Rudimentos de aviação II

Embora a Imigração seja marcada pela sisudez, países com hierarquias horizontais podem tornar esse rito quase engraçado

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo

Imigração em aeroporto

No dia 14 último, nosso "post" aqui no blog "Ao redor do mundo" – mais tarde reproduzido no Facebook – versou sobre a aviação sob a ótica das pessoas que viajam com alguma frequência (leia aqui). Hoje os temas abordados dizem respeito a duas etapas cruciais, que são aquelas imediatamente subsequentes ao "check-in". Trata-se da Segurança e Controle de Passaportes, ou Imigração, quando for o caso. Quem leu a primeira parte, logo se deu conta de que o enfoque será sempre o de um leigo em aspectos técnicos da aviação comercial. Não importa o quão viajado eu seja e quantas voltas à Terra tenha dado a bordo de mais de 150 companhias aéreas, entre ativas e extintas. Importante aqui, na verdade, é compartilhar experiências e, se possível, rirmos um pouco juntos à medida que aprendemos uns com os outros.       

III - Segurança
Está fora de qualquer dúvida que a segurança é um ponto crucial na aviação. Para continuar sendo o meio de transporte confiável que é – mais até do que o elevador –, se impõe tentar barrar na entrada toda e qualquer ameaça à integridade do avião, logo do voo. Se um histórico de acidentes ao longo do tempo contribuiu para que se eliminasse a imensa maioria dos fatores de risco, os anos 1970 – até onde consigo lembrar – assinalaram a chegada do terror às cabines de comando. Desde então, aconteceu de tudo. O ponto culminante da insanidade se deu no fatídico 11 de setembro em alguns pontos do território dos Estados Unidos. Outra exorbitância, igualmente terrível, foi a colisão premeditada de um avião contra as montanhas, perpetrada por um Primeiro Oficial desequilibrado. Ou seja, em nenhum dos casos acima houve a necessidade do recurso a armas de fogo para que o dano fosse irreparável e colossal. 

Portanto, não sejamos excessivamente cruéis para com os maçantes procedimentos. É claro que sabemos todos que a imensa maioria dos passageiros não alimenta nenhum desejo pernicioso. Por conta de uma fração diminuta deles, porém, um aparato teve que ser montado aqui e acolá, movimentando uma próspera indústria. Uns sabem ser eficientes com charme e humor ao inspecionar bagagens e passageiros. É o caso dos funcionários do aeroporto de Copenhague. Outros são tremendos na hora de fazer verificações. Nesse ponto, Tel Aviv deve ser insuperável. Se você diz que não tem amigos em Israel, por exemplo, é visto com suspeição. Se você diz que os tem, parece que as coisas só pioram. Pois, além da bagagem, muitas vezes um jovem imberbe, com idade pra ser seu neto, se apossará do passaporte e fará a mesma pergunta sob diferentes formas, só para ver se você cai em contradição. Lá, portanto, "o jogo só acaba quando termina". Não cante vitória até chegar ao avião.

Em qualquer das hipóteses e lugares, se você é desses que têm o pavio curto para redundâncias, tome meio comprimido de Lexotan e se prepare para o pior com toda paciência do mundo. Retire o computador da valise e aproveite para colocar na bandeja moedas, cartões de embarque, celular, cartões de crédito, anotações de guardanapo, preservativos, cinto, sapato e paletó. Mesmo que eles digam que não é necessário, insista: "Faço questão". Ainda assim, é possível que o resíduo metálico da embalagem do comprimido que ficou no fundo do bolso dispare o alarme e lá vai você ser apalpado por um sujeito à procura de protuberâncias. Nada agradável. Menos mal quando eles têm o super scanner. Prefira ficar atrás de orientais e evite latinos, africanos, indianos e árabes em geral. Os orientais são organizados e disciplinados. Os demais, muito menos. E lembre-se: os caras estão lutando por promoção, logo achar pelo em ovo é tudo com que sonham.  Se você ficar atrás de gente com próteses e marcapasso, nada há a fazer, senão se curvar diante dos fatos, pois levará mais tempo até que se desvencilhe desse verdadeiro rito de passagem.  

Odioso mesmo, convenhamos, é pagar taxas aeroportuárias extorsivas e ver umas senhoras desavisadas, coitadas, perderem seus preciosos tubinhos de hidratante e cremes. E tudo isso porque seus frasquinhos não estão acondicionados nos sacos plásticos que se prestam a esse fim, segundo o regulamento. Eis a pergunta que não quer calar: por que a administração do aeroporto não se encarrega de suprir os pontos de raio-X com dezenas ou centenas de saquinhos ao dia? O que custaria isso? US$ 100? US$ 1.000? US$ 10.000? Pois se essa medida patética é de lei, que eles tenham um estoque para poupar os passageiros menos experientes de um mau começo. E evitar o caráter punitivo dessa bobagem. É certo, porém, que a inspeção tem de ser bem feita. Em diversos trânsitos pelo aeroporto de Istambul em anos recentes, sempre saí com a impressão de que ela era frouxa ali. Deu no que deu.

