Variações em torno da narrativa chinesa

São muitas as áreas em que as camadas tectônicas das civilizações se encontram em estado de choque permanente

Por Fernando Dourado Filho, de Recife (PE)

Fernando Dourado Filho analisa os feitos da história milenar da China

Louvando os feitos da história milenar da China, meu pai gostava de aludir às quadras épicas e não raro trágicas que perpassaram o Império do Meio. A construção da Grande Muralha – então a única obra feita pelo homem que podia ser vista da lua a olho nu – era uma delas. A Grande Marcha, que levou Mao e correligionários a percorrer o país em cruzada de proselitismo, também pontuava alto. Mas nada lhe parecia de efeito mais pedagógico para os filhos quanto discorrer sobre a chamada Revolução Cultural. Nessa, conforme sabemos, expoentes da intelectualidade eram relegados ao trabalho exaustivo nos arrozais, envergavam chapéus em cone onde se lia "burro" ou "inimigo do povo", tinham de ler as bazófias do Livro Vermelho do Grande Timoneiro, eram submetidos a provações físicas para efeitos de reeducação e, sobretudo, ao exercício excruciante da autocrítica. 

Ponto alto do processo de regeneração do indivíduo para o convívio social, esta consistia em atribuir a si próprios desvios de conduta e a apontar outros tantos indivíduos que tivessem incorrido em conspiração contra os interesses soberanos do povo, simbolizados pela supremacia do Partido. Nas ruas, jovens empunhavam o pavilhão nacional e entoavam hinos, anabolizados por contagiante surto patriótico. Pois bem, 32 anos depois de minha primeira ida à China e ao cabo de sucessivas tentativas de compreensão dos códigos invisíveis que a regem, percebo que todos esse movimentos obedeceram aos princípios da criação de uma narrativa, para usarmos uma expressão em voga. E que ela foi absorvida, muitas vezes acriticamente, até pela memória seletiva de homens dotados da chamada curiosidade universal, como era o caso de meu pai. 

Nesse contexto, o que daí resultava? Um todo sumamente coerente cujo ponto culminante nos salta aos olhos. A China tirou centenas de milhões de cidadãos da pobreza; tornou-se a grande fábrica do mundo; retomou o domínio sobre territórios como Macau e Hong Kong; isolou Taiwan e o Tibete dentro de dimensões que atendessem ao pragmatismo e não lhe subtraísse o prestígio militar crescente; dotou sua diplomacia de garras poderosas para atrelar a protocolo sinuoso a uma agressiva política comercial e, num espaço de poucos anos, voltou a respirar os ares de antanho quando o etnocentrismo de seu povo via o restante do mundo como uma periferia remota e inferior, povoada pelo que eles chamavam de "bárbaros do nariz grande". Até para consumo interno, essa narrativa não admite maiores varações, pois ela é fator estabilizador para um quinto dos habitantes da Terra.

Constato, contudo, que a construção de narrativas épicas, por certo que não de todo dissociadas da História tal como os fatos nos permitem interpretá-la, não é privilégio exclusivo dos chineses. Para nos atermos a três integrantes dos BRICS, poderíamos de cara apontar a Rússia como um país plenamente engajado na reescritura de uma narrativa à altura de sua histórica dramática. Vladimir Putin jamais fez segredo de que a derrocada da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, e o esfacelamento dos satélites – a que ele assistiu de camarote, quando acantonado em Dresden, então Alemanha Oriental –, teria sido a maior catástrofe isolada do século passado. E olhem que tivemos muitas para disputar a rubrica. Ora, diante do vácuo que se prenuncia a partir de Washington, o Kremlin se debruça sobre o mapa e calcula os passos que poderiam levá-lo à restauração da "Grande Rússia". A alegada obsolescência da OTAN apregoada por Trump só ajuda. 

Nesse contexto, a Índia, de Modi, também toma ares de quem pretende reescrever a história para estar à altura de seus muitos trunfos. Embora não seja por formação uma potência belicosa, no que pesem os conflitos com o Paquistão e as escaramuças da fronteira norte, como não se arvorar de ares de grande "player", se tem, a exemplo da China, outro quinto da população do mundo e uma elite formada nas melhores universidades do mundo? Ademais, como permanecer de braços cruzados se países da região tentam reescrever a História segundo parâmetros de grandeza e glória, caso dos persas e dos turcos? E o que dizer dos muçulmanos, presentes à razão de centenas de milhões no país, cujos irmãos de fé mais ao ocidente sonham com a restauração dos anos de ouro na Andaluzia? Detentora de uma diversidade cultural única, a Índia trava uma luta sem quartel contra a corrupção, o sistema de castas e as desigualdades. Mas quem está imune a isso nos países gigantes?      

Certo, contudo, é que há de se observar as sobreposições das narrativas para que elas não nos levem a situações travadas ou sem perspectiva imediata de desenlace. São muitas as áreas em que as camadas tectônicas das civilizações se encontram em estado de choque permanente. A zona balcânica entrou em guerra brutal nos anos 1990 e ainda hoje as feridas estão abertas entre sérvios, croatas e bósnios. No Cáucaso, idem. No Oriente Médio, muitos veem Israel como uma ponta de lança ocidental incrustada num meio oriental, hostil a seus valores. Até democracias ocidentais como a Polônia ou a Espanha, por diferentes razões, têm dificuldade de se enxergar sob pena de escancarar chagas mal cicatrizadas entre atores vivos, caudatários de um passado de sangue. Por absurdo, até a história recente do Reino Unido carece de recuo para lhe avaliar os desdobramentos de decisões açodadas. Mas ter uma narrativa parece ser tão imperativo quanto manter o currículo atualizado.     

Você me perguntará: e a narrativa do Brasil? Eis um bom tema para nosso próximo bate-papo.   


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