Amargo regresso

Constato que penhoramos parte de nossa juventude num cassino onde os dados eram viciados

Por Fernando Dourado Filho, de Recife

Roda de cassino

Muita gente antevê desdobramentos indesejáveis para a operação Lava Jato. Eles se dariam nos seguintes termos: 

a) O esfacelamento do "establishment" político ensejará a aparição de aventureiros nos moldes de Berlusconi que, como sabemos, tanto mal trouxe à Itália. Segundo alguns, o próprio advento de João Dória à prefeitura de São Paulo em primeiro turno, evidencia a saturação que inspiram os políticos clássicos. (Observe-se, contudo, que no caso aludido, estamos falando de alguém que surpreenderá positivamente – o que não quer dizer que todos os que se fantasiarem de "gestores" realmente o sejam); 

b) Os jovens magistrados, anabolizados pelos índices de popularidade e pelo aplauso da rua, cederão mais cedo ou mais tarde à ribalta e, ao se tornarem políticos, verão que as complexidades de governar vão além de tramitar papéis pelas hierarquias das comarcas, o que pode – e deve – configurar um novo capítulo de anti-clímax no coração do eleitorado. Isso já aconteceu com o outrora famoso delegado Protógenes e, para não variar, na Itália. Ser virtuosos não os exime da vaidade humana;  

c) A midiatização de eventos espetaculosos, forma de colocar a opinião pública em seu favor, fenômeno esse que está intimamente ligado ao item acima, leva a excessos que parecem corroer os primados do sistema jurídico que, embora viciado e saturado por recursos protelatórios, agora estaria, além do mais, manietado e encurralado;  

d) O instituto da delação premiada cria uma cultura onde o mau caratismo de padrão Staasi passa a ser moeda corrente. Isso porque as respostas buscadas por eventuais delatores pré-cooptados, praticamente induzem o interlocutor do investigado a coonestar o que quer que lhe convenha à defesa e, é lógico, ao gaudio da parte investigadora. Na antiga República Democrática Alemã, filhos denunciavam os pais por "desvios" que só existiam em função das pressões do aparato repressor; 

e) As injustiças decorrentes do açodamento podem destruir reputações que jamais serão resgatadas, o que já levou homens de bem ao suicídio, na Itália. Se pensarmos bem, é uma questão de tempo até que o fenômeno se reproduza aqui no Brasil. Para não irmos muito longe, todos temos bem vivas as injunções crudelíssimas por que passou o ex-deputado Ibsen Pinheiro, do Rio Grande do Sul;  

E por aqui fico, posto que enumerar tamanha desdita nenhum bem traz ao começo da semana. Conquanto todo o acima possa fazer algum sentido, e boa parte dos argumentos pertence ao sociólogo italiano Domenico di Masi, não nos resta alternativa senão a de perseverar nesse caminho. Sempre contando com o poder moderador do STF e, em especial, de alguns de seus quadros, especialmente os mais sóbrios, até por isso não menos enérgicos. No mais, convém apostarmos nos benefícios relevantes que daí decorrerão.  Benefícios? Quantos temos à vista? Alguns, talvez. 

1) Ora, se o populismo que quase nos aniquilou agravou alguns atavismos de nossa política, há de se reconhecer que, na verdade, apenas escancarou práticas antigas. É claro que elas vieram a lume pelo fascínio da cúpula petista por pequenas coisas do "grand monde" (vinhos de safra, naturezas mortas, classe executiva, coberturas, torneiras douradas, pisos de granito e cortesãs), fetiches que os levou a ignorar as fronteiras da compostura, e a estruturar hierarquias e sistematizar o esbulho; 

2) Se a inépcia dos populistas e a incapacidade aberrante de lidar com a coisa pública abriu brechas para que os arautos da "Realpolitik" forrassem as burras, certo é que sempre imperou no Brasil uma tolerância para com favorecimentos. Já ouvi de muita gente dita politizada que era ato de "burrice" proceder a contratações por mérito em detrimento dos critérios de alinhamento político e confiança. Expedientes que, se levados para a iniciativa privada, teriam jogado qualquer empresa na lona em dois tempos; 

