Soluções podem não caber nas expectativas

Stephen Stefani alerta para a importância do diálogo

Por Stephen Stefani*

Stephen Stefani alerta para a importância do diálogo entre médico e pacientes

Em 1985, o escritor Jau Gould publicou um ensaio genial chamado “The Median Isn’t the Message” (traduzido como “A mediana não é a mensagem” ou algo como “A mediana não é o que importa”). Ele havia sido diagnosticado com um câncer raro e letal chamado mesotelioma abdominal. Gould revisou os artigos que encontrou (hoje ele usaria o Google!) e os dados eram brutalmente claros: a mediana de sobrevida era de poucos meses.

A mediana – usada como parâmetro técnico nos estudos científicos – é o valor intermediário que separa a metade superior da metade inferior do conjunto de dados, excluindo o impacto de casos excepcionalmente para menos ou para mais. A curva completa, entretanto, tem casos espalhados não só no meio, mas em ambos os extremos. Foi aí que ele depositou esperança ao imaginar a tentativa de buscar a “cauda da curva”. E Gould conseguiu. Após cirurgia e um tratamento considerado, na época, experimental, ele viveu quase 20 anos mais, vindo a falecer de outra causa não relacionada.

Esse caso ilustra situações que merecem reflexões. A primeira é, evidente, o direito que todos temos de se imaginar uma exceção quando as estatísticas são desfavoráveis. É justo, mas o sentimento deve ser regrado com responsabilidade e razão. Outro aspecto é sobre a importância de se entender a perspectiva das pessoas e oferecer informações que possam responder aos seus anseios. O tema se torna ainda mais significativo quando o acesso à informação – muitas vezes abundante e pouco crítico – pode gerar ainda mais angústia e modificar perspectivas. Da mesma forma, informações adequadas provaram, em vários estudos, melhorar decisões e prognósticos. 

Profissionais que estão dispostos e disponíveis para entender as razões e aspirações das pessoas podem oferecer melhores resultados. Pessoas buscam sua chance de viver momentos: de estar na formatura do neto, no casamento da filha ou, simplesmente, passar mais um Natal com quem ama. São exemplos que vão desde evitar sedativos para dormir, solicitar ou não um exame, propor uma quimioterapia para câncer ou solucionar impasses por acesso orçamentário limitado. Nesses tempos em que soluções podem não caber nas expectativas, o diálogo é ainda um bom remédio.

*Oncologista do Hospital do Câncer Mãe de Deus. 


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