Vinhetas cubanas e a vaca de Fidel

Ao Comandante, diria: “Para mim, Fidel, a História não o absorverá”

Por Fernando Dourado Filho, de Estrasburgo (França)

O ex-presidente de Cuba, Fidel Castro, morre em 26 de novembro, aos 90 anos

1 – Da Galícia para Cuba
Nunca morri de amores por Cuba. Se o país configurou exceção no mundo latino, bastante simpático no geral, atribuo minhas reticências ao fato de sempre tê-lo visto como uma sesmaria dos irmãos Castro que, como boa parte dos galegos e de seus descendentes, trouxeram da província espanhola uma acentuada vocação para os negócios. Se muitos deles se dedicaram à gastronomia, caso de Belarmino Iglesias, dono da rede de carnes de nome Rubayat, outros tantos abraçaram o "show business" de grande escala, como aconteceu com Chico Recarey, no Rio de Janeiro. É também da Galícia que vem a Inditex, um dos mais prestigiosos grupos têxteis do mundo que, entre tantas marcas, detém a Mango e a Zara. 

Alguns galegos, contudo, parecem ter sonhado ainda mais alto. No caso dos Castro – por quem até Franco, o Generalíssimo, também conterrâneo, tinha algum carinho –, o negócio deles foi se apropriar de um país do Caribe, de sua história e de seus símbolos e, a pé de cabra, cavar um espaço para si próprios nesse cenário. Pouco importava que à custa de fuzilamentos, expropriações e arbítrio de toda ordem. A grande façanha desses prestidigitadores foi além da bravura militar. Foi, isso sim, ter conseguido tamanho feito e, ainda por cima, galvanizar a simpatia de cabeças e corações no mundo todo. Quantos intelectuais ousaram desmascarar o simulacro ditatorial e dar nome aos bois nos anos de chumbo? Pouquíssimos. É nesse ponto que residiu o grande engenho. 

Se tamanha proeza merece reflexão, jamais terei carinho pelo resultados sociais alcançados pelos irmãos, dado o sacrifício dos direitos humanos. É questão de índole. Da mesma forma que nunca suportei os taxistas-propagandistas do aeroporto de Santiago, no Chile, quando, durante a ditadura de Pinochet, ficavam soturnamente sondando as simpatias políticas dos passageiros e fazendo desabrida propagada do regime de arbítrio. E tampouco tolerava os taxistas de Havana que, no fundo, se lhes assemelhavam como duas gotas d´água no desempenho da missão. Eram verso e reverso, cara e coroa. Como Fidel e Pinochet. 

2 – A primeira impressão é a que fica
Em 1988, tendo ido passar o Ano Novo com uma namorada em Varadero, um desses propagandistas acima aludidos veio me dar uma lição de geopolítica enquanto guiava seu carro da década de 1950. Cortei-lhe o entusiasmo pela raiz e fui claro, quase seco: "Amigo, vim aqui para passear e namorar. Guarde sua doutrina para outros passageiros, pois os feitos de seu Comandante não estão em meu radar de interesse de hoje". Ressentido, o homem loquaz perdeu o rebolado.  

Não obstante essas cavilações, a simpatia do povo cubano sempre foi a marca registrada da Ilha. Para não macular essa imagem, se impunha passar ao largo de patranhas ideológicas e não cair nas arapucas consagradas pela propaganda oficial, como o show do Tropicana. Naquele ano distante, o aluguel de uma moto foi a melhor forma que achei para escapar dos programas oficiais e enlatados. Isso dito, era só tratar de driblar alguns inconvenientes que integravam o cardápio dos visitantes em passeio pelo casario da Havana Velha.

 Além da obsessão nacional em receber pagamento em dólar – um abra-te sésamo poderoso que podia nos levar até a conversar com o pescador que inspirara o mais célebre livro de Hemingway –, em cada esquina pontuavam prostitutas a abordar os passantes ostensivamente. Em favor delas, sempre disse Fidel: "Pelo menos nossas ´jineteras` são universitárias". Mais chatos do que elas, contudo, eram os insistentes vendedores de charuto, estes não raro desviados de fábricas estatais ou falsificados.

3 – Até onde vai a ideologia
Ainda por ocasião dessa primeira viagem exploratória, levei na mala o livro de um frei brasileiro, notório propagandista das virtudes do regime e interlocutor eventual de Fidel Castro. Laudatório e parcial, era um caça-níquel de grande apelo, como fora anteriormente "A ilha", de Fernando Moraes, que, pelo menos, teve o mérito de ser o pioneiro no gênero. Relevei os confetes do padre. Mais difícil foi lhe perdoar uma dica gastronômico-recreativa: uma ida à sorveteria Copélia, a melhor do mundo, segundo ele. Ora, se algo havia de superlativo ali, era uma fila tão grande que mais parecia que estavam oferecendo visto gratuito para os Estados Unidos. Mas, é claro, depois concluí que o padre certamente jamais entrara na fila.

