Duas delícias napolitanas

O dialeto e a mozzarella são minhas escolhas

Por Fernando Dourado Filho, de Nápoles (Itália)

Vista de Nápoles, na Itália

Se tivesse de responder rapidamente à pergunta sobre o que mais me fascina em Nápoles, eu diria que é tudo. Mas sabendo que essa alternativa não é válida e que só crianças ou preguiçosos teriam direito a responder assim, eu então apontaria o sotaque local como o grande destaque. Pois a prosódia do dialeto napolitano remete de imediato a alguns dos grandes momentos do cinema peninsular. Diferente do sotaque metalizado da Lombardia; dos erres esparramados do Piemonte e do tom cavernoso da Sicília, aqui se fala uma língua gorda e indolente, como se o ritmo lento fosse resposta à necessidade de espichar o tempo enquanto se estuda a reação do interlocutor. Não é nada de muito rápido ou rasteiro, objetivo ou mesmo claro. Melhor surfar a língua no alto das crinas, antes que arrebente na praia da verdade, se é que chega lá. Não que o dialeto não tenha suas faíscas e vitaminas. Mas para captá-las precisamos de um certo mimetismo que só o passar dos anos nos ensina, não é? Confundir-se com a paisagem e permanecer despercebido é uma arte e, em dadas circunstâncias, uma necessidade. Não é cidade propícia para perfis emproados. 

Isso dito, o que destacar depois do dialeto para assim fecharmos a semana?  Que tal uma coisa bem prosaica? Vou de mozzarella, e por uma razão bastante convincente: o que seria da Itália sem suas iguarias regionais? A que associamos a bela cidade de Bologna, por exemplo? À mortadela. E Gênova? Ao "pesto" da Ligúria, ora, que é imbatível. Ademais, temos os molhos ou formas de preparo que são impregnadas de sotaque local: romana, milanesa, napolitana, carbonara, parmegiana e veneziana são só algumas das consagradas em todos os continentes. Mas voltando à mozzarella, é imediata a associação entre Nápoles e as famosas bolinhas brancas que descansam na água dos grandes recipientes à mesa de antepastos. Você tanto pode se servir com uma concha ou mesmo com uma redinha com que as "pesca". Depois é só fatiar um tomate, escoltar tudo com uma folha de manjericão e dar um banho de azeite que mais parecerá lava correndo da boca do vulcão. Eis uma salada "caprese". É perto daqui, aliás, a cidade de Battipaglia, a Meca da iguaria. Segundo a lenda, as terras salpicadas pela fuligem do Vesúvio resultam num pasto incomparável para os rebanhos. Garanto que a lenda está certa. Por hoje é tudo.


leia também

A dança e a guerra - A informação excessiva é uma corruptela do consumismo e, a seu modo, cria um fundamentalismo

O trabalho que dá ser italiano - Já nem falo da combinação de cores inusitadas como alaranjado, vermelho e abóbora

Produção mundial de vinho cai 5% em 2016 - Clima influenciou a safra e setor obtém uma das menores produções em 20 anos

Uma cidade singular - Trieste é páreo para Budapeste, Dubrovnik, Salônica, Belgrado, enfim, os grandes centros da Europa Central

comentarios


Seja o primeiro a comentar a notícia!



Comentar

Adicione um comentário: