Lava Jato e Trump: qualquer semelhança não é mera coincidência

Para o ex-embaixador Jorio Dauster, ambas constituem graves ameaças a sistemas de poder estabelecidos de longa data

Por Jorio Dauster*

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos

Surpreendentemente, apesar da enorme diferença de contextos, a operação Lava Jato e a presidência de Donald Trump revelam um importante paralelo: ambas constituem graves ameaças a sistemas de poder estabelecidos de longa data, e ambas têm um desfecho nebuloso.

No caso brasileiro, a Lava Jato veio desmascarar o conluio despudorado entre a classe política e fortes segmentos da classe empresarial que, fundado no patrimonialismo originado em tempos coloniais, permitia a livre apropriação da coisa pública por interesses privados. Ao longo da história, a rede de relacionamentos espúrios passou a abranger outros estamentos, inclusive no judiciário e na grande imprensa, garantindo sua preservação graças à virtual certeza de impunidade dos participantes de um lado e do outro do balcão. 

Nenhuma agremiação política de porte escapou ao desastre. Com o passar do tempo, o custo crescente das campanhas eleitorais, conjugado à voracidade individual dos soi-disant representantes do povo, fizeram com que os volumes de recursos atingissem níveis astronômicos e exigissem que a ordenha de órgãos e empresas públicas nas três esferas da administração adquirisse um caráter sistêmico, de que é exemplo gritante o “setor de operações estruturadas” da Odebrecht (nome pândego da diretoria de cambalachos da maior empreiteira do país).

Evidente, porém, que o sistema não pretende se entregar sem luta à infecção que, nascida em Curitiba, já se espalha para outros locais com igual intensidade e, por conta das delações em curso e em potencial, tende a atingir a totalidade do organismo. As conversas nada republicanas gravadas por Sérgio Machado mostram como a elite do Congresso e um ex-presidente da República discutiam a necessidade de um “pacto” (envolvendo até mesmo as cortes superiores) para melar a Lava Jato. E agora ainda, com a morte de Teori Zavascki, se articula a indicação de um novo ministro do STF que possa ajudar a salvar a pele dos muitos políticos na linha de tiro, em particular revertendo a decisão sobre a prisão após a condenação em segunda instância. Ademais, no fundo das salas de nosso augusto Parlamento, ergue-se o espectro da anistia com relação aos que se beneficiaram da caixa 2, embora ninguém saiba explicar como justificar legalmente a receptação de dinheiro roubado de entidades públicas e nem como distingui-lo da mais descarada propina.

Mas o fato é que, contrastando com a velocidade com que correm os processos nas instâncias inferiores (82 condenações até o momento), decorridos quase três anos do início da operação Lava Jato o STF só produziu três denúncias e nenhuma condenação de políticos com foro privilegiado. A própria magnitude da delação coletiva da Odebrecht pode levar a um entupimento dos canais decisórios ao sobrecarregar a capacidade de investigação do Ministério Público e da Polícia Federal, além da já reduzida disponibilidade de tempo da corte suprema.    

A experiência da Mãos Limpas na Itália nos faz sentir que,  literalmente, há cheiro de pizza no ar. A diferença com relação ao passado – e nossa única esperança – está em que o dragão das ruas despertou, se mostra indignado e dispõe agora de um instrumento – as redes sociais – que vem se somar a uma imprensa mais aguerrida. Impossível saber onde estaremos daqui a seis meses ou dois anos em termos de reforma das instituições. Impossível dizer se o velho e corrupto sistema conseguirá sobreviver mais ou menos intacto, mas a única certeza é que, para ser positivo, o desfecho dependerá essencialmente da força da opinião pública porque as próprias raposas jamais irão limpar o galinheiro.

Já Trump, valendo-se do poder de intimidação que lhe permitiu falir quatro vezes e não pagar imposto de renda por 18 anos, vem usando uma gazua chamada populismo para arrombar o establishment norte-americano, feito tentado em vão pela última vez com possibilidade de êxito pelo senador Willian Jennings Bryant em três pleitos presidenciais entre 1896 e 1906. Desde então, numerosos chefes de estado dos partidos Republicano e Democrata, com programas mais ou menos conservadores ou liberais, se sucederam no poder sem que, na realidade, houvesse, como agora, o risco real de ruptura dos complexos esquemas de poder que, nos Estados Unidos, vinculam a classe política aos grandes interesses do mundo financeiro e industrial. 

Em escritos anteriores, descrevi os integrantes deste famoso establishment como pertencendo a um mandarinato que, como quase toda oligarquia, possui um componente dinástico – basta ver como Bush pai abriu para Bush filho as portas da Casa Branca, e como Bill Clinton foi o maior impulsionador da candidatura de Hillary. Mas a principal força da casta dirigente está no seu caráter meritocrático pela capacidade de cooptar os melhores cérebros, e no fato de que seus membros em geral transitam pelo governo, pela Wall Street e pelas universidades desenvolvendo um esprit de corps capaz de garantir um pensamento unificado e a estabilidade das instituições.

Não é à toa, porém, que, num país marcado pela crescente injustiça na distribuição de renda, a palavra establishment estivesse tão presente na recente campanha presidencial como forma de estigmatizar as figuras mais identificadas com os tradicionais “donos do poder”. O principal alvo desses ataques foi Hillary Clinton ainda enquanto lutava por se firmar como candidata democrata diante de seu adversário, Bernie Sanders, que a caracterizou seguidamente como um produto típico da simbiose entre o Washington e Wall Street. 

No final, entretanto, foi Donald Trump quem ganhou a competição anti-establishment ao se apresentar como defensor dos brancos marginalizados e vociferar contra as elites políticas (inclusive do próprio partido Republicano, que se viu obrigado a engoli-lo!) e a mídia liberal. Para aqueles que descontavam muitas de suas palavras como mera retórica de campanha, a escolha dos principais auxiliares e os primeiros dias na Casa Branca começam a mostrar que há uma real ameaça a valores e princípios por muito tempo tidos como intocáveis naquela que é ainda a maior potência planetária – suscitando, consequentemente, o risco de abalar a própria ordem internacional.

Como reagirá o sistema tradicional a essa investida de magnitude ainda incalculável? Num primeiro momento, a desregulamentação dos setores de petróleo e carvão, além dos benefícios fiscais para os mais ricos, poderão angariar aliados para Trump nos círculos corporativos, enquanto o Congresso, com as duas casas sob controle dos republicanos, não se oporá abertamente à agenda do novo presidente. Nessas circunstâncias, a oposição ficará a cargo da imprensa, diariamente vilipendiada pelo primeiro mandatário, e da opinião pública, como se viu na Marcha das Mulheres. No entanto, engrenagens mais profundas começarão a se mover se e quando interesses vitais da nação norte-americana porventura vierem ser ameaçados de morte – e a administração de Donald Trump correrá então o risco de não chegar ao fim.  

*Diplomata, ex-secretário no consulado do Brasil em Montreal e nas embaixadas em Praga e Londres, ex-presidente e da Companhia Vale do Rio Doce e ex-embaixador do Brasil junto à União Europeia.

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comentarios




Jonorio Menezes

A crise que deixou muitos norte-americanos na rua e sem casa, não ajudou o povo a descrer dos Democratas e se voltar à única alternativa possível? Talvez no Brasil, com o que tem acontecido, o povo se volte ao Comunismo mesmo já que outros sistemas não deram certo.

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