Eu sofro de tecnofobia

Se Steve Jobs tivesse me conhecido, teria me confinado para estudo

Por Fernando Dourado Filho, de Metz (França)

Fernando Dourado Filho fala sobre seus problemas com a tecnologia

Estava refastelado num trem silencioso e bem aquecido. A bordo, atravessava a Alemanha no sentido Leste-Oeste e via a paisagem nevada da Saxônia, enquanto cortava cidades ainda adormecidas do grande sono da antiga República Democrática Alemã. A certa altura, peguei o jornal que comprara na estação de Leipzig e eis que me deparei com um artigo elaborado – como costumam ser os da imprensa alemã – sobre o décimo aniversário da criação do iPhone. Numa linguagem escorreita e agradável, o especialista explicava as grandes transformações que advieram daquele dia de janeiro de 2007, em San Francisco, quando Steve Jobs, de jeans e invariável malha preta, anunciou ao mundo mais um capítulo de seu fértil Evangelho tecnológico. 

No longo texto, o blogueiro renomado deu uma palhinha sobre o que ainda está a caminho. Não tardará, por exemplo, para que os caixas das lojas sejam suprimidos, e daí milhares de empregos, já que as pessoas cadastradas poderão escolher os artigos e sair do recinto sem passar pelo check out, pois serão debitadas automaticamente. Na verdade, acompanho a prudente distância essas inovações, o que não me impediu de ler com paixão o livro "Odissey", do ex-CEO John Sculley, o homem que saiu da Pepsi para comandar a Apple, a convite de Steve. Durante o impasse da contratação, este lhe teria fulminado com bom argumento: "Escuta, você quer continuar vendendo xarope ou quer mudar o mundo?" O interesse pontual pelo tema mal esconde a verdade nua e crua: sou um tecnofóbico.  

A resistência à tecnologia já se perde na bruma do tempo. Ficou patente quando comecei a receber carros novíssimos das empresas onde trabalhei. Ora, se nunca me interessara em ter um – só os tivera porque meu pai comprou –, as coisas pioraram quando me ofereceram modelos de certo luxo, dotados de comandos estranhos, embora tenha gostado do desembaçador de vidro. Por mim, teria ficado com minha Marajó preta de tantas alegrias. O tempo passou e os computadores entraram na sala. Não será que o fax já não subvertera bastante a ordem, aposentando o telex? Dispensei meu consultor pessoal de informática. Aleguei que o desodorante dele estava sempre vencido, e isso me causava desconforto. Qualquer pretexto servia para enxotar a tecnologia.

Um belo dia, meu sócio instalou um computador portátil sobre minha mesa e me deu um celular. Isso quando pouquíssimas pessoas tinham um. Não gostei, mas tive de dissimular minha resistência. O que faria com aquilo, se já tinha aversão ao convencional e não atendia o meu próprio telefone de casa entre sexta à tarde e segunda-feira? Assim como os carros, todo ano me trocavam o celular. Do que me servia aquilo, se só o usava para fazer chamadas e receber algumas? Quando inventaram o mecanismo de ver na tela quem estava ligando – embora eu nunca tenha sabido programá-lo até hoje –, achei que o fim do mundo se aproximava. Quanto ao PC, a única função que me interessou, além de mandar e receber e-mails, foi jogar xadrez. Jamais usei outra. 

Então chegou o tal iPod. Cada vez que eu ia aos Estados Unidos, alguém me pedia para trazer um. Ora, pistache, ora rosa, diziam que era uma maravilha. Um rapazinho me falou que ali podiam armazenar 5 mil músicas, talvez 10 mil. Para quê? Eu tivera uma vida feliz com não mais de 100, o que diabos iria fazer com aquilo? Mas gosto é gosto. Quando a ditadura do iPhone se impôs, eu estava a anos-luz de comprar um. Primeiro porque não queria morrer num assalto por causa de Steve Jobs. Segundo porque as funções permaneceriam ociosas. Terceiro porque sabia que jamais teria mais de 1 minuto de concentração para aprender o que quer que fosse. Ademais, os telefones antigos funcionavam bem. O que faria com eles? Jogar fora?  

Até que, depois de muita insistência, aceitei um iPhone de presente de minha namorada. Ficou 2 anos na gaveta, como na gaveta continua o Kindle, para ler livros. Revoltada com meu desprezo pelo presente, ela ativou-o enquanto eu dormia depois de uma farra. Então começou a me mostrar do que aquela geringonça era capaz, inclusive com o som de meu ronco. Fingi interesse e botei-o no bolso. Mal ela viajou, liguei-o para saber se chegara ao Recife. Quando dei por mim, minha imagem estava refletida na tela, macaqueando meus movimentos. Se eu sorria, a imagem sorria. Se eu fazia careta, ela também. Bati numa tecla, e lá vieram os e-mails do escritório. O que era aquilo? Como é que a caixa postal estava interconectada com ele? Comecei a ter taquicardia. 

