Paris no outono

A minha é feita de folhas mortas do cais do Sena. E a sua?

Por Fernando Dourado Filho, de Ponta de Serrambi (PE)

Paris no outono

Amo o outono. Poucas cenas são tão belas quanto as folhas que caem preguiçosamente nas alamedas e nada se compara a passear sobre o espesso tapete ocre e avermelhado que elas formam. As temperaturas podem ser baixas, mas isso só agrega aos encantos da estação. Se você estiver em Paris, então, escolha flanar pelo parque Montsouris ou mesmo no Jardim do Luxemburgo. Evite sentar porque os bancos podem estar frios e úmidos e, estático, você se expõe a um resfriado. Mas pense enquanto deambula nas delícias que o aguardam logo mais à noite: o salsichão lionês com pistache da Maison Péret, na rue Daguerre. O curry de cordeiro do La Coupole ou mesmo uma sopa de cebola no aconchego de seu quarto. Depois é só cortar uma fatia de queijo Roquefort, se servir de uma taça de vinho e ver um debate presidencial na televisão enquanto mordisca as primeiras clementinas da estação. Dormir em Paris é mágico. Adivinhar-lhe os ruídos é fascinante e misterioso. 

Paris é uma festa para os sentidos. Tudo o que a vista capta, flagra o detalhe monumental, nem que seja de esguelha. Na estação de metrô Châtelet, músicos ucranianos evocam com voz encorpada as praias de Odessa e os trigais de Lviv. Vale a pena parar para ouvi-los. Nas calçadas, o cheiro de castanha assada rivaliza com o toque iodado que vem das ostras frescas e frutos do mar espalhados em enormes camas de gelo. Nos vagões dos trens de subúrbio, nos acostumamos a segurar o jornal com uma mão e a nos equilibrar com a outra, agarrando com firmeza a barra metálica. Até as freadas e manobras fazem bem, pois nos reforçam a musculatura das pernas entorpecidas em busca do equilíbrio. Subir a escadaria que leva à paisagem fresca de uma nova estação equivale à renovação da vida, pois logo seremos tomados por outras cores e atrações. É comum descobrir coisas que não estavam ali da última vez que você lá esteve. Ou o contrário: que lojinhas que lhe eram caras, tenham sumido em favor de um café novo.   

Em Paris, o ideal é estar a dois ou sozinho. Mas correm-se riscos se estamos em três ou mais. Pois cada um quer ver a sua versão da cidade. Ou melhor, quer vivê-la. Sendo brasileiros, então, parece reinar uma alegre balbúrdia e acredito que há quem goste disso. Um grupo de dois quer ir às compras no Printemps. Um casal que ser fotografado à noite sob as luzes da Torre Eiffel. Outro só pensa em ter um momento de paz para ler os jornais e tomar um chá de tília. É comum que façam isso sem nenhum acordo prévio. Não são como os disciplinados japoneses que se perfilam em fila indiana atrás de um guia a empunhar uma bandeira. Não. Agora, então, com a facilidade da comunicação por telefone, cada um faz o que quer e todos acham isso engraçadíssimo. Quando o grupo afinal se reúne, a dispersão é o grande tema do reencontro.  Mas Paris comporta tudo e até os garçons se acostumaram à confusão dos turistas latinos que espalham sacolas de grife em mesas e cadeiras destinadas aos fundilhos de clientes consumidores, e não a bolsas de compras. E dizem: "São brasileiros, não é? Logo percebi".        

Excelente programa será sempre escolher uma mesinha externa num café animado e ver as figuras que desfilam na calçada do ambiente climatizado do terraço. Quem será o negro de sorriso solar que atende a um sem número de solicitação de fotos diante do Flore? Um ator conhecido, diz o garçom. Fez o papel de cuidador de um milionário que, graças a ele, recuperou o gosto pela vida. E quem são aquelas moças altas e esbeltas, de olhar triste e cara de pouco sono, tocadas como um rebanho por um baixinho enérgico que parece orgulhoso de seu plantel? São modelos estonianas que moram no hotel ao lado, sob o olhar vigilante do patron. Nas ruelas próximas à Sorbonne, estudantes acorrem aos bons e honestos restaurantes vietnamitas e rolam as primeiras paqueras da temporada. Percebe-se que ainda estão tateando o terreno em busca das parceiras com quem dividirão inquietação intelectual e, por que não, o fulgor sexual. Em outros tempos, dali saíam verdadeiras famílias. Essa possibilidade hoje é mais remota. Afinal, o que é isso?       

Mas então pergunto: o que impede que Paris volte a ser palco das duas tragédias urdidas pelo terror ano passado? Nada, na verdade. Mas não é comum que uma cidade tenha tamanha capacidade de resiliência. Quando se instaura o luto, ele é curto e solene. Ao primeiro raio de sol, já no dia seguinte, se varrem os terraços dos cafés e tem início um novo ciclo. "Eh oui, la vie continue, Monsieur". Os alto-falantes das estações disparam seus avisos de segurança, mas ninguém parece prestar muita atenção. Nos dias de céu azul, jatos o cruzam em todas direções e, lá do alto, são milhares os que suspiram pela dama caprichosa e sedutora que jaz 10 mil metros abaixo. Pois muito mais do que uma cidade, Paris é um estado de espírito que povoa de prazeres as preferências mais enraizadas. Sobraçando as sacolas de livros, jogos-os na cama quando chego ao hotel e ali mesmo fico a folheá-los. A minha Paris é feita de páginas amarelecidas, tinta de impressão e as folhas mortas do cais do Sena.  E a sua?    


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