3) Os benefícios da Lava Jato já se deixam perceber no interesse crescente que têm os investidores internacionais em, pela primeira vez em quatro anos, se debruçar sobre oportunidades no Brasil. Fazendo-o agora mais serenos quanto ao poder de veto de que gozavam os antigos players-donatários. Não foram poucas as vezes que vi no semblante de investidores de além-mar as reticências com que encaravam a mera possibilidade de ter que se compor com atores internos e suas regras nebulosas. É como se despertássemos de uma enorme alucinação coletiva;    

4) Se condutas como a de Sergio Machado são excrescentes (por induzir interlocutores a lhe dizer em telefones grampeados o que melhor lhe convinha para salvar a pele), ainda são tênues os indícios de que estejamos nos transformando num estado policial clássico. Bem ou mal, o primado do Direito permeia os procedimentos, ainda que por vias tortuosas; 

5) Por fim, a condução da vida econômica nacional tal como se dá nos dias de hoje, nos leva a crer que, independentemente das gotículas –  ou dos vagalhões – que respingarão sobre os núcleos partidários outrora aliados do tumor "trabalhador", deverá passar ao largo de quaisquer injunções de natureza criminal que venham a detonar lideranças estabelecidas. Bom, portanto, para o Brasil. 

Quanto ao encarceramento de Eduardo Cunha, fato mais gritante da semana que passou, não há como negar se tratar de um homem que procede do caldo de cultura dos que faziam política de olho nos negócios.  Se, paradoxalmente, lhe ficaremos estranhamente devedores pela condução impecável do afastamento de Dilma Vana – tarefa que não era para gente de nervos fracos e que, ao fazê-lo com rigor regimental, pode nos ter livrado da Venezuelização –, a celebração do rito não oblitera o fato de que se trata de um homem cuja inteligência foi tragada pela patranha do enriquecimento a qualquer custo, uma anomalia que cabe à psiquiatria tentar explicar. 

Quanto à tão sonhada mudança de paradigma na vida pública, pois bem, conheço alguns cientistas políticos e cidadãos clarividentes que acreditam numa renovação radical do Congresso em 2018, e em outra, quase transcendental, para 2022. Não sei mais em que acreditar nessa vertente, sinceramente. Acredito sim na força de articulação da sociedade civil e nunca nutri quaisquer simpatias por governos e governantes, pelo menos nos moldes que o Brasil nos ofereceu, com rara exceção. 

A única certeza que tenho é que tanto eu quanto muitos de meus contemporâneos de perfil voltado para o mundo largo, fizemos péssima aposta ao perseverar no engodo de ficar aqui por achar que, de alguma forma, éramos necessários para desatar os nós do país. 

Muitos de nós, e aqui me incluo, ignoraram excelentes oportunidades de viver na Europa, na Ásia ou mesmo nos Estados Unidos. Constato com amargura que penhoramos parte importante de nossa juventude e energia num cassino onde os dados eram viciados. Bem ou mal, o país seguirá seu curso. Nossas vidas, por outro lado, são datadas e excessivamente curtas para que possamos realizar sequer uma fração de nossos sonhos.  

A nosso modo, nós, os nascidos na fornada de 1955-1965, estamos cada vez mais com a feição de uma "geração perdida". Aqui e no mundo, visto o vetor conservador que se espraia. Em todos os cortes, contamos perdedores a mancheias. No Brasil, já nem se fala. Os vícios do patrimonialismo me fazem pensar que teria feito bom negócio se tivesse seguido meu coração, principal conselho que dou aos jovens que me procuram em aulas e seminários. 

Quem sabe o noticiário da semana traga algum alento? Mas será difícil.   


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