Rudimentos de aviação III

O que interessa saber a ordem de embarque dos passageiros que estão na sala 3 e que se destinam a Joinville?

Por Fernando Dourado Filho, de Madri (Espanha)

Aeroporto de Frankfurt, na Alemanha

Hoje vamos ao terceiro capítulo de nossa série sobre aviação comercial, sob a ótica de um passageiro comum – talvez apenas um pouco mais observador do que a média dos demais –, bastante rodado e, decididamente, mais ranzinza do que a maioria. Os pontos a ser cobertos nessa seção se inserem dentro da dinâmica sequencial dos capítulos anteriores. Ou seja, passado o Check-In, a Segurança e a Imigração, nada mais justo que cheguemos à área onde circulam centenas, quando não milhares de passageiros, nos minutos, ou horas, que antecedem o embarque efetivo no avião. Em seguida, falaremos do que acontece quando nos instalamos a bordo até depois da decolagem e da chegada ao nível inicial de cruzeiro. Assim sendo, continuemos nossa viagem. Obrigado pela companhia.

V – Antes do avião
Para muitos, e este escriba não é exceção, se trata de um dos melhores momentos da experiência aeroportuária. Pois da Imigração em diante, todo mundo ou é passageiro ou funcionário do aeroporto, direto ou terceirizado. Portanto, o risco de dar de cara com uma delegação de 40 japoneses que foram ao terminal acompanhar a partida de um parente para Fukuoka já está reduzido a zero. Muito embora convenha ressaltar que nem tudo doravante serão flores, mesmo porque é nessa hora que você começa a saber, de verdade, se o voo sairá no horário e se tudo está sob controle no aeroporto de destino. Contudo, você pode estar prestes a respirar aliviado pela primeira vez desde o check-in. Mas aqui vai um conselho: não respire muito fundo. Isso porque as demonstradoras de perfumes das lojas duty-free adoram aspergir colônia nos passantes, o que pode causar uma tremenda sensação de enjoo. Fuja das lojas, portanto, e vá esticar as pernas pelos corredores para ativar a circulação sanguínea que, mais adiante, uma vez no ar, ficará morosa e causará torpores.

No caso de embarque para o exterior em aeroporto brasileiros, se acautele desde cedo, comprando em sua vizinhança os jornais e revistas de que precisará. Isso porque nossas livrarias e revistarias são indigentes em boas leituras. Nada que se compare a Frankfurt (foto), por exemplo, onde você encontrará jornais em 80 idiomas. Aqui mal e mal você achará um exemplar mirrado de um diário local e dezenas de livros de auto-ajuda na linha de "Como ficar milionário sem sair de casa" ou "Entre em forma comendo pizza de calabresa". Nem sonhe em comprar um bom Machado de Assis em inglês ou castelhano para presentear seus anfitriões no destino. A regra é expor o que "gira", na linguagem do varejo. É claro que não faltarão nessas prateleiras livros de padres e de lideres religiosos salvacionistas. É óbvio, também, que a experiência será mais agradável se você tiver um cartão de acesso a um 'lounge" da companhia aérea que o transportará ao destino. Em alguns deles, se serve comida de primeira (especialmente os da Star Alliance) e só tenha cuidado para não abusar dos drinques para não embarcar trôpego. Certo é que você poderá trabalhar, ver televisão, escrever uma crônica e papear com um amigo. 

É evidente que alguns aeroportos podem estragar até mesmo esse momento de paz interior. Congonhas é um caso típico. Você está no portão 20, por hipótese, e aguarda o embarque para Salvador. Diga-me: o que interessa saber a ordem de embarque dos passageiros que estão na sala 3 e que se destinam a Joinville? Nada, rigorosamente nada. Mas, por um estranhíssimo sortilégio acústico, você será obrigado a interromper sua leitura a cada minuto diante da estridulência da voz de uma mulher de fala anasalada que o fará acompanhar todos os embarques das mais de 300 decolagens que lá acontecem por dia. Ninguém ainda trouxe até São Paulo a ideia tão velha quanto banal de sonorizar o espaço estrito do voo e seus interessados diretos. Bem como de colocar uma placa com os seguintes dizeres: "Não fazemos avisos sonoros no aeroporto. Favor atentar para os painéis eletrônicos". Mas, ora, isso geraria o desemprego da afilhada do brigadeiro. Portanto, vamos infernizar a vida de milhares por conta do contracheque da dita cuja. É ela quem também anunciará as inevitáveis trocas de portão, provocando romarias no aeroporto. Diante de sua perplexidade, os funcionários dirão: "É culpa da Infraero, senhor". 

