Vencendo a procrastinação: como fazer o que tem de ser feito

Você tem uma ideia brilhante que simplesmente não consegue realizar? Phyllis Korrki diz que você não está sozinho

Por Universia Knowledge@Wharton*

Vencendo a procrastinação: como fazer o que tem de ser feito

Você tem uma ideia brilhante que está sempre adiando ou que simplesmente não consegue realizar? Ou talvez seja apenas uma pequena tarefa que você nunca consegue levar adiante? Phyllis Korrki diz que você não está sozinho. Repórter do New York Times, Phyllis trata do problema em seu livro “Um sonho: como completar seu projeto criativo mesmo que você seja preguiçoso, procrastine e duvide de si mesmo como eu” [The Big Thing: How to Complete Your Creative Project Even If You’re a Lazy, Self-Doubting Procrastinator Like Me]. A autora compartilhou o que aprendeu enquanto escrevia seu livro ? e jura que será preguiçosa pelo resto da vida ? na entrevista a seguir. 

Que coisas você aprendeu sobre si mesma enquanto escrevia o livro?
A ideia do livro me veio quando eu estava escrevendo uma coluna no New York Times sobre prazos. Eu disse na coluna, que também era uma espécie de metacoluna, que a única razão pela qual eu a terminaria é porque tinha um prazo. Eu era responsável pelos meus colegas de trabalho e colocaria em risco minha reputação se não a terminasse. Pensei comigo mesma: como passar a mesma percepção de urgência para os nossos projetos pessoais criativos para os quais não há ninguém cobrando um prazo de conclusão? É isso que exploro no livro.

Escrever esse livro mudou sua filosofia de trabalho?
Acho que ele fez com que soltasse um pouco mais a minha voz e a tornou mais pessoal. Creio que meu jeito de escrever ficou mais pessoal. Não sei se isso é bom ou mau, mas acho que esse foi o efeito que teve sobre mim.

Você afirma no livro que não é nenhum guru de autoajuda. O que você quer, então, que as pessoas levem do livro?
A razão pela qual não sou nenhum guru de autoajuda se explica pelo fato de que sofro como as outras pessoas sofrem e sinto que passei por uma porção de fracassos. Conforme costumo dizer logo de cara: sou muito preguiçosa. Existe por aí uma espécie de religião de autoajuda ou de material inspirador segundo o qual você tem de levantar cedo todos os dias, ter disciplina e trabalhar todos os dias sem falhar no seu projeto. Às vezes, digo a mim mesma: tenho de me levantar e fazer tal coisa; no entanto, acabo ficando um pouco mais debaixo das cobertas lendo algo junto com meu gato. Eu achava que por ser esse tipo de pessoa, não seria capaz de dar conta de um grande projeto. Acontece que não é verdade. A gente pode ser preguiçoso às vezes, pode não se levantar numa determinada manhã, ou duas manhãs. Contudo, se na terceira manhã você se levantar, e se você se levantar de verdade, o pouco que você já fez vai ganhando corpo e você acaba terminando o que tem para fazer.

Vi algumas vezes uma palavra ou frase no livro que me fez parar. Uma delas é a palavra amor. Muita coisa que as pessoas fazem com seu projeto acabe sendo um trabalho de amor.
Sim. Dedico um capítulo inteiro ao amor e ao trabalho. Freud teria dito que as coisas mais importantes da nossa vida, para que nos sintamos realizados, são o amor e o trabalho. Digo que eles são as duas estacas da nossa tenda psíquica. Contudo, é muito raro uma pessoa ter sucesso completo ou se realizar em ambas as áreas. Portanto, temos de colocar nossa energia psíquica em um ou outro. Nós nos referimos a um projeto apaixonante como um trabalho de amor. Falamos do nosso livro como se fosse nosso bebê. E é verdade.

Você escreve também que a pulsão é importante.
Exato. Uma coisa que considero importante para esse tipo de projeto é que ele deve ter motivação intrínseca. Faço uma distinção entre motivação extrínseca e intrínseca. Quando alguma coisa atende a uma profunda necessidade criativa, espiritual ou intelectual, e não é impulsionada pela necessidade de ser famoso, de enriquecer ou de ter uma porção de seguidores nas mídias sociais. Essa não deveria ser a razão principal da nossa motivação. Esse tipo de coisa não terá um bom desfecho.

Com que frequência você acha que aquela coisa importante com que alguém está lidando nada tem a ver com seu trabalho diário?
Não tenho percentuais para isso, mas falo no livro de pessoas que precisam ter um emprego que seja completamente diferente. Por exemplo, o compositor Phillip Glass, antes de trabalhar com música, foi motorista de táxi. Ele conseguiu trabalhar o suficiente em tempo parcial nessa profissão de modo que pudesse dedicar toda a sua energia mental à música. Conversei com outra pessoa que é zelador em tempo integral, e gosta da situação, pois o serviço não exige muito dele intelectualmente. Ele fundou um museu dedicado às obras do seu falecido pai. Acho que não importa quem você é ou a que classe social pertence, um certo segmento da população tem vontade de agir assim. Nem todo o mundo tem, mas tudo bem. No entanto, se você gosta do que faz, não importa qual seja sua renda ou que tipo de trabalho você faz.

