"Eu quero ter uma vida como a sua"

A que optei por levar pode até suscitar uma ou outra reação de admiração, mas o contrário é mais corrente

Por Fernando Dourado Filho, de Muro Alto (PE)

Fernando Dourado Filho responde para uma leitora como se faz para viver a vida dele

Das inúmeras ferramentas das redes sociais, só conheço o Facebook e, mais recentemente, tenho feito incursões ao Instagram. Mas embora tome cuidado extremo ao mexer no teclado quando estou nessas plataformas, vez por outra o dedo escapa e lá caio eu numa seara totalmente desconhecida. Foi o caso do dia em que desaguei num serviço de mensagens que eu nunca usara, e onde moravam dezenas de recados de cunho mais pessoal cuja existência eu ignorava por completo. Não teria sido mais fácil para essas pessoas ter se valido do "in-box" do Facebook, tão mais prático? Seja como for, uma mensagem em especial me chamou a atenção. Vinha de uma jovem do Rio Grande do Norte. Segundo ela, acompanhava regularmente minhas postagens no Facebook e textos de minha autoria publicados na imprensa. A pergunta que não queria calar era: como viver igual à minha vida?  

É claro que achei a pergunta mais divertida do que séria. Mas vou fazer aqui algumas digressões sumárias, na esperança de que ela possa vê-las no Facebook, se é que ainda me acompanha, depois da grosseria que cometi ao não lhe ter respondido a indagação singela. Como pretendo ser objetivo, até para resistir à tentação de escrever um arrazoado biográfico, me permito dizer a título introdutório que cada vida tem suas singularidades. Ademais, a que optei por levar pode até suscitar uma ou outra reação de admiração, mas o contrário é mais corrente. Normalmente as pessoas dizem que não suportariam viver minha vida por mais de alguns dias e eu devo pensar o mesmo com respeito à delas, embora não precise dizer isso. De qualquer sorte, matutei um mínimo sobre a questão e posso alinhar três vertentes que me balizaram os passos para viver o que vivi e como vivi. É surpreendente como estão interligadas.     

Seja desprendido
Para muitos amigos, essa característica foi absolutamente fundamental na minha formação como pessoa. Para outros tantos – talvez até mais numerosos –, esse é o traço mais indesejável. Do que se trata? Ora, não se prenda a nada que não esteja alinhado com a alegria de viver e o aprendizado permanente. Nunca optei por um trabalho estritamente em função do dinheiro que podia me proporcionar nem nunca bati à porta de um empregador – dos poucos que tive – para pedir um aumento. É claro que eles eram bem-vindos e eu os acolhia como prova de reconhecimento. Mas nunca alimentei qualquer sonho de consumo não ligado à fruição de bons momentos ao lado da pessoa amada e na companhia de um bom livro. Pelo próprio estilo de vida adotado, nunca pude me dar ao luxo de ter apego excessivo a amigos, família, rotinas e moradia. Aos 58 anos, isso começa a pesar. Mas é o preço.         

Ignore a sabedoria convencional
Não dê muita importância ao que as pessoas dizem. Apesar de passar ao largo de conselhos repetitivos e previsíveis, gastei alguns anos de minha vida me torturando por querer fazer as coisas mais ou menos como os outros faziam. Foi uma libertação quando vi que a vida me pertencia e eu não tinha que comprar um apartamento porque todo mundo sonhava em ter uma morada. Ora, viver de aluguel é muito mais estimulante e econômico. Além do mais, estimula mudanças regulares. Vou mais longe. Quando te disserem que aprender turco ou albanês é pura perda de tempo, não se importe. Pode ser que para você esse conhecimento venha a abrir portas que eles sequer enxergam. Crie um acervo de regras que reflitam seus valores e trate de compatibilizá-los com o de seu mundo. Se forem muito conflitantes, se mude de lugar e vá morar na Tailândia ou na Sibéria. O mundo é seu.

Vá onde o coração mandar
Perdi alguns dias preciosos na vida estudando coisas de que não gostava, quando havia um universo imenso de pautas interessantes que me incendiavam a imaginação. Pois bem, depois de adulto deixei a trigonometria pelo caminho e me entreguei devotadamente à literatura e à arte de viajar. O mesmo valeu para meus relacionamentos afetivos. Sou sensível ao ponto em que eles começam a apresentar sinais evidentes de fadiga de material para ambas as partes. E a arremetida pode parecer exaustiva, quase desumana. Nessas horas, antes mesmo que apareça alguém na sua vida, é bom sentar e acertar amigavelmente os termos de partida. Pode até doer um pouco no começo, mas logo você vai se reencontrar nas pegadas de onde o seu coração quiser levá-lo. É claro que o cérebro não pode virar mero espectador. Mas ele tem de ser acessório do coração, e não o contrário.             

Pois bem, antes tarde do que nunca. Com bastante atraso, você, cara leitora, tem aqui um simulacro de resposta. Espero que algo disso tudo possa ficar.  


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