Rudimentos de aviação V

Pelo sim, pelo não, melhor não esperar muito de quem sentará a seu lado

Por Fernando Dourado Filho, de Karlsruhe (Alemanha)

Cena do filme filme "Sully", com Tom Hanks

Eis que chegamos hoje ao fim de nossa série sobre aviação comercial, a vida nos aviões e aeroportos. Para arrematarmos os capítulos anteriores e já respondendo a algumas das perguntas que chegaram, resolvi listar itens que servirão, assim espero, como dicas preciosas para quem viaja. Afinal, a experiência não se dá sem um mínimo de observação.  

VIII - Vizinhos de poltrona
Como vimos até aqui, a aviação tem seus mitos. Como não é o caso aqui de falarmos sobre os aspectos técnicos dos aviões – mesmo porque meus conhecimentos não chegam sequer à porta da cabine de comando –, enfocarei temas de interesse geral que povoam a mitologia dos ares e o dia a dia dos voos comerciais. 

a) Os vizinhos de poltrona são um capítulo à parte. Nenhum será pior do que aquele homem providencial, sem cuja interveniência a empresa onde trabalha irá à bancarrota. Falando em altos brados em dois telefones ao mesmo tempo, ele dispara ordens e advertências a pobres coitados que não entendem o despropósito de tanto estardalhaço e urgência. Afinal, ele, o chefe, só estará desconectado por 50 minutos. Mas o homem providencial é tão devotado à empresa que, prevendo que algo lhe possa acontecer, quer deixar o legado de sua contribuição inexcedível, em caso de fatalidade. Mal o avião pousa no destino, lá está ele feito um alucinado: "Aderbal, é você? Mandou protestar o título? E a Tatiana, já a demitiu?". No fundo, ele sonha que um headhunter esteja no recinto e se encante com tanto farol. Só falta escandir os números de seu celular para que todos tenham tempo de anotá-lo; 

b) Tão grave quanto o caso dele é o do devorador de milhas. Capaz de voar do Rio de Janeiro para Milão via Vancouver só para acumular mais pontos no cartão de fidelidade, ele adora uma plateia. Normalmente, pegará o vizinho para confidências arfantes: "Hoje, chegando a Maceió, faço uma reunião e pego o voo das 10h para Brasília. Ao meio-dia de amanhã, viajo para Congonhas. Na quinta-feira, faço Florianópolis e, de lá, desço até Porto Alegre. Na sexta à noite, se Deus quiser, já estarei em Fortaleza. Então relaxo por um dia antes de embarcar para Lisboa, onde faço escala a caminho de Toulouse. Com isso, pretendo juntar 20 mil milhas. Com 50 mil a mais até o Natal, saio da categoria ouro para diamante". É torturante;

c) Pelo sim, pelo não, melhor não esperar muito de quem sentará a seu lado. Um amigo italiano passou a vida se queixando de que, apesar de só viajar na primeira classe, jamais sentara ao lado de uma mulher interessante. Não tinha sequer uma história boa para contar de um caso em que saíram do aeroporto para uma tarde tórrida no destino. Por que as coisas boas só aconteciam aos outros? Mas um dia a sorte mudou. Quando chegou à poltrona, mal acreditou no que viu: uma linda argentina, simpática como poucas e receptiva à sua conversa, logo escancarou um sorriso de cinema. Embalados pelo bom vinho e já se vendo ao pé do altar com ela, eis que são colhidos por uma turbulência terrível. Enlaçando-a pelo ombros, ele a traz até si para confortá-la com palavras carinhosas: "Já vai passar, já vai passar, estou aqui". De repente, ela soluça e ele sente um calor lhe descer pela camisa. Ela enjoara e, como pode acontecer, vomitou no regaço de seu protetor. Ele ainda complementava, anos depois: "Era uma jaqueta Armani de estimação. Foi para o lixo ali mesmo";

d) O mais insólito que me aconteceu na rubrica "vizinhos", contudo, se deu num voo de São Paulo para Salvador, patrocinado por uma empresa já extinta. Na mesma fila em que estava sentado, do outro lado do corredor, estavam também uma mãe e o filho, ela uma parruda senhora negra e ele um garoto crescidinho que me chegava à cintura cujo nome era Jonatan, e que conversava com desenvoltura com a aeromoça. Ele insistia em alguma coisa que eu não sabia bem do que se tratar até que a mãe capitulou. Levantando a blusa, então, eis que Jonatan foi rápido a lhe agarrar um dos seios imensos e se deixar amamentar com apetite e olhos vivazes. Nunca em minha vida tinha visto coisa parecida e voltei rapidamente a meu jornal para não presenciar uma cena que me pareceu quase incestuosa.           

IX - Façanhas e fatalidade
Dada a aura de glamour que sempre envolveu a aviação comercial, algumas pessoas tendem a magnificar suas experiências. Já voei milhões de milhas a bordo de todo tipo de equipamento e cabem nos dedos de uma só mão as vezes em que ocorrências realmente atípicas e desagradáveis me cruzaram o caminho. Falo de turbulências excepcionais, mudanças bruscas de altitude, mortes a bordo e arremetidas. Por outro lado, conheço pessoas de baixíssima milhagem aérea a quem já ocorreu viver coisas tão inusitadas como pouso de barriga, fogo no banheiro, embriaguez dos tripulantes, iminências de colisão e amerissagem. Nessas horas, é melhor lhes dar a mesma atenção que damos a pescadores inspirados.

Mas aviação é isso. Como dizem os "experts", são milhões de horas da mais completa monotonia e previsibilidade que podem desaguar em minutos do mais profundo desespero. Nesse contexto, amanhã estreia aqui na Europa o filme "Sully" (foto), com Tom Hanks. Conta a história de um experiente piloto que pousou no rio Hudson, ao lado de Manhattan. Por coincidência, nesse mesmo dia, eu chegava em Nova York vindo da Costa Oeste para ficar com minha namorada na casa de Marina Roesler. Ela estava preocupada porque, não sabendo de onde vínhamos, podíamos ser um dos passageiros desse voo que agora vai para a grande tela. Certo é que chegamos são, salvos e secos.  

Mas é claro que um dia o pior pode acontecer. Durante anos, sempre fui tomado por tensão ao pousar no antigo aeroporto de Medellín, na Colômbia. As montanhas ao redor e o fato de que tenha sido lá que morreu Carlos Gardel, justamente num acidente aéreo, não me tranquilizavam em nada. No momento em que arremato as últimas linhas de nossa série, e por suprema ironia, eis que um acidente consterna o Brasil, mais diretamente o mundo do futebol e a cidade de Chapecó (SC). Se, até aqui, tivemos ao longo dessas semanas bons motivos para rir, lamento encerrar o capítulo de hoje com uma nota de pesar. De minha mesa, porém, vejo os aviões riscarem o céu azul do oeste alemão. Até mais ver e bons voos.        


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