivete, são artistas de embocadura planetária e não desdouram festa nenhuma. Mas no Recife, para mim, a música delas e a de outros intérpretes nacionais ficava um pouco deslocada. O que não dizer então de outras bandas de menor calibre que coreografavam músicas pobres como "Na boquinha da garrafa" e afins? Se "É o Tchan" poderia ensejar divertidas brincadeiras para crianças e adolescentes, a meu coração não diziam rigorosamente nada. Com isso, botei o primeiro pé fora do Carnaval e passei a pensar em alternativas.

Já se infere pelo acima descrito o segundo fator: a ranzinzice da idade. É claro que isso tem um peso. Fosse alguns anos mais jovem, certamente que não me privaria da festa que outrora me alegrava tanto por conta do repertório. Afinal, Carnaval sempre foi mais do que isso. Mesmo porque resvalava uma dimensão lúdica e mágica. Assinalava, ademais, o reencontro festivo com a ampla diáspora pernambucana que, espalhada entre o Acre e Rio Grande do Sul, ali se encontrava para confraternizar, como se estivéssemos em plena adolescência. Mas à medida que os anos foram se somando, com eles baixou um espírito preguiçoso e contemplativo. O que não combina com Carnaval. 

Como terceiro e último fator, sem qualquer ordem de hierarquia entre eles, assoma a questão da violência e da deterioração da qualidade do convívio no espaço urbano brasileiro. Sou de um tempo em que as ocorrências policiais despencavam drasticamente na época do Carnaval. As urgências hospitalares ficavam em alerta devido aos excessos naturais do sol e da bebida. Mas diziam que as delegacias ficavam às moscas. Agora tudo mudou. Semana passada, nas ladeiras de Olinda, soube de três casos de amigos que "perderam" celulares com fotos preciosas. Ou seja, as precauções precisam ser tantas que não há espontaneidade que resista.                

Mesmo assim, de onde estiver, terei um olho espichado para o que se passa nos principais palcos do carnaval no Brasil. Não só nas capitais, mas também em lugares bucólicos do interior do Sudeste onde já passei bons momentos. Ouro Preto, cidade linda, é um deles. Mas nada se compara ao que vivíamos até 20 anos atrás em Pernambuco. Seja como for, espero que o Carnaval que se aproxima assinale um intervalo saudável para os amigos e amigas de todo o Brasil. Estarei trabalhando um pouco longe daqui. Mas reportarei de lá os ecos de um mundo que segue em frente durante esses feriados. Divirtam-se, vocês merecem.


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