Amor e desilusão

Só me restou torcer para que ele tenha superado nos últimos anos tamanha desdita

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo

Li semana passada a nota de falecimento de um antigo cliente a quem estive muito ligado durante anos. Embora praticamente não o tenha visto desde o começo da década, sempre associei a figura a um capítulo que afetou sua vida exuberante de forma brutal: o peso acachapante de uma desilusão amorosa e o impacto tremendo que ela exerceu sobre a motivação para a vida e, consequentemente, para o trabalho. Ora, um consultor tem de estar aberto como ninguém a essas injunções que, em outros tempos, eram atribuídas a caprichos e fragilidades da alma feminina. Pois bem, o que posso assegurar é que o caso em referência demonstrará todo o contrário e que homens não têm a blindagem que normalmente lhes atribuímos.  

Admitamos que ele se chamasse José. No vigor da meia-idade, tinha todas as condições no mundo para se sentir bem consigo próprio. Reconhecido como competente por seus pares, se notabilizava por exercer forte liderança no setor em que atuava. Criava produtos para seus muitos clientes com versatilidade invejável e muito cedo se consolidou como um paradigma a ser seguido pelos muitos liderados que atuavam sob seu comando. Dono de grande forma física, estava sempre participando de comitês internacionais nos quatro cantos da Terra, o que pretextava que nossos almoços se prolongassem tarde adentro, tamanho era o prazer que tínhamos em compartilhar experiências e visões. 

No âmbito familiar, se pode dizer que tudo seguia o mesmo diapasão de alegria e reconhecimento. Divorciado duas vezes, mantinha excelente relacionamento com as ex-esposas, com quem tivera quatro filhos. Galanteador e carismático, gostava de namorar e se dedicava com afinco à parceira da vez. No mais das vezes, encontrou companheiras cultas e agradáveis, quase sempre de sua idade, e era um prazer revê-lo nas salas de concerto já que a música clássica era outra de suas paixões incondicionais. Cheio de planos para o futuro, não chegava a ser um atleta, mas se cuidava bem. Segundo ele, "para merecer os copos de vinho", já que, além de tudo, era enólogo reconhecido. 

Por mais de uma vez, acompanhei-o a feiras setoriais ligadas ao interesse de seus clientes e viajar em sua companhia era uma aula magna. Fluente em inglês, foi a única pessoa que vi que conseguia arrancar de sisudos alemães um abraço apertado e animados tapinhas nas costas de circunspectos japoneses. Orador charmoso, conseguia arrancar boas gargalhadas da plateia ao abrir suas falas. Homem próximo a políticos, gostava de cultivá-los "por dever de ofício", mas evitava discutir a respeito com quem não fosse do ramo. Como se uma vida tão plena já não bastasse, foi estudar administração pública à noite para estruturar melhor sua compreensão do Brasil, país que o fascinava. 

Tudo ia muito bem até que reencontrou numa reunião uma antiga namorada de bancos de escola. Como ambos estavam em território neutro, saíram para jantar no dia seguinte e não tardou muito para que sentissem forte atração um pelo outro. Da parte dela, segundo me segredaria nos meses seguintes, havia impedimentos. Ou seja, ela ainda era casada. Como é comum ocorrer nessas ocasiões, o reencontro fez com que ela apressasse os trâmites de separação, o que fez com que ele começasse a se articular para viver com ela aqueles que poderiam ser os melhores anos da vida de ambos. Limitações superadas, se casaram e se presentearam com uma longa viagem à Sicília na primavera. 

Ao final do primeiro ano de casamento, lhe ocorreu que poderiam alugar uma casa confortável na praia para receber os amigos no auge do verão brasileiro. Seria também uma forma de integrar ambas as famílias, já que os dois filhos dela eram de idade compatível com os seus. Sem poder se afastar muito do trabalho, encarregou-a de escolher a casa e um corretor experiente na região a acompanharia para visitar algumas propriedades. Então, aconteceu o pequeno incidente que tanto mal lhe causaria. A esposa embarcou no veículo do agente mobiliário e percorreu duas ou três propriedades. Do meio para o fim da tarde, sofreram um grave acidente numa estrada onde colisões não são incomuns.  

Alertado pela secretária que recebera um telefonema do distrito policial, ele se deslocou de imediato até a cidade onde se registrou o sinistro. O corretor estava em estado grave e a esposa estava bem, e logo seria liberada pelo hospital com um colar ortopédico devido ao impacto do choque. O motorista do outro veículo falecera na hora. Na investigação de praxe levada a efeito, vazou a notícia que o delegado lhe deu com cautela, mas de forma inequívoca. O corretor tinha ingerido bebida alcoólica, conforme o exame de sangue demonstrara. Mais precisamente, bebera num motel da região onde dera entrada com sua esposa por volta da hora do almoço e onde permanecera até minutos antes do acidente.    

Aturdido, ele não queria acreditar no que ouvia. Como ela poderia ter feito uma barbaridade daquela ordem, apenas meses depois de terem passado uma lua de mel de sonho na Sicília? O que poderia levar uma mulher à beira da realização plena da vida a tudo sabotar por conta do prazer fugaz de traí-lo quando se preparavam para um verão radiante, o mais luminoso de suas vidas? Não tivesse havido acidente e óbito, é óbvio que ele jamais desconfiaria de tamanha perfídia. Deveria ficar grato ao destino por ter-lhe advertido em tempo sobre a natureza da pessoa a quem hipotecara sua felicidade? Ou, pelo contrário, deveria se sentir o mais miserável dos homens? O episódio o deixou visivelmente mortificado. 

No que pude acompanhar do caso, eles ainda foram a um terapeuta de casais. Em choque por ter sido desmascarada em conduta vil, ela ainda tentou lhe jurar por todos os santos que nada ocorrera de "grave" no motel. Não contente em lhe subestimar a inteligência aguda, ela ainda tentou se sair com a versão de que fora forçada pelo corretor a acompanhá-lo. É evidente que quando este se recuperou, talvez para desespero dela, essa versão foi prontamente negada. Enfim, o cristal trincara e todo o capital de amor foi pelo ralo num piscar de olhos. Poucas vezes vi um homem vergar perante o luto de forma tão inequívoca. Um amigo médico me falou na época que aquele choque era equivalente ao da perda de um ente querido. 

Ao ler a nota de falecimento no jornal, só me restou torcer para que ele tenha superado nos últimos anos tamanha desdita. E que, tendo falecido anda tão jovem, tenha tido a chance de reconstruir sua vida afetiva com uma mulher à sua altura. Em rápida troca de telefonema com conhecidos comuns, contudo, soube que esse episódio jamais o abandonou. Com o fracasso da terapia de casal, passou os últimos anos atormentado pela tragédia. Já não havia outro tema que detivesse tanto sua atenção quanto perguntar a si mesmo e aos mais próximos o porquê de conduta tão vil. Conheci outros casos similares ao longo da vivência corporativa. Nenhum, contudo, tão brutal. Descanse em paz, amigo. Tive muito prazer em conhecê-lo.


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