Roberto Justus, o ególatra

O que vemos acontecer é a entronização de figuras midiáticas como sendo uma alternativa de salvação

Por Fernando Dourado Filho, de Recife (PE)

Roberto Justus escreve as razões para não ser candidato ao Planalto

Tenho um amiga francesa que é muito engraçada. Sempre que digo algum absurdo, frequentemente intencional, para me divertir com sua reação, ela põe ambas as mãos na cabeça e diz: "Au secours", ou seja, "Socorro". E então desatamos a rir. Pois bem, lendo o artigo do publicitário Roberto Justus na Folha de São Paulo de domingo (29) – intitulado "Ser ou não ser" –, a vontade que tive foi de reagir igual a ela. Isso porque depois de um fim de semana atípico, não achava que alguma coisa ainda pudesse me surpreender. Pois bem, o surreal diálogo de Justus com o próprio espelho não somente me arrancou umas risadas como também conduziu a reflexões sobre a sociedade do espetáculo e o incrível vácuo de lideranças que leva alguns a cogitar das mais altas instâncias da República com base nas adesões que congregam em redes sociais ou, pior ainda, por conta do gosto pela bravata ou pelo topete produzido. Socorro!          

Vamos aos fatos. Essencialmente, o que escreveu Justus? Que declinava da honrosa propositura que lhe era feita de vir a se tornar Presidente da República. Não, não ria porque ainda é cedo. Dando a entender que vem sendo sistematicamente assediado para abraçar a vida pública, em momento nenhum ele alegou quaisquer limitações de experiência ou de capacidade para postular o cargo. Pelo contrário, deu a entender que preparo não lhe faltava. Mas que algumas características pessoais o impediriam de exercer semelhante função: a objetividade, a clareza de propósitos e o amor à verdade. Ademais, o fato de gostar de dizer tudo às claras o colocaria em rota de colisão com o Congresso Nacional. Menos mal que não propugnou nenhuma fórmula que levasse ao fechamento deste. No mais, Justus me lembrou duas dimensões de minha vida profissional que soam em igual medida hilariantes quanto tristes. Vamos examiná-las. 

A primeira me levou de volta aos tempos em que me competia fazer recrutamentos, "caçar" cabeças e entrevistar candidatos finalistas. Embora evitasse repetir chavões ou sucumbir às perguntas de praxe, vez por outra pedia para que o candidato me falasse um pouco sobre os pontos em que sentia necessidade de melhorar. Poucos apontavam uma deficiência. Quase sempre era na linha "sou muito perfeccionista"; "exijo de meus colaboradores os mesmos padrões que orientaram minha vida"; "sou obcecado por resultados e incapaz de atribuir a terceiros responsabilidades que são minhas"; "costumo ser o primeiro a chegar e o último a sair"; "minha mulher se queixa de que dedico muito tempo ao trabalho". Em suma, importante era aproveitar todas as brechas para fazer um discurso laudatório em causa própria. Os que chegavam perto da sinceridade, se rendiam ao visível: "É, acho que preciso perder um pouco de peso". 

A segunda dimensão subjacente ao panfleto de Justus é o padrão de negociação indiano, um dos mais sinuosos do mundo. Quando você entra em tratativas comerciais com hindus, é comum que o discurso deles seja mais ou menos assim: "O tapete não está à venda. É peça e coleção e tem valor inestimável. Mas supondo que eu mudasse de ideia e resolvesse vender esse tapete para você, quanto você estaria disposto a pagar por ele?" Você tanto pode dizer que declina de oferecer um preço já que não quer lhe subtrair de uma relíquia pessoal ou, a rigor, pode até mesmo dar um preço. No primeiro caso, ele insistirá para que você dê seu lance nem que seja como forma de avaliar se você sabe reconhecer um tesouro quando diante dele. No segundo, ele rirá abertamente ou fingirá profunda mágoa por você ter oferecido apenas uma modesta fração do que o tapete realmente vale. Desse modo é Justus e sua candidatura. 

Assim sendo, não somente louva os inúmeros atributos pessoais que reduzem o país a um quintal diminuto para um homem que se crê digno da Casa Branca de "Camelot" – em que cultivaria seu éden de loiras – como também insinua que suas virtudes jamais se compatibilizariam com um jogo político cujos fundamentos ele não tem sequer a humildade de confessar desconhecer. É como se a política se resumisse às barganhas soturnas que permeiam o noticiário policial. Não satisfeito em publicar o diálogo que estabelece com o espelho, se coloca na posição do mercador que dissesse: "Sou um ativo muito valioso para os padrões de muro baixo da política brasileira. Mas as pessoas me pedem sistematicamente para entrar no jogo. Ora, minha resposta por enquanto é não. Mas me apresentem uma oferta irrecusável – uma grande legenda, amplo espaço televisivo – que posso mudar de ideia.”      

Certo é que vivemos uma terrível confluência de fatores. De par com a desmoralização e a execração da política brasileira, o que vemos acontecer é a entronização de figuras midiáticas como sendo uma alternativa de salvação. Não é a primeira vez nem será a última. Para os padrões de seu tempo, Dr. Antonio Ermírio era um homem do setor privado, mas reconhecido publicamente. Ao longo de uma campanha para o governo de São Paulo, amargou flagrante derrota e alguma amargura. Quem sabe isso não o tenha privado de dissabores maiores. Lembro a época em que caravanas de políticos acorriam ao SBT para convencer Silvio Santos de que ele era o nome da vez. Sempre na intenção de puxar votos de legenda. Com o advento dos "reality shows", milhões passaram a se identificar com o perfil patronal implacável de Trump e Dória. Diante do espelho, enquanto se retoca, Roberto se pergunta: "Por que não até tu, Justus?"

Sei que é fácil impugnar nomes que se sentem tentados a se lançar no jogo. Mais fácil ainda fica quando o sujeito se lança a uma função dessa envergadura, nos termos em que ele o fez. Não ignoro o quanto seja difícil apontar nomes viáveis, densos e probos no cenário de terra arrasada que estamos vivendo. É nesse contexto de fatos que acompanho de perto alguns poucos nomes que poderiam reunir visão, conhecimento e virtude. Gente que zela pelo trabalho morigerado, continuado e à margem dos holofotes. São elas que poderão trazer algum alento ao quadro desolador que vivemos. A propensão ao heroísmo, no bojo da egolatria pura e simples, pode se revelar tão perigosa para o Brasil quanto foi para a Itália ao eleger Berlusconi. O que não quer dizer que alguns desses nomes não possam surpreender. Bom exemplo pode ser o prefeito de São Paulo, apesar das derrapadas de largada. Quanto a Justus, que não mude de ideia.      


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