Rudimentos de aviação I

A aviação integra a minha existência de forma constante há mais de 40 anos

Por Fernando Dourado Filho, de Indaiatuba (SP)

Aeroporto de Guararapes, no Recife

I – Prólogo

Quando criança, gostava de ir à mureta do aeroporto dos Guararapes (foto), no Recife. E ali apoiado, via os turbo-hélices e jatos da época desovar levas de homens e mulheres elegantes que desciam as escadas um pouco trôpegos e eram recebidos por crianças que corriam em sua direção e os beijavam ardorosamente. Alguns dos meninos e meninas já perguntavam de cara onde estavam os presentes. 

Não rara vez, eu mesmo acudia ao local para receber meu pai que, dependendo da origem, poderia trazer desde salsichão dinamarquês até uma caneta que dava choque (se estivesse chegando de Manaus, a cidade da Zona Franca, a única do mundo que "funciona para dentro") ou, melhor ainda, quando ele trazia fascículos da Abril Cultural já publicados em São Paulo, e ainda não disponíveis em Pernambuco. 

Certo mesmo é que eu olhava aquelas pessoas e dizia a mim mesmo: "Um dia minha vida será assim. Um permanente entra-e-sai de avião. Posso até dispensar o beijo melado das crianças. Mas jamais o ir-e-vir constante". Pois bem, como é perigoso formular votos em certos estágios da vida – até pela enorme possibilidade de que eles possam se tornar realidade –, fato é que a aviação integra a minha existência de forma constante há mais de 40 anos. 

Estou contente com a realização do desejo antigo? Em certa medida, sim. Mas dada a vastidão do tema e do repertório que acumulei, vamos destrinchá-lo por tópicos. É claro que voar nunca foi um fim em si próprio. Se assim fosse, teria sido aeronauta – como meu pai em seus primórdios. Voar se prestava a atender outros objetivos. Mas isso não me exime de registrar um pouco do muito que vi. A partir de hoje, teremos a publicação de alguns tópicos relevantes.

II – O "check-in"
"O que mata na aviação não são os desastres de avião. O que é fatal às coronárias é o aeroporto e seus ritos maçantes". Não é de hoje que escuto isso de passageiros experientes – e não tenho como discordar do potente argumento. É claro que pessoas que viajam esporadicamente, encaram as chateações como naturais e, por que não, até como parte da aventura. Até atrasos são motivo de festa. O passageiro mais rodado, contudo, se sentirá torturado. A começar pelo despreparo dos atendentes. 

Tudo começa no "check-in". No Brasil e em outros países de cultura mais particularista, ou seja, naqueles em que as regras não são respeitadas igualmente por todo mundo, o que não falta é gente metida a esperta que se esgueira pela fila de prioridades sob alegações as mais inusitadas. "Estou grávida", diz uma adolescente sem quaisquer marcas aparentes. "Sou lactante", diz outra que sequer está acompanhada de um bebê.  

Quanto aos funcionários do balcão, há muitos que não sabem distinguir as chamadas prioridades de lei dos passageiros que têm cartões preferenciais. Optam, então, por cismar com peso de bagagem de mão. E esquecem detalhes cruciais: creditar as milhas do passageiro ou perguntar se ele tem preferência por assento. Assim sendo, não é raro que coloquem homens ou mulheres corpulentas em poltronas do meio, o que não somente os constrange, como também castiga quem está ao lado.  

Quanto mais crítico o período de pico – festas de fim de ano, por exemplo –, maior o número de "trainees" nos balcões, o que só agrava a qualidade do atendimento.  Nesses casos, mesmo em se tratando de fila única, convém estudar detidamente os perfis de quem está a cargo do "check-in". Verifique a pessoa que é visivelmente mais desenvolta e simpática. Tenha cuidado extremo com os muito jovens e atenção para quem está em começo de carreira, mesmo que entrado nos anos. 

O Brasil tem absurdos nesses quesitos. Os chamados "assentos preferenciais" – muitas vezes custam não mais que R$ 40 de acréscimo – não podem ser comprados no "check-in". A funcionária não está autorizada a receber em espécie, crédito ou débito. Impõe-se ir à loja do aeroporto, geralmente apinhada e, enquanto o passageiro não volta com a quitação, a bagagem fica dormindo na balança, o que leva ao infarto da fila toda, quando não a um ataque cardíaco de um viajante menos paciente. 

Nesse contexto, é importante ter um desses cartões de fidelidade. Com voamos o país inteiro em classe única, essa é a chance que a aviação comercial oferece para que o passageiro tenha acesso a um atendimento mais ágil. Dispensável dizer que muita gente evita despachar mala nos dias de hoje, o que é bom. Mas não são poucos os que ocultam os volumes parrudos que pretendem levar à cabine. Resultado: a inoperância do "check-in" levará a colapso os compartimentos de bagagem internos. 

Essa é, contudo, a etapa mais branda de todas as próximas. Mesmo que impliquem com a grafia de seu nome, façam conferências redundantes e se embananem com os códigos de reserva, tudo é só a etapa preliminar. Pois, de qualquer sorte, você poderá sempre dar meia-volta e desistir. As etapas subsequentes são aquelas em que a provação de verdade começa. Mais precisamente na segurança e nos procedimentos de controle de passaporte, próximos capítulos dessa pequena série. Até lá.        


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