Há certas partes que tornei a ler algumas vezes. Elas não são o que você consideraria o processo normal de pensamento na conclusão de um projeto, mas aí você fala um pouco sobre saúde, talvez levando em conta sua própria situação.
Acontece que fiquei muito ansiosa. Tive dores de estômago e nas costas. Corri para a minha médica e disse: “Por favor, me dê um pouco de Klonopin para eu relaxar.” Ela não deu. Ela disse: “Vicia”, então me vi obrigada a procurar respostas naturais para os meus problemas. Fiz aulas de respiração, acredite ou não. Paguei US$ 350 para ter uma aula de respiração. Ajudou bastante. O que ela me disse fez todo sentido porque eu respirava pouco profundamente. Eu estava respirando verticalmente, com a parte de cima do meu corpo, onde os pulmões mal alcançam. Isso limitava o fluxo do oxigênio para o meu cérebro, e nós precisamos de oxigênio no cérebro para raciocinar claramente e de forma criativa. Podemos aplicar isso ao trabalho quando estivermos muito estressados. Respire com a parte inferior do seu corpo, usando o diafragma, e respire horizontalmente, e não verticalmente.

O sono é uma coisa tão vital e muitos de nós hoje temos um ritmo de vida cada vez mais rápido que, às vezes, fica até difícil dormir o tanto que deveríamos. Não se dá muita importância ao fato de que é vital que o corpo se recupere.
Sim, tenho essa coisa meio zen no livro, “fazer é desfazer, e fazer não é fazer”. Parte do não fazer é o sono, porque ele rejuvenesce, recalibra, reconfigura tudo. É quase um clichê, mas todos sabemos que as melhores ideias nos vêm no chuveiro. Isso é porque tivemos a oportunidade de descansar, nossos neurônios e nosso cérebro tiveram a chance de fazer todo tipo de coisa em segundo plano que não temos sequer ideia do que seja, mas, de repente, vem à superfície e nos brinda com ideias novas e geniais.

A ideia de fazer um projeto, especialmente se esse projeto não está vinculado ao seu trabalho diário, requer equilíbrio. Gostaria de saber como isso é possível. Tenho certeza de que muita gente que você entrevistou falou a esse respeito também.
É verdade. Fizeram uma pesquisa sobre força de vontade. É claro que você precisa de fora de vontade para fazer seu trabalho e para trabalhar no seu projeto. A pesquisa mostrou que temos uma dose limitada de força de vontade e a usamos em várias tarefas que realizamos. O que eu percebi, e acho que todo o mundo precisa se dar conta disso se pretende conseguir um equilíbrio, é que se tivemos um dia muito ruim no trabalho e há muita coisa acontecendo, não esperemos conseguir também trabalhar no nosso projeto. Não se cobre por isso. Eu sou muito exigente comigo mesma, e pego pesado comigo se não chegar em casa e trabalhar no livro. Depois, penso que tive um dia difícil no trabalho e que preciso relaxar. Do outro lado do espectro, é preciso reconhecer que todos temos dias no trabalho que não são tão ruins. Talvez tenhamos feito alguma coisa mais leve que não exigiu tanto do nosso cérebro. Essa é a hora ideal para trabalhar no projeto.

Você falou também sobre a influência da doença em tudo isso. Alguns dos maiores pensadores e desenvolvedores tiveram de lidar com uma doença em algum ponto da vida ? se você fica doente, é compreensível que dê uma trégua.
Uma coisa engraçada que descobri é que a doença coloca limitações. Um tema sempre recorrente são as limitações. Por exemplo, conversei com uma mulher que havia quebrado o tornozelo e que não podia sair de casa. Ela traduziu as memórias de sua avó nesse tempo. Portanto, a doença pode fazer duas coisas: ela pode dar um sentido profundo à vida e pode ser uma maneira de transformar a dor em algo criativo e benéfico para outros. Pode também colocar uma limitação que lhe permitirá fazer alguma coisa.

Com todas as entrevistas que você fez, houve alguma que a surpreendeu pela maneira com que as pessoas lidam com o que consideram seu sonho?
Conversei com um médico da Clínica Mayo incrivelmente ocupado. Ele tem quatro empregos diferentes e também escreveu um romance. Ele escreve poesia e faz uma porção de coisas diferentes. Então descobri seu segredo, que eu revelo um pouco à frente no livro. Mas escrevi nos capítulos sobre o sono que ele dorme pouco. Há um percentual da população que precisa apenas de três a quatro horas de sono por noite. Não são uns felizardos? Acho que muitos CEOs atualmente são do tipo que dorme pouco. Isso é parte do seu segredo, por isso conseguem fazer muito mais coisas. Não é justo, mas assim é que é.

