Estagiários engravatados

As tendências para o trabalho chocam-se com nossa mentalidade industrial

Por André D´Angelo

Os escritórios descolados das empresas de internet , que mais parecem playgrounds, devem soar  démodés nos próximos 30 anos – a julgar, ao menos, pelas projeções de estudiosos do mundo corporativo.  Com as ferramentas de comunicação facilitando o trabalho remoto, ir a um lugar físico para desenvolver qualquer atividade pode se tornar raridade, assim como vincular-se formalmente a organizações, formato a ser suplantado pelo engajamento em projetos temporários. 

Segundo os mesmos especialistas, as horas de labuta e de lazer ficarão menos nítidas, da mesma forma que o perfil profissional de cada um: a oportunidade de experimentar múltiplas atividades com as quais se tem afinidade tornará as carreiras menos lineares e mais sujeitas à duplicidade.  Tudo muito flexível, leve, fluido – #sóquenão. Falta o futuro combinar com a maioria de nós, que ainda vive no passado.

Combinar, sobretudo, com nossos cérebros moldados pela Revolução Industrial, aquela que instituiu a hora de entrar e de sair, o vínculo empregatício, o espírito de corpo e a identidade social vinculada à profissão. Empregos padrão CLT permitem uma previsibilidade ainda tida como necessária e fundamental por muita gente: sabe-se onde se vai estar em determinada hora do dia, de segunda a sexta, e fazendo o quê. E, principalmente, sabe-se quanto vai entrar na conta corrente todo dia cinco e tudo o que cobre o plano de saúde em caso de emergência. A ambiguidade e a incerteza da vida empreendedora ou do trabalho autônomo não são para todos, não ao menos para muitos daqueles nascidos e criados sob o velho regime. 

Nem para tantos que, aparentemente, deveriam ser os maiores entusiastas da nova ordem. Nos Estados Unidos, pátria da flexibilidade laboral, motoristas do Uber já começam a se organizar em grupos que mais parecem sindicatos. Sim, sindicatos, pois seus integrantes não se sentem freelancers conectados a uma plataforma digital na qual entram e saem quando bem entendem. Sentem-se funcionários do Uber e, como tais, dispostos a negociar melhorias nas condições de labuta e fazer reivindicações trabalhistas clássicas, como reembolso de despesas e critérios de desligamento transparentes. Também não enxergam outros motoristas do aplicativo como desconhecidos ou concorrentes, e sim como colegas aos quais devem se unir. 

Não bastasse isso, acostumamo-nos a nos definir em função de nossas profissões; dizer-se atuante em várias atividades, sugerem nossos preconceitos, sinaliza pouca dedicação a cada uma delas. Da mesma forma que não estar ancorado  em uma organização formal - o sobrenome corporativo conta bastante no jogo de identidade que construímos nos últimos 100 anos e contribui para nossas arraigadas noções de progresso na carreira, status e auto-estima.

No fim das contas, o melhor conselho nesses tempos de questionamentos sobre o futuro do trabalho é o de cultivar a capacidade de adaptação e de aprendizado. São elas melhores ferramentais profissionais com as quais podemos contar. 


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