A revolução sempre começa em casa

AMANHÃ reproduz a última coluna de Dulce Magalhães

Por Dulce Magalhães

AMANHÃ reproduz a última coluna de Dulce Magalhães

Toda e qualquer organização, seja uma família, uma empresa, uma repartição pública, uma associação, ou mesmo um grupo de amigos, tem duas alternativas para gerir a relação dever/privilégio. Uma organização consequente é aquela na qual uma ação corresponde a uma reação proporcional. Quando o contrário acontece, temos uma organização inconsequente, na qual as pessoas não são recompensadas apropriadamente por suas realizações, não há reconhecimento, nem punições. Ou seja, não há consequências. 

Todos já experimentamos sistemas inconsequentes, caracterizados pela impotência e pela impunidade. Processos de gestão inconsequentes não empoderam seus talentos, não apoiam os processos inovadores, nem recompensam apropriadamente os realizadores. A meritocracia não ocorre, nem se valorizam as boas práticas. Esse é um terreno fértil para ações corruptas, que desvirtuam, divergem ou transgridem leis e regras. Podemos perceber que o desenvolvimento ético é resultado do sistema, que facilita ou dificulta o aprimoramento individual e coletivo. 

Nos sistemas de gestão consequentes, cada dever equivale a uma honra e cada responsabilidade equivale a um privilégio. E as transgressões, omissões e desvios também têm desdobramentos que inibem ou impedem sua ação. A suspensão de privilégios e honras é a base resultante aos transgressores, podendo chegar à perda da liberdade e, em sistemas mais autoritários, até mesmo da vida. Contudo, dentro de uma reflexão ética, esse efeito demandaria uma instância metafísica ou transcendente para um julgamento adequado. É por isso que, em muitas culturas, o exercício do perdão passa a ser fundamental, como uma forma legítima de lidar com a questão e resignificá-la, dando ao tema uma absolvição interna e liberando aquele que sofreu a injúria do jugo pesado do rancor, vingança ou temor. Quando o sistema é inconsequente, o injuriado ou vítima segue sem exercer o perdão, porque a injúria não foi reconhecida – vira uma sombra, afetando direta e indiretamente as pessoas e gera dor e adoecimento que repercutem sobre o próprio sistema.  

Considerando essas questões, é muito salutar que esse cenário mude a partir de sua célula mais básica: a família. Esta precisa desenvolver um adequado sistema de consequências, eliminando ou minimizando os desequilíbrios internos, privilegiando os membros que cumprem com seus deveres e responsabilidades e oferecendo penas proporcionais às transgressões. Esse é o modelo fundamental de formação ética dos indivíduos. A família consequente vai gerar cidadãos éticos em uma sociedade que nos leva a instituições consequentes. A família é formada por cada um de nós. Somos os indivíduos que podem iniciar a revolução silenciosa para uma nação mais lúcida. Algo já está mudando dentro dos cenários internos, pois estamos testemunhando um momento político em que o sistema de consequências está alterando de forma significativa a forma de pensar coletiva. Veremos um aprimoramento desses pontos na próxima década. O reforço individual/familiar só trará benefícios para aprofundarmos o processo e entrarmos mais rápido em um sistema mais consequente e, portanto, mais justo para com todos. Reflita sobre isso. Suerte! 


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