Donald Trump pode levar de volta as fábricas para os Estados Unidos?

Os especialistas dizem que não, mas a pergunta que se deve fazer é se elas precisam de alguém que as salve

Por Universia Knowledge@Wharton*

Donald Trump, presidente eleito dos Estados Unidos

Um grande número de postos de trabalho bem remunerados nas linhas de montagem constituíam antigamente um componente de peso no mix de empregos dos Estados Unidos. A campanha do presidente eleito, Donald Trump (foto), insistiu pesadamente na ideia de que era hora de levar de volta o emprego para lá e restituir ao trabalhador norte-americano uma existência confiável de classe média. A mensagem foi recebida por ouvidos atentos, especialmente em partes dos Estados Unidos tradicionalmente conhecidas por sua base manufatureira. Agora que o governo Trump vai assumir a Casa Branca, será que terá condições de cumprir a promessa de levar de volta para o país esses empregos? A fabricante de aparelhos de ar condicionado Carrier anunciou recentemente que havia chegado a um acordo com Trump para preservar 1 mil postos de trabalho em Indiana, onde o vice-presidente eleito, Mike Pence, é governador. Se Trump sair do Nafta, se cancelar a participação na Parceria Transpacífico, ou se ele deflagrar uma guerra comercial com a China e com o México, conseguirá com isso fazer voltar o relógio até os tempos gloriosos das fábricas norte-americanas?

Na verdade, os Estados Unidos faturam mais do que nunca. Contudo, Ann Harrison, professora de administração da Wharton, afirma que a luta dos trabalhadores pegos em meio a uma economia em transformação não pode ser ignorada. “Quando um trabalhador fabril passa para o setor de serviços, a remuneração dele chega a cair 20%, portanto há um ágio salarial agregado ao trabalho na manufatura. É verdade que, em certo sentido, esse tipo de trabalho é bom, e eu compreendo por que muitos trabalhadores prejudicados pelo comércio querem seu emprego de volta”, argumenta Ann. O sentimento é verdadeiro, e há pessoas que foram prejudicadas pelo comércio, e é por isso que a mensagem de Trump repercutiu entre elas. “Dito isso, solução simplista de tentar paralisar o comércio não vai funcionar ? esse é um navio que já zarpou. Portanto, tentar trazer de volta esses empregos através de tarifas só vai piorar as coisas”, acrescenta Ann.

É claro que ninguém “roubou” os empregos dos Estados Unidos. Muitas companhias se mudaram para fora do país e, com isso, aumentaram os lucros e diminuíram o preço dos produtos para o consumidor norte-americano. Trazer de volta esses postos de trabalho resultaria, de modo geral, em preços mais elevados, o que teria outras implicações para a economia toda. “A questão fundamental é saber por que as fábricas saíram dos Estados Unidos e qual seria o custo real de levá-las de volta para o país? Acho que a resposta é que o preço seria alto demais. Alguns levantamentos dizem que há pessoas dispostas a pagar mais pelos produtos feitos nos EUA. Mas, até quanto? 5%? 10%?”, questiona Stephen Kobrin, professor emérito de administração da Wharton. 

Trump já voltou atrás em várias promessas de campanha desde a eleição de novembro. No entanto, ele ampliou os apelos por tarifas e outras medidas nas últimas semanas dizendo que pretende tirar os Estados Unidos da Parceria Transpacífico “já no primeiro dia de governo” e, em seu lugar, diz ele que vai “negociar acordos bilaterais de comércio que tragam de volta os empregos e a indústria”. Esse talvez seja apenas o pontapé inicial para a celebração de novos acordos. A recente decisão da Carrier de não exportar muitos empregos, conforme a empresa havia planejado anteriormente, veio depois de um empurrão muito alardeado de Trump ? mas isso não deverá mudar a dinâmica que determina o destino dado aos empregos do setor de manufatura. Assim, na medida em que ficar cada vez mais claro para Trump e sua equipe que a possibilidade de “levar de volta os postos de trabalho” para os EUA é algo que se acha inextricavelmente atrelado à saúde de modo geral da economia americana ? para não falar do equilíbrio de poder com a Ásia ? o que farão eles, e como reagirão os milhões de americanos que votaram nele?

“O que acontece quando as pessoas descobrem que foram enganadas?”, indaga Kobrin, que é também editor executivo da Wharton Digital Press. “Quando as pessoas perceberem que Trump não pode levar de volta os empregos para os EUA, e que a situação delas não está melhor do que há dois anos, o que ele vai fazer? Em quem vai pôr a culpa? Será que as pessoas vão acreditar que ele fracassou devido a condições estruturais básicas ou será que foi devido a forças ocultas que se opõem a ele e que precisam ser derrotadas? Essa é uma questão muito séria”, alerta Kobrin.

O custo do reshoring
A principal razão pela qual Trump ? ou outra pessoa qualquer ? não pode levar de volta os empregos para os EUA [é o que se chama de reshoring] se explica pelo fato de que não há aonde ir buscá-los. A produção fabril dos Estados Unidos atingiu uma alta histórica em 2015. Nas últimas três décadas e meia, as fábricas perderam mais de 7 milhões de postos de trabalho ao mesmo tempo que produziram mais coisas do que nunca.

