Personalidades políticas: Juppé e Serra

Ambos confiam no que fizeram e nenhum deles busca a simpatia demagógica e eleitoreira

Por Fernando Dourado Filho, de Paris

Alain Juppé, político francês

Devo admitir que poucas coisas são tão previsíveis quanto os programas de debate franceses. Sempre que chego ao país e sintonizo os principais canais, o que vejo é a recorrência de querelas sem fim sobre como neutralizar as ondas de terror; como integrar os menos favorecidos e, naturalmente, qual dos candidatos poderia levar a cabo essas políticas de maneira uniforme, sem resvalar para práticas sociais demagógicas nem tampouco negligenciar os grandes temas internos (Previdência) e externos (a formação do condomínio europeu depois da defecção do mordomo). 

Apesar de ser uma gente latina um tanto quanto à parte, é certo também que os franceses não diferem muito de catalães, italianos ou portugueses. Exaltam-se ao deslindar seus argumentos; viajam nas próprias palavras; cunham preciosismos dignos de Marina Silva e falam simultaneamente no afã de desmontar a lógica alheia. Em poucos lugares, na verdade, as regras do debate impõem tanta sobriedade quanto no Brasil. Foi o legado civilizatório dos contidos rapazes da família Marinho que, não querendo conspurcar a assepsia de sua grade de programação, houveram por bem criar regras de contenção, mediadas por jornalistas que, de tão bem treinados, esquecem o conteúdo em favor da forma. Mas essa é outra história.  

Pois bem, na sequência de mais um incidente envolvendo a tentativa de matar policiais no último fim de semana, eis que se abriu uma agenda efervescente que cobre todos os pontos críticos acima. Na proa dos eventos, é claro, os "presidenciáveis". Nesse contexto, se impõe discorrer "en passant" sobre a figura do bom caipira, o presidente François Hollande. Se a possibilidade de sua reeleição é praticamente nula, há de se reconhecer um elemento de bravura e altivez nesse homem bisonho e namorador que, alçado à Presidência, soube se portar com dignidade em eventos brutais da História moderna francesa, reiterando valores caros à República. E pouco mais do que isso.   

É, contudo, no campo da direita onde se alinham os chamados cavalos de chegada. Longe de personificar o que o populismo brasileiro considera desse bloco – gente raivosa, sedenta por dinheiro e que se sente desconfortável em dividir poltronas de avião com taxistas e vigias noturnos –, ser de direita aqui nada mais é do que querer menos Estado e tibieza. E mais eficiência com determinação. Ainda chegaremos a esse modelo e creio até que Dória, o novo prefeito de São Paulo, dará um alento do que vem a ser esse novo estado de espirito. O único perigo é que agrade demais e, na cola de sua mensagem "gerencial", terminemos por atrair uma chusma de embusteiros. Outra, melhor dizendo. Só que sem barba e mais afeita ao clareamento dental.  

Isso dito, repassemos rapidamente quem são os contendores com chances reais de galvanizar um eleitorado saturado de fórmulas que não fecham, em que todos os embustes possíveis foram tentados, desde Mitterrand, para que o sujeito ganhe sem trabalhar. Vou além: para que seus proventos sejam, na verdade, tão polpudos na labuta quanto se o indivíduo passasse o tempo a discutir dialética em torno de taças de Bourgogne, a soldo do sindicato. Nesse contexto, como não falar de Nicolas Sarkozy, o que já ocupou o Elysée e para lá pretende voltar? Pois bem, espero que não tenha muitas chances. Não que lhe falte experiência e inteligência, mas pelo fato de que lhe sobra soberba e vaidade oca. 

Sem ter os terríveis defeitos de Fernando Collor – a bazófia, o despreparo intelectual e o gosto desmedido pela frivolidade –, o marido de Carla Bruni é uma versão gaulesa do hoje senador brasileiro. Ora, um presidente francês não pode idolatrar o dinheiro como ele faz. Tampouco cultivar a companhia de gente que aduba o que por aqui se chama da cultura "bling-bling", ou seja, essa turma que frequenta restaurantes de três dígitos por cabeça no dia a dia e que tem um fraco por férias prolongadas ao lado de amigos sinistros. Presidência na França pede, antes de tudo, sobriedade e compostura. O resto, compete ao gabinete e ao primeiro-ministro. Não que ela seja decorativa, mas tem papel de regente. 

François Fillon, que veio à baila justamente no governo do ex-presidente Sarkozy, encarna sim uma certa noção de França profunda. Austero, católico, rural e incorruptível, seria o homem que personificaria as melhores virtudes do que ainda se chama por aqui de "Gaullismo", um termo tão ambíguo quanto pode ser "Peronismo" na Argentina. Ninguém sabe o que significa, mas todos sabem o que não quer dizer. Se são apenas moderadas as chances de Fillon, é ele quem desponta com um discurso mais virulento. Talvez por saber que seu perfil algo descafeinado precisa de uma ribalta de que os outros contendores, a essa altura, já podem prescindir. 

Por fim, há de se chamar a atenção para a figura de Alain Juppé (foto). Ex-tudo na França, é, antes de qualquer cargo, identificado como o prefeito de Bordeaux, cidade que forjou de forma modelar e à semelhança de seus anseios. Sóbrio e pouco dado a hipérboles ou transbordamentos, fala com um charmoso sotaque do sudoeste e é tão cioso de seu imenso cabedal político que não pestaneja diante das perguntas mais inusitadas, a todas respondendo com um sorriso discreto, algum humor, o que não raro atesta um conhecimento profundo de todos os pontos críticos que envolvem presidir um país dessa envergadura. 

Ouvir Alain Juppé evoca no coração brasileiro de meia-idade uma dor profunda. Homem providencial para reescrever a utopia francesa – parte central de sua narrativa – até fisicamente se assemelha a José Serra, o melhor candidato a presidente que já tivemos nas últimas décadas. Nenhum dos dois busca a simpatia demagógica e eleitoreira. Ambos confiam em seu taco e no que fizeram. Ambos deram contribuições colossais à vida pública e elevaram seus padrões. Mais do que Juppé, o conjunto da obra de Serra talvez só conheça precedentes na figura de Ted Kennedy – no âmbito legislativo. No executivo, poderia ter trazido o país em 12 anos aos níveis médios de uma Espanha. 

Ocorre que aí como aqui, temos sua excelência o eleitor. Que, ninguém se engane, começa a ver as coisas com clareza.     



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