Uma coisa é certa: procure se localizar com respeito ao portão de embarque em grandes aeroportos. Não é raro o caso em que você precisará tomar um trem para trocar de terminal. Ou, em alguns aeroportos, percorrer quilômetros – sem exagero – até o local adequado, sujeito ainda a ter que decifrar uma sinalização nada óbvia. Frankfurt consegue essa proeza: levar à lona a proverbial racionalidade germânica, colocando placas que se contradizem entre si a todo instante. Os engenheiros devem ter projetado o posicionamento das setas indicativas durante uma "Oktoberfest" bávara e, até hoje, os passageiros pagam o pato. Falando nele, é bom comer alguma coisa porque pode muito bem acontecer de você só vir a ser servido dentro de duas ou três horas, dependendo da duração do voo. Uma verdade quase universal é que a comida, em geral, é bastante ruim. E fica ainda pior quando vemos os preços.  É claro que alguns aeroportos têm bons restaurantes. Em Roma, existe um bar onde eu poderia morar e passar a vida degustando lindas saladas, queijos deliciosos, frios primorosos e vinhos que encantam. Mas você sairá de lá com o décimo-terceiro salário comprometido.        

Talvez uma boa mescla de aconchego, gastronomia e cultura esteja presente no aeroporto de Lisboa, depois de reformado. Se o "lounge" da TAP anterior era muito melhor do que o atual, há de se reconhecer que lá temos duas livrarias de qualidade, uma revistaria bem sortida, além de farta disponibilidade de boa música, artesanato e venda de produtos com inconfundível sabor do "terroir" português, tal como doces e alheiras, farinheiras e chouriços, além de bons queijos. Deveria ser um exemplo para os brasileiros. Nunca será demais repetir que Guarulhos peca também pela pobreza de produtos brasileiros de qualidade que se possam levar. Que sentido tem comprar queijos franceses e holandeses se não há espaço para nossas variedades? Por que vou comprar em São Paulo embutidos ibéricos se estou a caminho da Espanha? Será que não sabemos fazer um bom salame? São perguntas que nunca consegui responder. Até as tentativas de se vender caipirinha em sachês parece ter naufragado depois de breve incursão nos "lounges". É hora de nossos planejadores se darem conta de que aeroportos são excelentes vitrines para projetar a economia criativa local. Chocolates Lindt não integram nosso acervo. Tampouco balas de amendoim americanas. 

VI – No avião
Ao entrar no avião, ou na "aeronave" – como gostam de dizer novatos, profissionais e esnobes –, é bem possível que uma mulher de hálito de clorofila saúde-o com o autêntico e inconfundível "sorriso de aeromoça". Se você está num voo internacional e teve a sorte de ter tido embarque preferencial em classe executiva, não tardará para que alguém apareça com uma taça de champanhe, para extrema consternação dos demais passageiros que se dirigem para o fundo do corredor e espicham olhares de esguelha hostis. Como quase sempre é esse meu caso, tomo um espumante em terra de forma a dirimir a inveja e os baixos instintos. Falando neles, é muito divertido perceber as reações da tripulação sempre que você pede um extensor de cinto de segurança. Ora, se você for meio corpulento, não há como escapar desse imperativo em certos aviões. A viagem fica mais confortável, asseguro. Não sei quem treina a aeromoça nesse sinuoso tópico de etiqueta, mas a verdade é que ela entrega o extensor com tanta discrição que, quem vê a cena inadvertidamente, pensará que ela está desovando furtivamente um pacote de cocaína no colo do traficante ou entregando a propina de uma empreiteira a um lobista de grei. Por que isso? Simples. Alguém lhes incutiu essa patranha de que "quem é gordo, é menos". Quanto a mim, dispenso esses salamaleques, mas nem sempre dispenso o extensor. Tão simples.   

