Por um imprescindível turnaround do Estado

Para Telmo Schoeler, a razão do imobilismo na esfera pública é clara

Por Telmo Schoeler*

Servidores do Rio de Janeiro protestam contra medidas de austeridade do governo do Rio de Janeiro

Quando vejo a inércia e falta de solução dos governadores para os problemas financeiros do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro (foto), bem como o imobilismo de reversão no qual está a presidência da república, sinto-me forçado a voltar a um tema sobre o qual escrevi há cerca de um ano: o imprescindível e inexorável “turnaround” do Estado. Para quem, como eu, que há décadas lidera equipe que atuou em mais de duas centenas de reestruturações e recuperações empresariais, as razões da falta de ações e de soluções na esfera pública são claras e óbvias. Simplesmente estão sendo cometidos os mesmos erros que fazem com que a maioria dos processos de recuperação – judicial ou extrajudicial – sejam ineficazes e não cumpram com seu objetivo de sanar e viabilizar a empresa. O que falta, em síntese, é o somatório de um plano, o imprescindível dinheiro para viabilizá-lo, uma liderança com adequado perfil e uma postura de ruptura com a realidade e os processos vigentes.

Conceitual e tecnicamente falando, um “plano de recuperação” precisa ser um conjunto harmônico de ações organizacionais, operacionais, mercadológicas, financeiras, humanas etc. A montagem do mesmo só pode ser feita a partir de um prévio, isento e preciso diagnóstico que identifique as deficiências e problemas, os quantifique e, principalmente, mapeie as relações de causa-e-efeito. Só assim estaremos identificando as causas que precisam ser atacadas e removidas. Detalhe de lógica cartesiana: o diagnóstico e o plano devem ser feitos antes do pedido de recuperação e do início da ação de intervenção, pois, após esses eventos, o turbilhão dos acontecimentos, as pressões e as tarefas do dia a dia não permitirão a devida análise, reflexão e recomendações técnicas. Diante da complexidade e abrangência do plano, saberemos quais as ações estruturais, operacionais, mercadológicas, financeiras, demissões, contratações e acordos serão necessários. E também quais os efeitos e timing dessas ações, quanto dinheiro será necessário para implementá-lo, quanto poderá vir de desinvestimentos (leia-se privatizações, na esfera pública), em decorrência do que saberemos qual o alongamento e tratamento a ser requerido e dado à dívida atual.

Diante dessa tecnicidade do tema, como foi que [José Ivo] Sartori, [Luiz Fernando] Pezão e [Michel] Temer assumiram suas funções de governo? Declarando que “estamos estagnados e não temos dinheiro”. Óbvio! Esse sintoma é notório até para o mais simples dos mortais. O que não foi respondido por nenhum deles, objetivamente, é qual a causa do mesmo e quais as ações concretas necessárias e que serão implementadas para sanar os problemas, ou seja, qual é o “plano”. Podem até existir “ideias e pretensões”, mas falta a todos eles um plano de ação lógico, rígido, impessoal e isento, a ser implantado em benefício e com olho no único interessado no sucesso da reversão do quadro: o cidadão civil, que trabalha e que paga impostos.

Todo plano de recuperação sério incluirá mudanças radicais, simplesmente porque se permanecermos fazendo as mesmas coisas, da mesma maneira, chegaremos ao mesmo lugar – que hoje é um inferno astral. Como diz um sábio e antigo ditado, “nada mais esquizofrênico do que fazer as mesmas coisas e querer produzir resultados diferentes”. Significa que terão de ser seguidas outras estratégias, alterados processos, procedimentos, hábitos, estruturas e regras. Cláusulas contratuais, direitos adquiridos e tradições terão, eventualmente, de deixar de ser consideradas, na medida que impeçam o único fato capaz de reverter a atual inviabilidade da empresa, do município, Estado ou país. Isto é, a geração de um fluxo de caixa positivo decorrente de uma sociedade que funciona, empreende, emprega, consome, investe e ganha.

O que se tem visto, ao contrário, similar à maioria das situações empresariais privadas,é o fato de prefeitos, governadores e presidentes pedirem “prazo e crédito”, chamando isso de “plano”, ou então, virem a público, muito tempo depois de assumirem, propondo um elenco de medidas. Deveriam tê-lo feito no instante zero, num anúncio didático, transparente, sem emoção, sem considerações políticas ou partidárias, com foco exclusivo no futuro e na viabilidade financeira, preparados para enfrentar o desconforto e discordância de uma minoria cujo status, privilégios e direitos provocam a deficiência de caixa que nos mata. Essa postura requer despreocupação eleitoral e significa ter, como único objetivo, entrar para a história como o líder de um processo de reversão aplaudido pela ampla maioria dos cidadãos, únicos e absolutos proprietários e sustentáculos desse país.

Salvar a IBM e a GM foi o resultado de mudanças radicais e profundas nessas organizações, passando o passado a limpo e construindo uma nova realidade. O desaparecimento da Olivetti e da centenária Kodak, uma decorrência da falta disso. Quem sabe pensamos em substituir os políticos por gerentes contratados para administrar prefeituras, Estados e o país? Como qualquer profissional normal, teriam salário e obrigação de desempenhar funções movidos pelo interesse de todos os “stakeholders”, ou,simplesmente, seriam demitidos e substituídos. Claro que os mesmos critérios se aplicariam a autarquias, secretarias e ministérios. Simples assim. Inspiremo-nos numa frase célebre de Chico Xavier: “Ninguém pode voltar atrás para fazer um novo começo, mas qualquer um pode começar hoje a fazer um novo fim”.

*Leading Partner da Strategos Consultoria Empresarial e Orchestra Soluções Empresariais.


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