França: onde o trabalho parece castigo

Se os franceses querem atingir o nível de seus vizinhos, resmunguem menos e trabalhem mais

Por Fernando Dourado Filho, de Madri (Espanha)

Fernando Dourado Filho escreve sobre a relação dos franceses com o trabalho

Venho de uma temporada em alguns países europeus e um aspecto singular continua a me chamar a atenção com a mesma intensidade que despertava desde o começo dos anos 1980: a obsessão francesa com o respeito aos direitos trabalhistas; a fome desmedida em obter regalias laborais e a hostilidade com que muitos veem o que eles chamam do "patronato". É bem verdade que esse jogo de idiossincrasias – que tudo tem para levar um país à paralisia e inibir seus empreendedores – não é privilégio dos gauleses. Mas vejo-os como especialmente propensos a demonizar tudo o que lhes parece vir de cima, e isso se estende, paradoxalmente, ao Estado que tudo lhes dá. Inclusive o direito de não fazer nada. 

Digo-o porque não foram poucas as vezes que ouvi o mesmo discurso entre italianos e portugueses. A bem da verdade, as queixas dos primeiros se voltam menos para os chefes de empresa e bem mais contra o governo. Isso porque a legislação trabalhista draconiana irmanou famílias inteiras a recrutar o menos possível de mão de obra externa, estranha aos valores clânicos que as soldaram. Os apupos então se voltam preferencialmente para a malversação do Estado. Já de Portugal, falo menos. Mas é sintomático que, ao chegar ao aeroporto de Lisboa, todos os funcionários de limpeza estejam quase sempre apoiados em suas vassouras e esfregões a se vitimizar do que consideram abusos patronais.     

Voltando à França, dia desses uma amiga recebeu a visita de um vizinho eufórico. Conseguira uma espécie de contrato de emprego vitalício com determinada empresa. Dito de outra forma, pelo que entendi, só pode ser desligado por motivos de força maior ou justa causa. Pergunto: a quem pode interessar um arranjo desse? Para o empregador, parece que a mordida de encargos se torna um pouco menor. Para o funcionário, passará noites de sono mais tranquilas. Mas pergunto: que lugar sobrará para a força revigorante da impermanência? O que seria de um casamento se não tivesse que ser reinventado periodicamente?

Agora que se aproximam as eleições presidenciais, a chamada esquerda se desespera para achar um bom nome para substituir François Hollande, um dos mais retumbantes fracassos socialistas de todos os tempos. Para dar uma ideia do tamanho do desastre de seu legado, basta dizer que é o único presidente da Quinta República que não se apresentará a uma reeleição. Ao ver os que lhe postulam a vaga à esquerda, portanto, o nível do debate é assustador. É como se, no país de Descartes, todos tivessem rasgado os primados mais básicos de bom senso e ignorassem preceitos aritméticos comezinhos em favor da demagogia. 

Um desses patetas fala de incrementos orçamentários de bilhões de euros como se fizesse uma planilha de compra de temperos para sua dispensa. Para ele, todos deveriam ter acesso a um salário dito universal, que despejaria 700 euros na conta de cada jovem para que eles possam ter tranquilidade para pensar o futuro, se sustentar, estudar e empreender. Além do despautério orçamentário, será que esse senhor não vê que a medida engendraria uma súcia de oportunistas e que a França se tornaria uma colmeia de abelhas sem a rainha que, a seu turno, atende pelo nome de produtividade?

Na França, tenho a impressão, anda se pensa que a demissão se dá só e estritamente devido ao sadismo patronal, e não por razões palpáveis de rentabilidade e produtividade. Na Inglaterra, por outro lado, malgrado o passo equivocado do Brexit, a legislação trabalhista é frouxa e se pode demitir à moda como se faz nos Estados Unidos. Na Alemanha, apesar de sindicatos fortes, de há muito se sabe que não se operam milagres sem o engajamento da formação e do amor ao ofício. De uma vez por todas: trabalhar é uma dádiva. Se os franceses querem atingir o nível de seus vizinhos, resmunguem menos e trabalhem mais. Voilà!            


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