A batalha da saúde na ótica do Moinhos

Mohamed Parrini, do Hospital Moinhos de Vento, diz que a chegada de grandes players coloca o setor “em ebulição"

Por Antenor Savoldi Jr

antenor@amanha.com.br

Mohamed Parrini, diretor do Hospital Moinhos de Vento

Com aprovação da lei 13.097, de 2015, o Brasil passou a permitir que o capital externo tenha participação e o controle de serviços de saúde no país. Na prática, tradicionais hospitais filantrópicos passarão a disputar mercado com redes internacionais de olho em um mercado até então protegido, com grande potencial de crescimento. Desde a Constituição de 1988, até a promulgação da nova lei, os estrangeiros só podiam fazer investimentos nos setores farmacêutico e de produtos para saúde. Todos os demais segmentos, na área de saúde, eram vistos como sendo “estratégicos” e fechados para serem explorados por multinacionais, por exemplo. 

Mohamed Parrini (foto), carioca que já atuou como executivo em grandes empresas de diferentes setores – da indústria do petróleo à hotelaria –, há dez anos atua no Hospital Moinhos de Vento (HMV), uma das referências em serviços de saúde para todo o Brasil. O superintendente executivo do HMV prevê tempos agitados nesse processo de readequação entre oferta e demanda no mercado brasileiro de saúde: "Será preciso se preparar para competir em um mercado com novos players que têm mais dinheiro".

Como está a movimentação no mercado de prestação de serviços de saúde do Brasil, com a entrada de capital externo e players estrangeiros em instituições do país?
Tínhamos um mercado fechado que, como tal, não era tão eficiente quanto o mercado aberto. São mais de 8 mil hospitais no Brasil, muitos de pequeno porte. Como em todo negócio, escala é algo necessário, e fica difícil competir. Também havia baixa eficiência e baixo nível de meritocracia na gestão. O mercado não precisou mudar muito, pois era protegido. Ainda há muita eficiência a ser conquistada. Para quem está comprando, é um mercado interessante, há muita gordura para queimar. A abertura do capital dá oportunidade de aquisição em um mercado com classe média crescente. São 50 milhões de pessoas com planos de saúde, o que pode ser considerada uma população de primeiro mundo. O grande movimento é saber como os hospitais filantrópicos sem fins lucrativos vão competir com grandes redes privadas cujo capital é internacional. Fundos de private equities estão comprando hospitais, ou construindo, e seu objetivo é a maximização do lucro. Entre os principais players estão a rede d'Or, a Amil, via United Health. Um grupo chinês acabou de comprar um grande hospital na Bahia também. Existe uma dicotomia, são conceitos diferentes. Como cidadão, acho boa a entrada do capital estrangeiro. Fortalece o mercado, aumenta a competitividade, mas traz desafios para quem precisa se preparar para competir em um mercado com players que têm mais dinheiro e buscam resultados imediatos. Os hospitais filantrópicos possuem uma história, uma visão, e vão precisar buscar caminhos nesse mercado. Nós, do Moinhos, somos afiliados à John Hopkins, também sem fins lucrativos. Acreditamos que é possível sobreviver com excelência, com amor pelo ser humano, paixão pelo que faz, e uma visão de longo prazo. Não será uma crise de dois, três ou quatro anos que vai inibir nossos investimentos. Enquanto a população precisar de um local de excelência para atendimento, ela vai encontrar aqui.

Qual é o futuro da prestação de serviços de saúde, uma vez que novas tecnologias estão mudando a relação das pessoas com o monitoramento e a prevenção de doenças?
As tecnologias têm trazido mais informação aos usuários, mas também traz o perigo do autodiagnóstico. Outra questão é que temos observado o aumento de acesso aos médicos, não necessariamente nos hospitais, mas via clínicas de atendimento rápido. Antigamente as pessoas tinham o médico próprio, da família. O que se nota é que muitos pacientes chegam às emergências do hospital sem ter médico. As pessoas recorrem às clínicas de fácil acesso, em busca de médicos para atendimentos de menor complexidade. Quem tem plano vai para as suas emergências, e quem não tem vai para o que ficou conhecido como "Doutor Consulta", para casos pontuais.

Quais foram as recentes expansões do campus hospitalar do Hospital Moinhos de Vento, e como elas foram viabilizadas em um mercado cada vez mais complexo?
Após uma crise de sustentabilidade econômica entre 2004 e 2007, o Moinhos de Vento se recuperou. De um faturamento de R$ 170 milhões em 2008 chegamos a R$ 700 milhões atualmente. O crescimento se deu com a melhoria da gestão e um programa de expansão aprovado pelo Conselho de Administração. Esse programa já envolveu mais de R$ 300 milhões, oriundos de geração de caixa próprio e financiamentos de longo prazo via BNDES e o banco alemão DEG. Em 2016, estamos investindo R$ 110 milhões, ocupando um prédio inteiro com equipamentos de ponta, expandindo a Emergência. Ampliamos de 12 para 17 as salas cirúrgicas. Além disso, investimos mais de R$ 30 milhões em equipamentos e novas estruturas para o Centro de Oncologia. Estamos levantando um novo prédio de internação com mais 100 leitos, dentro do campus hospitalar, com investimento total de R$ 120 milhões. Ele deve ser inaugurado no segundo semestre de 2017, com uma nova UTI, um andar para transplante de medula óssea. Atualmente, temos todos os dias de 40 a 50 pessoas esperando leito em nosso hospital.

Como o hospital está posicionado em relação ao chamado "turismo de saúde", que atrai pacientes para tratamentos?
O Moinhos é um desses hubs no Brasil. Pelo ranking da revista America Economia, nosso hospital está sempre entre os 15 melhores da América Latina e entre os cinco do Brasil. Pelo Ministério da Saúde, estamos entre os seis primeiros hospitais de excelência no Brasil. Hoje, Porto Alegre é um dos principais centros de medicina do país, e o principal da região Sul. Na minha opinião, o Clínicas é o melhor hospital universitário do país, e a Santa Casa é a melhor do país, e os privados também são centros de excelência. O Moinhos já é referência para serviços como neurologia e câncer. A população do Paraná para baixo e dos países do Conesul, sobretudo uruguaios, migra para cá. Mas temos um problema com a questão do hub aeroportuário, que torna mais fácil a ida de pacientes para São Paulo e Rio de Janeiro. É uma questão logística que não é intransponível, mas dificulta. Porém, existem procedimentos que só são realizados aqui – na área de pneumologia e enfisema pulmonar, por exemplo – que necessariamente traz as pessoas para cá.

Como sua formação fora da Medicina, em Economia e Filosofia, influencia na visão dos negócios e da missão de uma instituição de saúde?
Sou apaixonado por este trabalho. Ninguém está aqui só pelo salário. Todos trabalham porque sentem que estão mudando a vida das pessoas, ajudando-as, gerando conhecimento, colocando a cidade no cenário nacional. É muito uma questão de missão, mesmo. E as pessoas com quem se interage são de excelente formação. Eu me integrei facilmente pela questão da multidisciplinariedade, passei por diversas empresas, estudei Economia, Filosofia, Estratégia. São conceitos amplos que facilitam o diálogo com um grupo tão eclético. Aqui eu me encontrei.

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