A indústria fabril dos Estados Unidos teve uma produção bruta de US$ 5,9 trilhões em 2013, mais de um terço do PIB norte-americano naquele ano, conforme dados do Instituto de Política Econômica (EPI, na sigla em inglês). “A manufatura é, de longe, o setor mais importante da economia americana se considerarmos o volume total da produção e do emprego”, informou a entidade em seu relatório de 2015. O setor manufatureiro foi responsável por 17,1 milhões de empregos indiretos, além de 12 milhões de empregados diretamente na manufatura num total de 29,1 milhões de empregos ? ou mais de um quinto (21%) do total de empregos no país em 2013. Contudo, o setor perdeu milhões de postos de trabalho, mas onde será que eles foram parar? “Se tentarmos entender como tantos empregos puderam desaparecer, a resposta que vamos encontrar é que não foi o comércio o responsável por seu desaparecimento. Foi basicamente a tecnologia”, lembra Ann. “Dos empregos perdidos, 80% não passaram para a mão de obra chinesa, e sim para as máquinas e para a automação. Esse é o primeiro problema com a imposição de tarifas. Descobrimos que as empresas americanas costumam substituir os trabalhadores mais caros por máquinas”, conclui. 

Outro problema, segundo Harrison, é que muita coisa que os Estados Unidos exportam depende de uma cadeia de suprimentos que usa componentes baratos produzidos em outros lugares. “Portanto, se impusermos tarifas ao México e à China, isso tornará nossa manufatura menos competitiva”, estima Ann. “Deflagrar uma guerra comercial com o México, China ou ambos, teria como consequência imediata mais provável a imposição de tarifas por esses países às coisas que produzimos para o mundo. Assim, o México imporia tarifas sobre nossas exportações agrícolas, que são imensas, e a China imporia tarifas sobre o maquinário altamente sofisticado. Se isso evoluir para uma escala grande demais, acabaremos em uma situação em que a condição da economia será muito pior”, antevê Ann.

“É importante lembrar que o comércio não tirou empregos apenas; ele também gerou empregos”, revela Mauro Guillen, professor de administração da Wharton e diretor do Instituto Lauder. “Ganhamos empregos graças ao Nafta, posto de trabalho que estavam na Europa e no Japão. Nos anos 1990, depois que o acordo comercial entrou em vigor, empresas como a Toyota, Nissan, Mercedes e BMW abriram fábricas no Alabama, Carolina do Sul, Tennessee e outros Estados, por exemplo. Seus fornecedores também se instalaram nos Estados Unidos. Mas houve também perda de empregos. Os trabalhadores que foram substituídos devem ser ajudados por meio de oportunidades educacionais”, acrescenta Guillen. 

“É irônico que alguém queira replicar aqui o trabalho que se faz na China atualmente. Em um dos debates, Trump disse que o PIB dos EUA cresceu 1% ? e veja só o caso da China, o país cresceu 7%. No entanto, se lermos o último plano quinquenal chinês, veremos o que a China pretende: livrar-se dos empregos do setor fabril que exigem menos preparo e migrar para as áreas de projeto, branding, distribuição e inovação do produto. A China está tentando se livrar da fabricação rotineira, sem sofisticação, para dar prosseguimento à prosperidade que Trump elogia. Os chineses estão se livrando desse tipo de emprego porque percebem que não podem competir na área de fabricação. Muitas empresas estão saindo da China porque o país ficou caro demais para produzir localmente. Elas estão indo para o Vietnã”, destaca Marshall Fisher, professor de operações, informações e decisões da Wharton. 

A busca de mão de obra barata tem levado as fábricas da Nova Inglaterra para a Carolina do Norte, para o Brasil e Taiwan, China e Vietnã, Indonésia, Bangladesh e talvez, a seguir, para a Etiópia. “Estamos querendo trazer de volta os postos de trabalho dos quais a China quer se livrar? E se os trabalhadores chineses, com salários que talvez sejam um quinto do trabalhador americano, são caros demais, como haveremos de disputar esses postos de trabalho? Não creio que ninguém esteja pensando em dividir por cinco os salários dos Estados Unidos”, opina Fisher.  Há ainda a questão das consequências não pretendidas que surgem quando os empregos são levados de volta. “Há alguns anos, o setor de eletrodomésticos da GE investiu US$ 1 bilhão para levar de volta para os Estados Unidos suas fábricas. Levaram a produção de volta para o Kentucky, negociaram com os sindicatos e tiveram muita dificuldade para contratar trabalhadores. Eles constataram que o custo dos suprimentos era mais alto porque, em parte, vinham do exterior; no fim das contas, tiveram de vender a fábrica para uma empresa chinesa”, lembra Morris Cohen, professor de operações, informações e decisões e diretor adjunto Centro Fishman-Davidson de Gestão de Serviços e Operações da Wharton. 