Tentei desativá-lo, mas não consegui. Suei, coloquei-o sob a água e ele resistiu. Tomei um Lexotan de 3 mg diante daquela máquina indomável e optei pelo óbvio. Sacrifiquei-a em mil pedaços pelo chão da sala. Retomei o meu antigo telefone – um vermelhinho da C&A que custou R$ 72 e cujo plano pré-pago me custa R$ 35 ao mês, que tenho até hoje – que me garantia todas as necessidades. De viagem pelo mundo, via a vida das pessoas se tornar um inferno com mensagens ocas, postagens anódinas e falta absolta de privacidade. Eu não precisava daquilo, faço trabalho autoral, ele é imune à tecnologia. Por fim, há 8 anos, comprei um laptop Vostro Dell que é o que uso até hoje, com algumas teclas faltantes e uma tela empoeirada. Mas, é claro, não tenho internet em casa. A casa é para outras coisas, inclusive ler. 

Contudo, a sanha do iPhone continuou me perseguindo. Ganhei outro , também usado e, de repente, o vermelhinho desaparecera. Ou será que sumiram com ele? Aceitei ligar o tal iPhone. Mas não abria mão de meu plano de R$ 35 e jamais cairia em arapucas de pós-pagos. A bem da verdade, odeio modismos, mesmo quando são concebidos para facilitar a vida. E mais: nunca baixaria um aplicativo, mesmo que ele me permitisse achar um motorista no meio do deserto. Preferiria esperar o camelo. Mas então um amigo me convenceu a entrar no Facebook, em fevereiro de 2016. Eu só queria ver como era, mas quando vi, já estava cadastrado. Não gostei da maioria das postagens – mal cuidadas e cheias de onomatopeias –, mas comecei a mandar um comentário ou outro. 

Nessa toada, não entendia porque fotos de bebês choramingas eram tão apreciadas e quase ninguém se interessava por minhas digressões sobre as pautas quentes do mundo. Até que um amigo de Campinas disse que deveria escrever meus textos e ampará-los com uma imagem. Mas minha única câmara fotográfica já sumira. Era o caso de usar o iPhone. A muito custo, aprendi a tirar fotos. Durou 3 meses o idílio. Logo minha capacidade de "uploading" acabou e o rapazinho da Claro tentou me explicar que era de meu interesse mudar de plano. Entrei em pânico com a explicação e saí para tomar uma cerveja. Jamais vou mudar de plano. Descobri que posso tirar uma foto ao dia e, depois, descarregá-la no e-mail. Daí ela chega ao Facebook. É meu PhD. Daqui não passo.  

Tudo isso é muito irônico, você pode dizer. Viajo o mundo a bordo de aviões que reúnem a quintessência da tecnologia. A medicina nunca me ajudou em nada porque, ainda bem, não precisei, mas tenho uma mãe resplandecente graças ao marca-passo e afins. Fato é que isso não diminui minha fobia à tecnologia. As pessoas que entendem de mecânica, robótica, nanotecnologia e afins são, de longe, os indivíduos mais chatos do mundo. Ou será que dei azar? Mais insuportáveis do que eles, só contadores, vendedores da Herbalife e corretores de seguro. Fico horas, dias, semanas a conversar com quem gosta do mundo, da política, das artes, da gastronomia e de tudo que há de belo entre o céu e a terra. Mas sobre tecnologia, zero. Devo ter déficit de atenção. Se Steve Jobs tivesse me conhecido, teria me confinado para estudo. 

No fundo, tenho saudades do meu radinho de pilha. Dia desses me disseram que se pode ouvir rádio no telefone, até ver televisão. O que seria de meu crédito pré-pago de R$ 35 diante disso? Não, prefiro não tentar. Rodando mundo, nada me dá mais horror do que encontrar no hotel umas televisões acopladas a um aparelho e que precisam de até 3 controles remotos para ser ativadas. Tempo desses, em Kiev, chamei a atendente para me dar acesso à televisão aberta. Pois bem, eram mais de mil canais à disposição e nada se aproveitava. Tinha programas religiosos, surubas na Chechênia, enforcamentos na Arábia Saudita e nada da BBC. Saudades tenho também da televisão que levava 3 minutos para esquentar, tinha transformador, era desligada nas tempestades, pegava 3 canais e tinha um chumaço de Bombril pendurado na antena. Isso sim era "high-tech".                                         



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