Nada pode haver de mais triste do que você ver uma pessoa jovem ser flagrada em pleno transporte de drogas ilícitas. Sabe-se que é um pesadelo que se inicia para o passageiro incauto. É horrível e deprimente ver uma vida que se esvai. No fundo, talvez, a apreensão salve muitas outras. Mas essa é outra história.    

IV - Controle de passaportes
Eis um ponto em que o conhecimento das diferenças interculturais é crucial. Se ele será sempre determinante em todas as injunções que nos levem a qualquer lugar fora de nossa própria casa – para não dizer que vale também na nossa própria –, é na imigração que nos damos conta do caráter e da alma de alguns povos. Mas sejamos práticos, pois não é hora de intelectualizar a abordagem. Isso dito, os procedimentos brasileiros são bastante aceitáveis. As filas podem ser um pouco maiores ou menores, de acordo com as datas, mas, tenho de reconhecer, o fato de estarmos em casa nos poupa de maiores transtornos. Pelo contrário, há até confortos visíveis como filas exclusivas, agilidade e automação satisfatória.   

Com o arrocho das medidas de segurança, porém, os pontos de entrada na Europa podem estar mais exigentes. Um ou outro controlador pedirá para ver a passagem de volta e as disponibilidades financeiras do passageiro. Mas, geralmente, eles agem guiados pelo mais puro bom senso. Já os países que exigem visto – nunca vou compreender porque a Moldávia, por exemplo, persiste nessa prática para brasileiros, o que frustra muitos que querem visitar a Bessarábia de seus avós e lá deixar bom dinheiro –,  podem pedir "vouchers" de hotel e cartas-convite. O país mais absurdo de todos é Angola. As autoridades simplesmente declararam que se trata de um destino "não-turístico". Como se coubesse a eles determinar o que vai no coração dos viajantes. Ou seria o país uma enorme reserva de segurança para albergar os interesses de alguns potentados? Pode ser. 

Certo é que embora a área de Imigração seja quase sempre marcada pela sisudez, pelas perguntas vagas ou cheias de veneno, países com baixa "distância de poder" e hierarquias horizontais podem tornar esse rito quase engraçado. "Você deve estar louco", me disse uma vez um controlador dinamarquês, em pleno mês de fevereiro. Então se explicou: "Como é que um homem do Nordeste do Brasil troca o Carnaval de Olinda por uma cidade a menos de 10 graus de temperatura? Bem-vindo, de qualquer forma, se essa é sua vontade", e sorriu. Ora, se tratava de um entusiasta de Pernambuco que já estivera lá algumas vezes. Por outro lado, jamais se poderia esperar tamanha informalidade de um russo que, fiel ao figurino assimilado na escola KGB, fecha a cara e olha fixamente o dono do passaporte, comparando-o judiciosamente com a foto do documento. É difícil conter o riso.  

É bom ter cuidado com os atestados de vacinação e se precaver contra escorregadas que possam custar caro. Um amigo já teve acesso negado aos Estados Unidos ao dizer à autoridade que faria um bico de intérprete durante a semana que passaria em Chicago. Voltou na mesma noite, já que tinha visto de turista. Em outros tantos países, há a opção de pedir ao controlador que não carimbe o passaporte. As digitais de sua vida podem causar transtornos. Um carimbo de Israel pode criar sérios problemas em Beirute, quando não a recusa de acesso ao Líbano. Quanto a meu último passaporte, tirado numa embaixada brasileira para atender à necessidade de ter páginas em branco para outros vistos, ele apresenta uma falha no código de barras. Ora, ele é só uma das 12 marcas de identificação de um passaporte (o suíço tem mais de 50). Mesmo assim, tem um atendente da TAP, no Recife, que, toda santa vez, some com o passaporte para fazer uma consulta sobre o "problema" junto à Polícia Federal. Volta sempre com a mesma resposta: "Está tudo bem". Mas se eu voltar lá duas semanas depois, ele repetirá o procedimento. Nesse caso, já é uma característica pessoal. 

Fiquemos hoje por aqui e até segunda-feira, portanto. Depois do Prólogo (I), "Check-in" (II), Segurança (III) e Imigração (IV), no próximo "post" atacaremos os palpitantes "Antes do avião" (V) e "No avião" (VI). 

Bom fim de semana e bom voo para os que vão viajar.


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