“Nos Estados, as pessoas não se interessam mais em trabalhar em fábricas. Quando foram trabalhar na GE, acharam desagradável o serviço, e a empresa não pôde retê-los. Elas deixavam o trabalho no terceiro dia. Aqui nos Estados Unidos não treinamos as pessoas para serem operários bem preparados como fazem os programas de aprendizado na Alemanha. A aceitação social desse tipo de coisa não é a mesma aqui. Há uma questão de valor aí”, julga Cohen. 

O futuro do trabalho
Seja como for, uma guerra comercial não resolverá o problema. O que importa saber é que a produção fabril decaiu nos Estados Unidos e em todas as economias desenvolvidas. “Temos empregos no setor de serviços, mas eles não pagam necessariamente tão bem quanto no setor manufatureiro. Portanto, é preciso descobrir uma maneira de termos empregos de alta qualidade”, alerta Cohen.  As soluções que perduram são aquelas que, em última instância, fazem sentido para a economia. “Temos de descobrir qual é nossa vantagem competitiva hoje. Não onde ela costumava estar ? e isso em referência à inovação, novos modelos de negócios e uso da automação. Há outros lugares no mundo que estão tentando alavancar essas mesmas coisas”, constata Cohen. Na visão dele, as pessoas no leste da Europa e na América do Sul estão ansiosas para trabalhar e não precisam ganhar muito, portanto os Estados Unido precisam encontrar uma maneira de competir. “Não sou pessimista, mas a solução não consiste simplesmente em trazer de volta a manufatura para o lugar que ela costumava ocupar. Tenho muita fé em nossa habilidade de inovar neste país, na flexibilidade das empresas e na força de trabalho, desde que haja o incentivo adequado. A longo prazo, saberemos como ser competitivos”, aposta Cohen. 

Nas últimas décadas, a globalização proporcionou enormes benefícios para os Estados Unidos e outros países ? produtos de alta qualidade e de preços historicamente baixos elevaram o padrão de vida. “Mas houve também quem saísse perdendo”, recorda Cohen. “Empresas fecharam as portas e pessoas perderam o emprego, de modo que os benefícios não foram igualmente distribuídos. Alguns pagaram um preço alto. Sempre foi assim. Todos os países que visitei desejam emprego e trabalhadores; ao mesmo tempo, porém, eles querem produtos de baixo custo. É uma questão de equilíbrio. E é papel do governo proporcionar essa relação para seus eleitores. Estamos competindo em um mundo extremamente competitivo”, argumenta Cohen.

Os norte-americanos estariam dispostos a pagar mais por produtos feitos nos Estados Unidos? De modo geral, não – nem mesmo um pouco mais apenas, conforme mostra um levantamento da Associated Press-GfK que entrevistou 1.076 adultos no país. Confrontados com a escolha hipotética entre uma calça de US$ 85 feita nos Estados Unidos e outra de US$ 50 fabricada em outro local, somente 30% dos entrevistados disseram que optariam pela calça americana. “Além disso, há uma pergunta muito pertinente ? diante da tecnologia e da automação, haveria realmente emprego para toda a população em idade de trabalho nos Estados Unidos? Falamos muito em criar empregos novos e melhores, mas quantos? A resposta é, e sempre foi, não sabemos”, observa Kobrin.

“As fábricas norte-americanas hoje produzem duas vezes mais do que produziam em 1984 com um terço a menos de empregados, conforme dados do Federal Reserve. É evidente que essa tensão mexe com o eleitorado, e os democratas não se preocuparam com isso, pois deixaram de ajudar aqueles que foram atingidos pela globalização”, opina Ann Harrison, coautora juntamente com Lionel Fontagné, da Escola de Economia de Paris, do livro “A economia sem fábricas” [The Factory-Free Economy], a ser lançado em breve. Mas não são apenas os democratas que não sabem ouvir. “Pessoas, professores como eu mesmo, têm medo de admitir que existem perdedores. E não paramos ainda para refletir o que fazer a esse respeito. Acho essa uma falha tremenda. Primeiro, os economistas disseram que não havia perdedores; depois, admitiram que existiam e não fizeram nada. Esse foi um erro que o próximo governo soube explorar na eleição passada. A menos que lidemos com os perdedores de maneira construtiva para ampliar suas oportunidades, não será possível globalizar”, resume ela.

Agora que o governo Trump ventila a possibilidade de cortar pela raiz os acordos de comércio e as relações internacionais, o futuro do setor manufatureiro nos Estados Unidos está diante de uma encruzilhada tanto em substância quanto em palavras que parece mais perigosa do que nunca. “A Parceria Transpacífico foi uma tentativa de atenuar a influência da China. Ao descartá-la, os chineses saem fortalecidos. É um jogo de xadrez muito complexo. Eu diria que a visão de restaurar o setor fabril nos Estados Unidos é uma visão errada por vários motivos – a começar pela ideia de que, de algum modo, a grandeza de um país se mede pelo volume de fumaça saindo de suas chaminés”, compara Fisher.

*Serviço gratuito disponibilizado pela Wharton, Escola de Administração da Universidade da Pensilvânia, e pela Universia, rede de universidades que tem o apoio do Banco Santander.  


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