Você tem algo fascinante em vista?
Você está brincando? Pretendo ser preguiçosa o resto da minha vida. Vou descansar sobre os meus louros. Não, não é verdade! Em meu livro, menciono o Mês Nacional de Escrever um Romance. É um programa que existe faz já algum tempo, talvez uns 20 anos. As pessoas se reúnem no mundo todo e escrevem um romance em um mês. Se forem 50 mil palavras, que é a quantidade sugerida, então serão 1.577 palavras ao dia, o que é factível. É o que eu pretendo fazer em novembro.

Você tem alguma ideia sobre o que pretende escrever?
Não, nenhuma, mas não há problema. Vou simplesmente me sentar no dia 1º de novembro e ver o que acontece.

É interessante que você aceite o desafio de escrever um livro interagindo com um artigo que você havia escrito para o jornal.
Percebi que o artigo me levava a criar algum tipo de falsa prestação de contas. Porque embora eu tivesse um contrato para um livro, eu só deveria terminá-lo em um ano e alguns meses, e eu procrastinei. Tive de descobrir o que chamo de falsa prestação de contas, métodos que permitissem simular uma sensação de urgência na hora de fazer as coisas.

Mas você também menciona o fato de que a experiência se torna também parte importante do processo. É a vontade de desfrutar a experiência na medida em que você passa por ela.
Isso é muito importante. Às vezes, será desagradável, mas aí está o desafio. Na maior parte das vezes, é preciso gostar de fato só por causa da coisa em si. Conversei com uma pessoa que desejava inicialmente inventar seu próprio software, a exemplo do que fez o fundador do Napster. Ele saiu do emprego por causa disso. Ele se imaginou na capa da Fast Company, essa era sua grande fantasia. Depois, ele se deu conta do que se passou: “Meu Deus, odeio isso. Odeio fazer isso todas as manhãs. Odeio desde o momento em que me levanto”. Ele percebeu que gostaria de ser escritor, mas nem todo mundo faz sucesso como escritor. No entanto, ele continua a fazê-lo porque, na verdade, é isso, no fundo, o que ele gosta de fazer.

Muitas dessas coisas acabam sendo aquilo para o que a pessoa tem tempo, compreensão e de que gosta.
Sim, é um processo individual para todos. Talvez não seja a hora de você fazê-lo. Talvez não tenha a idade para isso. Sonhei em escrever um livro quando tinha 11 anos. Depois, nos meus 20 anos, continuei a pensar: “Eu deveria escrever um livro.” Mas o fato é que não tinha material algum, não tinha nenhuma ideia, e minha motivação não era a correta na época. Acho que queria ser famosa ou coisa parecida. Só quando fiz 50 anos achei que podia escrever um livro. Conversei com muita gente maravilhosa que me inspirou ? um homem da Jamaica que sempre quis gravar um disco de reggae. Ele disse que tinha saído do ventre de sua mãe cantando, mas foi para o serviço militar, teve uma porção de filhos e muitas outras responsabilidades. Por fim, se aposentou e foi para a Jamaica conhecer o velho estúdio de Bob Marley. Ele gravou seu disco no ano passado aos 65 anos. É inspirador saber que se pode fazer uma coisa dessas numa idade mais avançada da vida.

O possível sucesso depois de encerrar o projeto pode ser um dado negativo se essa for a única coisa em que as pessoas pensam.
Sim, é muito difícil atualmente para mim lidar com o aspecto da promoção, ficar pensado nas resenhas e no desempenho do livro, porque isso vai contra o motivo pelo qual eu o escrevi. É uma fase difícil para mim, embora seja ótimo fazer entrevistas como esta em que falo do conteúdo da obra.

Você está em uma indústria de forte pressão e está em uma transição interessante agora. Seu jornal está em transição. De que maneira o que você fez mudou ou não mudou seu jeito de pensar sobre sua carreira?
Essa é uma boa pergunta. Amo meu trabalho. Obviamente, o New York Times é uma instituição que tem de estar mais preocupada com o lucro do que eu com meu livro, e agradeço por ter um emprego em uma empresa onde posso me sustentar e me permite fazer uma coisa como a que eu fiz e que tem realmente tocado as pessoas. Contudo, seria bom em algum momento ir além disso, ser uma autora em tempo integral. Mas, por enquanto, é ótimo pertencer a esses dois mundos.

*Serviço gratuito disponibilizado pela Wharton, Escola de Administração da Universidade da Pensilvânia, e pela Universia, rede de universidades que tem o apoio do Banco Santander.  


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