Para ser bem sincero, adoro quando não tenho vizinhos. Nem tanto pela corpulência e muito mais por poder espalhar revistas, livros e jornais na cadeira ao lado, sem me preocupar em observar regras de etiqueta que me obriguem a entreter conversas ocas. É claro que vez por oura calha de você ter vizinhos que valem a pena. Quando Romário era jogador do PSV, me diverti com a conversa dele com Ricardo Gomes, então jogando na França. O "baixinho", que estava voltando atrasado para a reapresentação na Holanda, contou em detalhe os estratagemas de que se valia para driblar os tolerantes dirigentes batavos. De outra feita, fui conversando com Simone até Los Angeles. Mas só me dei conta de que aquela baiana doce era a cantora quando já sobrevoávamos a Baixa Califórnia. Ela me disse que ficaria na casa de Dionne Warwick e que temia terremotos. Eu segui para o Japão e o que aconteceu? Simone foi colhida por um terremoto forte na Costa Oeste. Depois leria depoimentos dela sobre a experiência. Mais recentemente, bati um longo papo com Zeca Camargo num voo para Paris. Foi ele que me recomendou o restaurante "L´ami Paul", onde se come bem e barato. 

É claro que muitas vezes ficamos desapontados ao sentar ao lado de pessoas visivelmente hostis. Quando torcem o nariz para mim, eu tenho vontade de dizer: "Escuta aqui, amigo, eu também gostaria que minha vizinha fosse Maitê Proença, e não você. Mas não deu, esse negócio é meio lotérico mesmo, entende?" Quem quer que seja o vizinho, você não poderá driblar as demonstrações de segurança. E quanto mais simpáticos eles tentam ser, muito pior pode ficar. A TAP lançou um vídeo em que é uma criança quem dita as instruções. Se elas são chatas em voz adulta, neste tom as regrinhas ficam insuportáveis. Mas é sempre bom, independentemente da demonstração, dar uma olhada criteriosa e ver onde está a porta de emergência mais próxima. O resto da xaropada é previsível, mas inevitável. Cada um achará sua forma de se desconectar. Impossíveis mesmo são os passageiros que acham que sua bagagem de mão tem de ficar exatamente sobre seu assento. Se o que prevalece é o medo de ser roubado, especialmente entre brasileiros que atribuem importância vital às compras, melhor que a deixe duas ou três filas adiante. Assim poderá pilhar os saqueadores dos ares de camarote. Depois disso é só esperar o momento da decolagem. E, é claro, respeitar as rezas, bençãos e orações que se ouvem nessas horas, especialmente em tempos de religiosidade hipertrofiada e fé oportunista. Se essa já é a moeda corrente em terra, o que não dizer do que se passa num charuto feito de metal, plástico e espuma, a voar a 12 mil metros de altura sobre as profundezas dos oceanos escuros, e em que, à menor perda de pressão na cabine, seus órgãos explodirão num átimo e você apagará?       

Mas não se preocupe. Até essa perspectiva dantesca pode parecer preferível se você estiver perto de um criança com dor de ouvido. Já viajei ao lado de algumas que choraram de uma ponta a outra, entre o Rio e Manaus. E o que não dizer daqueles meninos de 8 anos, cujos pais o veneram e que acham normalíssimo que ele ensaie 50 metros rasos no corredor do avião? Quando você menos espera, o bólide passa zunindo a centímetros ou então colide atabalhoadamente com seu cotovelo, interrompendo um sono que você vinha construindo com Stillnox e pensamentos no destino? "Desculpa, tio", disse um dia desses um tal Dudu que tinha rodas sob os sapatos tênis como eu jamais vira. "Não sou seu tio nem isso aqui é pista de corrida. Vá procurar sua mãe". 

Quando a bagunça beira o ingovernável, como é o caso da classe econômica da Turkish, procedente de Buenos Aires – em que cada adolescente portenho acha que está na casa da avó e até guerra de travesseiro vira brincadeira –, alguém da tripulação tem a ideia esperta de mandar apertar os cintos e ocupar os lugares. Logo se vê que é um alarme falso de turbulência, acionado com o único propósito de dar um "freio de arrumação" no caos reinante. São uma verdadeira ameaça à segurança as tripulações que, por recato ou timidez, não enquadram os passageiros ingovernáveis. Nessas horas, lembro Rimbaud: "Por delicadeza, perdi minha vida". Atingida, por fim, a altitude inicial de cruzeiro, estaremos prontos para o próximo capítulo dessa série: o serviço de bordo. Afinal, o voo não pode parar. Até breve.  


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