A bordo do Expresso Chopin

A cada idade que visitamos Auschwitz, a impressão muda. Sempre para pior

Por Fernando Dourado Filho , de Praga (República Tcheca)

Vista de estação de trens na Europa

Cheguei à estação Central de Varsóvia para comprar os jornais do domingo e tomar um café. As celebrações de réveillon tinham sido puxadas e uma tarde toda na cama ainda não me restaurara as energias. Por desencargo de consciência, passeei pelos guichês e procurei uma pechincha interessante que me levasse a algum ponto do mapa rumo ao Oeste, onde preciso estar no começo da próxima semana. Mal acreditei quando a matrona de olhos azuis-violeta me disse que havia uma passagem em promoção para Praga na mesma noite do dia 1 de janeiro. O inconveniente era que o chamado "Expresso Chopin" – que também serve Bratislava, Budapeste e Viena, a partir de Ostrawa – sairia dentro de apenas 2 horas. Ora, a adrenalina do viajante que mora em mim se animou com o primeiro presente do destino de 2017. A intuição tem de funcionar como motor nessas horas.  

A única passagem disponível era em primeira classe e custava R$ 200 para as 9 horas de viagem. Na verdade, preferia viajar em segunda porque durmo com mais facilidade numa cadeira dura do que numa "couchette" inclinada, na companhia de pessoas, roncos e odores que eu não conhecia. Mas por que não? Teria tempo para pensar a respeito. O certo é que, se agisse rápido, poderia estar no destino dentro de 12 horas, o que já não era pouca coisa. Voltei para o hotel e desocupei o quartinho que tinha pago até o dia seguinte pela manhã. Precisava ainda telefonar para um casal de amigos que vive na Polônia, e voltar no outro pé para a plataforma. Pensando bem, era boa ideia chegar à bela Praga na manhã do dia 2. A capital tcheca estaria sob neve, mas é um detalhe que só conta em favor. Há quanto tempo que não a visito? Quase três anos, acredito.  

A composição enorme entrou na plataforma 3 no horário aprazado e constatei com alívio que, aparentemente, pelo menos no trecho que nos levaria até a fronteira, eu seria o único ocupante do compartimento. Chocante, contudo, era a temperatura escaldante que reinava no interior. Ajustei a calefação para o mínimo e me desvencilhei da roupa pesada. Mais difícil foi fixar a cama retrátil do beliche na parede e transformar a minha num agradável sofá em que encontraria uma posição adequada para dormir. Fiz cara de poucos amigos para um passageiro que, aparentemente, também comprara um tíquete para a mesma cabine. Que procurasse companhia mais agradável. Foi lendo a edição dupla do "The Economist" que deixei Varsóvia e o trem tomou a direção de Katowice, última grande cidade polonesa do trajeto rumo ao centro do continente.   

Então adormeci. A temperatura da cabine começou a cair e, extenuado, eu não tinha disposição para pegar o pesado sobretudo que jazia na cama da frente. Na falta de força, eu sonhava que o puxava até mim, e então o sono se tornava delicioso. Mas logo o frio implacável me desmentia. Era só delírio. Então, finalmente, reuni disposição e me levantei. Liguei o aquecedor na escuridão e me cobri. Conhecia aquela sensação. Uma vez, também em pleno inverno, viajara para Berlim num trem similar. Na fronteira, os cachorros acompanhavam os guardas da República Democrática Alemã que examinavam o passaporte a dois, como se um vigiasse o outro. A calefação era quase inexistente e não posso lembrar de uma noite tão longa quanto aquela. Agora era parecido, com a diferença de que não havia controle de papéis e revista de lanterna até nas ferragens congeladas de baixo do vagão.

Por outro lado, na fronteira tcheca, em algum ponto entre Bohumín e Ostrava, quando Zebrzydowice já ficara para trás, a luminosidade da plataforma incidia sobre o branco da neve e o trem sacolejava em todas as direções. Por momentos, avançava a baixa velocidade. Então, freava com enorme rangido e, em seguida, recuava. Era como se as bitolas estivessem sendo ajustadas, resquício de um passado de vizinhos desconfiados. Baldeação feita, consegui cochilar até Kolín, a pouco mais de 40 minutos do destino. Foi então que pensei naquele vagão isolado na paisagem de Birkenau. Sob invernos terríveis, 80 pessoas viajavam de pé num carro concebido para transportar gado. Quem não morria no trajeto, chegava muito fraco às nefandas plataformas de triagem. É tão eloquente a tragédia que a imagem encerra. A cada idade que visitamos Auschwitz, a impressão muda. Sempre para pior.  

Os flocos de neve volteavam no ar. Agora a temperatura da cabine estava perfeita e bem que podia pedir ao chefe da composição um chá. Ele o trouxe de boa vontade. Tinha sido uma boa viagem. Teria de fazer hora na estação de Praga até que as pensões começassem a acolher os hóspedes de um novo dia. A estação estava cheia e tive a impressão de ali ver gente embalada do réveillon da véspera. Deambulei pelo longo corredor e comecei a ouvir apupos e discussões. Numa casa de câmbio, um russo fora extorquido em 20% de taxa de transação e estava inconformado. É uma linda cidade. Mas o que tem de pior é a gente que gravita em torno do turismo. Paris é uma velha amante e respeita códigos de ética. Praga é noviça no "métier" e quer todas as joias de uma vez. Escolho um hotel. Pergunto ao taxista quanto é para ir ate lá: 25 euros. Ladrão. Vim a pé, mas anoitei a placa do carro amarelo: 4 AF 8664. O mundo precisa melhorar.    



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