Ingovernáveis

Uma democracia só funciona com apatia?

Por André D´Angelo

Protesto de estudantes em escola contra a PEC do Teto dos gastos públicos

Uma das virtudes invejadas pelos brasileiros nos argentinos é a capacidade de indignação e de disposição para a luta. Ao menos entre alguns de nós, firmou-se a ideia de que nossos vizinhos são menos acomodados e benevolentes com seus governantes que o brasileiro médio, como comprovariam as marchas semanais das Mães da Praça de Maio e os panelaços de 2001. Aos habitantes do Brasil caberia o papel de hienas que, quanto mais ultrajadas, mais tratariam tudo como piada de Carnaval.

Desde 2013, porém, pode-se dizer tudo sobre o brasileiro, menos que é adepto da inação. Como que para tirar um atraso de 500 anos, acumularam-se desde lá uma série de eventos públicos de rebelião contra nossos “podres poderes”. As jornadas de junho daquele ano, somadas à intensa mobilização das eleições presidenciais e às manifestações pró e contra governo nos anos que se seguiram, pareciam ser suficientes para aliviar a pecha histórica de imobilismo que pairava sobre a população – mas acabaram servindo mesmo para emprestar outra, bem menos lisonjeira: a de não saber exercer seus direitos em uma democracia.   

Nem é preciso recorrer ao exemplo dos black blocs de anos passados; basta uma conferida na atual primavera estudantil. Hoje existem mais de mil escolas ocupadas em todo o país. Nelas, não apenas as aulas foram suspensas, como também o ENEM, prejudicando 250 mil estudantes – sem falar no transtorno de obrigar a transferência dos locais de votação do 2º turno das eleições municipais. Em Porto Alegre, diversos prédios da Universidade Federal do Rio Grande do Sul estão com as atividades interrompidas também em função de ocupações, e na UFSM ensaia-se movimento semelhante. 

Enquanto mobilizam-se contra o limite dos gastos públicos e as mudanças no ensino médio, estudantes de 2º e 3º graus impedem colegas de ter aulas, prestar provas e terminar o ano letivo de maneira normal. Afetam mais a vida de quem está ao lado do que a dos supostos destinatários da insurgência, que vivem na distante Brasília. 

Na década de 1970, governos de diversas nações europeias viam-se em uma situação parecida. O ativismo da sociedade civil tornava qualquer medida mais profunda uma batalha desgastante e infrutífera. Um grupo de especialistas convocados a analisar a situação concluiu, em um documento, que “a democracia política somente pode funcionar normalmente com certo grau ‘de apatia e não participação de certos indivíduos ou grupos´, pois aparentemente havia ’um limite desejável para ampliação indefinida da democracia política’” (“A nova razão do mundo”, Dardot & Laval, ed. Boitempo, p. 194-5). 

Temo que black blocs, secundaristas e universitários revoltosos nos obriguem a concluir coisa semelhante a respeito do Brasil.


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