Da Política

Jamais ficarei totalmente indiferente ao tema, mas reconheço que ele já não desempenha o papel que teve um dia

Por Fernando Dourado Filho, de Ponta de Serrambi (PE)

Fernando Dourado Filho fala da relação que teve com a política brasileira ao longo de sua vida

Em plena adolescência, mal podia esperar a chegada dos jornais e revistas para discernir entre as linhas os recados políticos subjacentes a uma época de trevas. Descendente de uma família de homens públicos honrados, alguns deles defenestrados de suas funções pelos governos militares, a política era o sal da vida. Acompanhava maravilhado as predileções de meu pai e ouvia suas diatribes sobre os desafetos. No caso dos primeiros, louvava Juscelino como um homem de visão, destemido, carismático e, além de tudo, "bon vivant". Sobre Carlos Lacerda, nada dizia de positivo. Era um sujeito que fazia política com o fígado e, apesar do brilho individual, colocava seu projeto político acima de tudo e todos. Ademais, sendo adversário declarado de JK, como podia gostar dele? Achava Jânio louco e só voltou a ter algum entusiasmo pela política na época de Collor, o que foi um imenso equívoco. Mesmo assim, estigmatizava Lula. 

Era sobre esses temas que falávamos à hora do almoço. Depois, à medida que comecei a rodar o mundo, as injunções políticas dos países de residência pontuavam para mim mais alto do que para os próprios locais. Na França, peguei os últimos tempos do presidente Pompidou e me debruçava com afinco sobre a chamada Quinta República. A Inglaterra de Edward Heath me parecia um país que estava precisando ser sacudido daquela modorra, fato que se evidenciou quando Thatcher assomou no cenário. Na Alemanha, me identificava com o estilo sóbrio do longevo Helmut Schmidt, que viveu até tempos recentes. Em Israel, senti algum desespero com a chegada de Begin ao poder, o que terminou revelando um paradoxo: como podia um ex-guerrilheiro virar o artífice da paz com o Egito? Tudo isso me fascinava. O noticiário internacional estava alinhado a minhas necessidades de primeira ordem. 

Quanto ao Brasil, é claro que me sentia ao lado dos virtuosos sem mácula, daqueles políticos que buscavam o chamado voto de consciência e que não entretinham currais eleitorais onde vigoravam as práticas clientelistas, tão comuns às zonas pobres de onde vim, no semiárido nordestino.  Nunca faltava um primo mais ilustrado para me abrir os olhos e dizer que a coisa não era bem assim. Que era difícil fazer política sem dinheiro, especialmente na oposição. E que azeitar a máquina era condição impreterível para a vitória, o que nem de longe pressupunha práticas sinistras. Mesmo porque, estando na oposição aos militares, a que máquina teríamos direito? Nos vários ciclos que frequentava – Colégio de Aplicação, Aliança Francesa, ACAR, Universidade – convinha me precaver contra os agentes provocadores e as vivandeiras de quartel, aqueles que sob pretexto de combater o comunismo, apoiavam a repressão militar e denunciavam os rebeldes. 

Aos vinte e poucos anos, fui morar em São Paulo. Sabendo de boa fonte que ali se dera parte importante da resistência, e que a guerrilha urbana tinha executado pessoas de ambos os lados ali mesmo naquelas ruas perto de onde eu morava, me chocou perceber que os paulistanos com quem convivia eram quase totalmente indiferentes à politica. Analfabetos, eu diria. Para eles, todos se equivaliam e as siglas partidárias eram mero anteparo para camuflar interesses comezinhos. Terra de Ademar de Barros, Maluf e Jânio, comecei a entender porque se dizia que aquela cidade fascinante era o ventre gerador de desastres brasileiros. Mesmo quando abraçavam candidaturas de nordestinos que por lá se fixavam. Cheguei a pensar em me filiar a um partido político para surfar os ventos da redemocratização, mas vi que jamais teria as chamadas bases. Era um nômade. E o voto de consciência só me traria meia-dúzia de eleitores pingados. 

Foi assim que me deixei impregnar pelo traço paulistano que mais me chocou. Das vezes que levava nossos acionistas a Brasília para discutir uma pauta com autoridades, era perceptível que eles voltavam aliviados daquelas missões. Sim, fora boa a reunião com o chanceler ou com ministro da Fazenda, mas bom mesmo era voltar para casa e atuar numa cancha que eles conheciam bem: a do trabalho e dos resultados. Interessante que essa abulia não se calcificou como um estado permanente. À medida que eu me distanciava da política por querer abraçar causas que me pareciam ter apelo mais universal, comecei a ver que as discussões em torno da Constituinte e da formação do "centrão" empolgavam os ex-indiferentes. Seria aquilo sinal de uma conversão sincera às grandes causas nacionais? Menos do que eu pensava. Tratava-se de defender interesses legítimos e pontuais. Daí a "pensar o Brasil", ia uma distância. 

E hoje? Bem, digamos que eu permaneci moderadamente interessado por política, mas nem de longe com a intensidade de outrora. Os paulistanos viraram mais uma vez a caixa de ressonância dos rumos do debate nacional e a grande bipolarização que o Brasil viveu até pouco decorria de um embate nucleado lá. No Nordeste, mal acaba uma eleição e as pessoas já estão estudando o tabuleiro das sucessões. O sujeito ganhou uma eleição para prefeito de capital? Ei-lo credenciado para governador. Perdeu uma eleição para o Senado? Ei-lo possível candidato a deputado federal ou a prefeito de seu município. Tal como no mercado financeiro ou numa bolsa de apostas, o que conta é a expectativa futura. Se vai fazer uma boa administração ou ter um bom desempenho parlamentar, parece ser questão de somenos, salvo no caso de se envolver em escândalos sérios. 

O que para mim está claro é que jamais ficarei totalmente indiferente à política. Mas é forçoso reconhecer que ela já não desempenha o papel que teve um dia. Gosto muita de definição que ouvi certa vez de Walter Feldman: "A política é o amor dos amores". Mas meu encanto é mais retórico do que real, pois diz respeito a uma forma arquetípica que, na verdade, jamais vi se materializar de forma consistente por muito tempo. Semana passada mesmo, almoçava num restaurante recifense onde políticos de várias procedências dividiam um espaço diminuto. Quem os vê brigando no plenário da Câmara, muitas vezes em termos chulos, mal pode imaginar que se tratem com tamanho carinho pessoal e cumplicidade. Não digo que deva ser diferente. Digo apenas que é um jogo que se tornou menos nobre para os anos de vida que espero ter pela frente. A fila andou e a política ficou para trás. Muito embora nunca seja tarde para lembrar que os políticos se interessam muito por quem não gosta de política. Pois é nesse bolsão que reside uma preciosa massa de manobra. Espero não chegar a tanto.


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