De qualquer sorte, se todos sabemos algo sobre a crônica de aventuras de Fidel mundo afora – especialmente as militares, em diversos palcos africanos –, e de sua lendária capacidade de sobreviver a atentados e complôs, há fatos mais prosaicos da vida cubana dessas últimas décadas que talvez não tenham merecido a atenção devida. Ora, é justamente neles que residem os capítulos mais reveladores da alma fanfarrona de quem, sendo onipotente, se achava providencial e insubstituível, a ponto de fazer discursos de até 7 horas de duração. Pois a essência do ditador, além do messianismo, é a satisfação de caprichos à custa do assentimento bovino de uma penca de asseclas que tudo elogiam e louvam. 

4 – A vaca
Nesse contexto, depois de acumular fracassos em série em suas veleidades de homem iluminado, eis que Fidel, ainda acabrunhado com o gritante fracasso em plantar café nos arredores de Havana, forma de engendrar uma alternativa à monocultura da cana de açúcar, um dia acordou siderado pela visão redentora abaixo descrita.

Em que consistia o novo devaneio? A pecuária. Ora, pensou ele, poderia alimentar a Ilha graças à criação de gado, pensou. Foi então que ele próprio se educou em inseminação artificial. Ao cabo de simulações, que por uma vez não deram de todo errado, cruzaria o parrudo zebu local com matrizes de vacas suíças Holstein, generosas em leite. Seguindo a única lei que não se questionava – a de seus caprichos de galego cabeçudo –, traçou um plano decenal para atingir 1 milhão de reses, capazes de produzir 10 litros de leite ao dia, graças ao esforço coletivo de 12 mil inseminadoras.

Convenhamos, como não há socialismo sem herói, eis que do experimento surgiu um autêntico, de mais carne do que osso: o touro Rosafé. De um de seus potentes cruzamentos, nasceu a vaca Ubre Blanca – Teta Branca –, de pronto inscrita no livro de recordes Guinness de 1982. E a justíssimo título, é bom que se diga. Isso porque ela deu 109,5 litros em um único dia e nada menos que 24.269 em menos de um ano. Até a morte dessa heroína, em 1985 – não, não foi por fuzilamento nem por suspeita de conspiração, como ocorreu ao general Ochoa –, ela figurou por diversas vezes na primeira página do jornal oficial Granma, como prova viva dos feitos socialistas. Eis, enfim, uma vitória inconteste.     

5 – Daqui para frente
Certo é que Fidel está morto e o máximo que podemos fazer é especular e conjecturar. Especialmente quando se tem no comando o irmão Raul, já consagrado há uma década na posição suprema. A essa altura, ninguém pode dizer de sã consciência como serão os próximos anos na Ilha. Donald Trump é uma incógnita também nesse capítulo e há de se torcer para que não se engate marcha à ré nas conquistas perpetradas por Obama, voltadas para desdramatizar as relações bilaterais. É óbvio que em nada ajuda Cuba ter prisões abarrotadas. 

No momento em que escrevo essas linhas, aliás, numa gelada manhã europeia, os franceses se indignam com as palavras proferidas pela representante do governo nas exéquias de Fidel. Ségolène Royal, ex-candidata à presidência, se saiu com elogios de ocasião ao caudilho. Ora, até a esquerda francesa se sentiu ultrajada por ter ela incorrido em flagrante alumbramento, estando investida do papel de símbolo da França, em Santiago de Cuba. Mas se tudo pode se esperar de François Hollande, o mesmo vale para sua ex-esposa. É o que se comenta abusadamente nos cafés. Certo é que feitos desportivos ou uma qualidade mínima de padrão de saúde não justificam que se feche a cadeado as fronteiras e que se prive às pessoas o direito de ir e vir. Tão ou mais odioso do que esse expediente, é morder parte das remessas dos exilados e descendentes para equilibrar as contas que, depois do fim das benesses da Rússia, Venezuela e Brasil, desafiam doravante a esperteza galega de Raul. 

6 – Mensagem final ao Comandante
A Fidel, eu diria: “Para mim, apesar do sucesso de Ubre Blanca, a História não o absorverá. Se não tenho a mínima dúvida de que você foi um valente – a maior das virtudes no dizer de Churchill –, seus feitos políticos nunca me maravilharam. Isso porque sem liberdade, não há solução aceitável. Por outro lado, reconheço que, ideologia à parte, você se divertiu um bocado em sua longa vida. E, não raro, à custa do embasbacamento de intelectuais que entreteve com pescarias, bons charutos e longos monólogos. Alguns ainda suspiram nas cadeias brasileiras à mera menção a seu nome. Viva, pois, a Galícia espanhola e a veia empreendedora de seu povo operoso. Hasta la vista".


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