Livros: o destino de um amor

Onde estiver, a alma do finado se sentirá apunhalada. Sofre menos quem não ama

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Fernando Dourado Filho lista vários tipos de intelectuais

Conheço vários tipos de intelectuais. Tem aquele sujeito erudito, geralmente hermético, que se distrai com as digressões que faz e parece embevecido pelo som da própria voz. Tem outros de feitio mundano, com quem me dou melhor, porque fazem um contraponto entre temas mais densos e outros nem tanto. E tem aqueles que não são nem uma coisa nem outra e que conseguiram cavar um espaço nesse leque por ser frasistas de ocasião. Um pouco bobos de corte, adoram jogos de palavras manjados e estão sempre siderados pelo último livro. Como dito, me identifico mais com o segundo grupo, embora não seja de todo afeito a intelectuais em geral. Se os cultivo, não é por apreço especial à classe. É por absoluta incapacidade de conviver com os viventes de horizontes limitados e opacos. Pelo menos quando estou sóbrio, logo menos tolerante.  

Nesse contexto, tive muito prazer em conversar dias desses com um homem irreverente e sábio. Aos 85 anos – tenho 58, logo basta inverter os algarismos –, ele me dizia que, quando jovem, tinha uma espécie de certeza de que mais cedo ou mais tarde seria detentor de vasto conhecimento enciclopédico, capaz de cobrir todos os domínios do saber que lhe interessavam. Era uma questão de tempo. Hoje, disse, se dava conta da sandice juvenil. Embora movido a uma curiosidade insaciável – o que o leva a consultar gramáticas empoeiradas e a telefonar para amigos em plena madrugada para esclarecer porque "porta" é feminino e "portão" é masculino –, ele sabe que será inevitável morrer na treva da ignorância sobre a imensa maioria dos assuntos que lhe chamam a atenção: da gastronomia à astronomia. Para mim, esse é o intelectual que faz a diferença.   

Foi ao sair desse encontro olindense que se abateu sobre mim a maior das angústias. Admitindo que a morte pode me fulminar a qualquer momento, o que será feito de meus amados livros? Não falo, evidentemente, da falta que me farão fisicamente posto que morto já não sentirei nada. Penso especialmente nos exemplares que comprei e nunca tive tempo de ler e que, ingenuamente, vinha guardando para os dias de paz da idade provecta. Isso porque os pressupostos estão aqui mal alinhados: primeiro, precisaria viver muito. Segundo, não basta estar vivo, mas lúcido e saudável para percorrer milhares de páginas. Terceiro porque só se pode usufruir plenamente daqueles volumes na medida em que tivermos alguém com quem conversar a respeito dos temas lidos, alguém que queira ouvir o relato verbal ou mesmo escutar passagens à hora de dormir. 

Portanto é quase inevitável que muitos de meus exemplares fiquem órfãos. E que alguns jamais saiam do filme plastificado em que chegaram embalados de algumas das melhores livrarias do mundo. Sei que não se trata de um caso grave. Afinal, vivo num pequeno apartamento e eles cabem todos lá. Alguns ocupam os armários da cozinha já que a de minha casa não funciona, salvo pelas frutas e bebidas da geladeira. Sequer conexão de gás eu tenho. Tenho colegas ilustres que escrevem para os mesmos veículos para os quais colaboro que chegam a ter livros espalhados por quase 20 cômodos de casas adaptadas para eles. A gravidade de meu caso é, portanto, ínfima. Ela se prende ao prazer de que me vi privado por não ter achado tempo para percorrer paisagens siberianas, biografias inspiradoras e relatos épicos sobre o cotidiano. 

Para finalizar essa página de reflexões tão pungentes, é impossível não pensar no querido amigo e escritor Evandro Affonso Ferreira. Em tempos idos, ele foi dono do aclamado sebo Avalovara, em Pinheiros, São Paulo, onde só entrava livro bom, literatura séria. Nada de best seller nem autoajuda – como gosta de dizer até hoje. Pois bem, falando sobre seus então colegas de ofício, ele me explicou como o negócio funciona. Uma viúva chorosa – nem isso terei – um belo dia resolve chamar o dono do sebo para proceder a uma avaliação da biblioteca do falecido. Fazendo corpo mole, o sujeito chega e, com ar de quem está perdendo tempo precioso, deprecia o conjunto do acervo. "Eles podiam valer muito para o marido da senhora. Vê-se que era um homem culto. Mas hoje, madame, tudo isso está digitalizado. Quem quiser acessa na internet a custo zero". 

Desolada, a boa senhora não tem como rebater os argumentos. A essa altura, o comerciante – que está simplesmente no papel dele – já detectou duas dúzias de gemas que ele sabe até a quem oferecer a peso de ouro. Mas olha o relógio e insiste no ar de enfado. Preocupada com o acúmulo de poeira, a viúva pede uma oferta. Ele diz que não fará porque é uma afronta. Seria muito pouco dinheiro. E depois tem o frete e o armazenamento. Mas ela insiste. Ele então oferece R$ 500 e uma ressalva. "Veja bem, eu estou roubando dinheiro de mim mesmo. É só uma consideração à memória do falecido". Resignada, ela aceita. Na mesma tarde, chega o carro para levar os últimos vestígios visíveis do ex-dono. O comerciante passará a mão no telefone e ligará para o colecionador famoso: "Acho que tenho uma novidade boa para o amigo". 

Onde estiver, a alma do finado se sentirá apunhalada. Sofre menos quem não ama.        


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