Domingos Montagner ou quando a vida imita a arte

Nunca escondi a admiração por aqueles seres iluminados pelo amor à arte que, nesse caso, o ator encarnava como poucos

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo

Dia desses escrevi aqui sobre as maravilhas do espaço cênico e da dramaturgia no desenvolvimento de habilidades de comunicação e liderança (relembre o post aqui). Quando o fiz, não por acaso, tinha em mente atores e atrizes de todos os naipes, consagrados ou não. Nesse contexto de conclusões nem sempre explícitas, me movia um carinho especial por aqueles que se notabilizam também por cantar, dançar e que, não raro, tiveram seus primórdios na versátil escola circense. 

O ator Domingos Montagner (foto), desaparecido na tarde desta quinta (15), era a referência mais imediata que me ocorria de artista completo. Tendo passado a infância de frente ao aterro onde se armavam os circos na cidade do Recife – e aqui falo do Tihany, Bartollo, Garcia e Orlando Orffei, para me ater só aos mais notórios –, nunca escondi a admiração por aqueles seres iluminados pela força física, disciplina férrea e amor à arte que, nesse caso, o ator da Globo encarnava como poucos. 

Espectador esporádico da última novela que o tem como protagonista, enredo que explora a pleno as inúmeras aptidões de uma vida transbordante de tônus cênico, talento e energia, cheguei ao computador nessa tarde e vi, consternado, que Domingos Montagner, a essa hora, está desaparecido no São Francisco. Se nunca consegui digerir os caprichos da fatalidade, hoje como ontem só me restará a perplexidade perante notícia tão brutal quanto descabida. Pobre Brasil. 

Caudatário das amizades que fiz ao longo do Velho Chico – de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, a Penedo, em Alagoas, colecionei caras recordações –, Domingos não foi o primeiro caso de que tenho notícia em que o rio urdiu sortilégios e tragou para o fundo alguns de seus filhos mais devotados.  O que é desconcertante é que a vida imite a arte de forma tão irônica posto que, recentemente, ele teria "desaparecido" na urdidura de uma das cenas mais dramáticas da novela da Globo. 

Da primeira vez, no plano artístico, Domingos voltou à tona são e salvo para os braços de Camila Pitanga. Dessa vez, apesar da bravura, do destemor, da força física e do estado de comunhão com o rio que, imagino, se tornou sua casa, a fatalidade parece ter engendrado uma armadilha traiçoeira e eis que o Brasil pode ser privado de uma de suas personalidades artísticas mais singulares. Ator de verdade e artista multifacetado, eis um espaço em que ele pontifica único e sem rivais. Não podia ser maior minha dor.

Assim como não pode ser maior a torcida para que, imitando a arte ou não, o destino o restitua tal como estava nesta manhã: pleno e feliz. Mas parece que será difícil.    


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