Viagem frustrada à Ilha de Tonga

Embora ser gordo confira prestígio, a obesidade lá é uma epidemia grave

Por Fernando Dourado Filho, de Muro Alto (PE)

Embora ser gordo confira prestígio, a obesidade em Tonga é uma epidemia grave

Dia desses, após almoçar separadamente com dois dos mais lídimos escritores pernambucanos, ambos me fizeram uma pergunta a cuja recorrência já me acostumei. Mais precisamente sobre qual país eu gostaria de escrever – já que vivo carregando o leitor pelo braço mundo afora, como se a vida não tivesse sentido sem incursões a latitudes remotas. Sedentários convictos, ambos os mestres se assustaram quando eu disse que minha alma nômade sonhava em conhecer e relatar uma viagem à Ilha de Tonga, no Pacífico Sul.

Tanto o cronista Joca Souza Leão quanto o ilustre professor José Luiz Delgado arregalaram os olhos e insistiram na pergunta: “Onde mesmo, rapaz? O que diabos você faria por lá? Será que não restaria um destino mais à mão?” Não, respondi, seria lá onde, se pudesse, passaria as festas de Ano Novo. E por quê? Primeiro, pela sonoridade do nome que evoca palmeiras, coqueiros, mar azul e vegetação luxuriante. Segundo, porque ser gordo lá é sinônimo de beleza, logo ninguém me olharia de esguelha, como se fosse um pária social, senão com admiração. Com sorte, acharia até uma namorada bem fornida de carnes e doçura. 

Na minha fantasia sem limites, chegando à capital, Nuku´alofa – um nome por si só "gordo" já que evoca a palavra balofa, para nos atermos só à segunda parte –, alguns até me confundiriam com uma reencarnação mais esbelta do rei Tupou IV que, tendo pesado 200 quilos, morreu com meros 160 quilos, coitado, empenhado num esforço extemporâneo de fazer ginástica para motivar os súditos arredondados a perder banhas e gordura em torno da cintura.  

Foi assim que vi que poderia chegar a Nuku´alofa via Los Angeles e, animado, constatei que tinha milhas suficientes para lá aterrissar quase sem botar a mão no bolso, salvo pelas taxas de embarque. Ademais, cidadãos brasileiros podem obter um visto de turista no próprio aeroporto, fator determinante para quem não gosta de trâmites burocráticos. Navegando pelos sites de hotéis, também simpatizei com o Waterfront Lodge e eis que um projeto concreto começou a tomar forma aceleradamente, despejando na circulação a boa adrenalina que essas situações me inspiram.  

Mas hoje, confesso, esse meu sonho perdeu muito do ímpeto inicial. Isso porque bastou pesquisar um pouco mais sobre meu hipotético destino, para constatar que, embora ser gordo em Tonga confira prestígio, a obesidade lá é uma epidemia grave, como no resto no mundo. Com toques, contudo, algo perversos que de pronto me fizeram antipatizar com um país vizinho deles, a paradisíaca Nova Zelândia que ainda tenho em grande conta, exceto pelo episódio que passo a relatar. 

Vamos aos fatos. Até tempos atrás, a Ilha de Tonga era povoada por uma gente saudável e feliz. Bons pescadores, remadores vigorosos e adeptos de uma dieta de peixe, legumes, verduras e coco. Eis que certo dia um mercador esperto importou a chamada fralda de carneiro da Nova Zelândia, item não comestível no país exportador. Encantados com esse inusitado sabor de gordura frita, logo os 100 mil viventes da ilha descobriram o também nocivo rabo de peru. E então o caldo entornou de vez e a mudança dietética traria as consequências que hoje conhecemos.

O hábito de comer errado, associado a intricadas noções de status e a um código genético que os leva a precisar se empanturrar para prevenir hipotéticas fomes futuras – obsessão dos gordos em geral que temem a recorrência de uma escassez ancestral –, hoje eles chegam ao ponto de pescar o peixe fresco com arpão e trocarem-no por mantas de sebo venenosas ou, tão ruim quanto, por latas de até 2,5 quilos de carne processada, dessas que se comiam em tempos de guerra. Daí resultou a entronização da ideia de que comer bem é comer muito – o que leva alguns a ingerir um quilo de fralda de carneiro por refeição.

Assim sendo, a idade média da Ilha caiu de 75 anos para 64 anos. E dos 100 mil habitantes, 40% já têm diabetes em grau avançado. Vou mais longe: já se registram casos de adolescentes que tiveram os pés amputados por conta da doença traiçoeira. Ademais, 85% dos sacerdotes são obesos mórbidos pois à custa de tanto oficializar cerimônias, inclusive as fúnebres, são os primeiros a se exceder à mesa. Tomar refrigerante, então, é símbolo de prestígio, imaginem.  Ninguém na ilha entende que se possa preferir água aos xaropes carbonatados. 

O aumento de impostos da fralda de carneiro, feito na vizinha Fiji na tentativa de refrear o consumo, quase levou a uma sublevação popular e foi assim, amigo leitor, que se esvaiu meu fascínio por conhecer o que me parecia ser um simulacro de paraíso na Terra. Na verdade, nunca elevei o sobrepeso à condição glamorosa que, tristemente, grassou por lá. Mas, como não sou de perder a piada, achava que em Tonga estaria em meu elemento, lá chegando ao cabo de um voo excruciante, mas promissor. 

Frustrado, de antemão, por incorrer em falta no relato que jamais farei, torço para que minha outrora sonhada ilha reate com a saúde e que um dia ainda possa visitá-la depurada de tamanha desdita. Quem sabe o exemplo nefasto me trará motivação para perder uns quilos em 2017. Portanto, quando digo que não há viagem perdida, posso ir além. E afirmar, com convicção, que até as viagens que a gente não faz são fonte de aprendizado e reflexão. Quanto à Nova Zelândia, ela está me devendo uma. A ganância de alguns não deveria pretextar tamanho abuso de boa fé.        


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