Uns tão iguais aos outros

Nem sempre a concorrência resulta em diferenciais

Por André D´Angelo

À medida que um mercado se desenvolve, mais players ingressam nele e a busca de diferenciação torna-se uma constante, certo? Nem sempre. Muitas vezes, o resultado é justamente o oposto: uma redução do número de opções e o uso da imitação como forma de sobrevivência. 

No mercado norte-americano de companhias aéreas, parece que é isto que anda ocorrendo. Segundo matéria do The Wall Street Journal of Americas, United Airlines (foto), American Airlines e Delta Airlines se parecem em quase tudo: da cor do interior das aeronaves à disponibilização (e cobrança) por serviços adicionais, diz o Journal (leia matéria aqui).

Algumas dessas semelhanças são positivas para o consumidor, reconhece a publicação. A existência de wi-fi nos voos e tomadas ao lado dos assentos, para recarregar bateriais de smartphones, são exemplos típicos. Outras, no entanto, foram contrárias ao interesses dos clientes, como a cobrança por assentos mais espaçosos e por mudanças nas datas e horários de passagens.

No Brasil, o consumidor deve ter reparado que, entre as grandes varejistas de eletroeletrônicos, movimento semelhante se estabeleceu. Hoje em dia, é mais fácil encontrar em qualquer uma das grandes redes nacionais a linha completa de produtos de uma fabricante, do mais popular ao mais top. Ao mesmo tempo, os preços e as condições de pagamento se assemelharam fortemente.

Em comum a ambos os mercados, o processo de concentração empreendido na última década. As top 3 do transporte aéreo nos EUA são o resultado da fusão de seis companhias anos atrás. Por aqui, Ponto Frio e Casas Bahia têm um controlador em comum, enquanto Magazine Luiza adquiriu redes no Sul e Centro-Oeste. Mais para cima no mapa, Máquina de Vendas é a junção de uma rede forte no Sudeste e outra potente no Nordeste.

Além disso, em ambos a concorrência é feroz e as margens, apertadas. No transporte aéreo, perder dinheiro é a regra, não a exceção; qualquer possibilidade mínima de economia (ou de ganho) é examinada com presteza, uma vez que os detalhes, uma vez somados, podem ser decisivos na última linha do balancete. No varejo de eletrodomésticos, não raro vende-se um produto quase pelo preço de custo – o lucro vem do financiamento.

Nesses casos, reguladores vivem um conflito potencial: estimular a concentração ou evitá-la? No primeiro caso, podem garantir a viabilidade financeira de setores complicados e fundamentais, como o de transporte aéreo, e mesmo proporcionar preços menores pelos ganhos de escala. No segundo, preservam a variedade das opções de escolha do consumidor e, em tese, a disposição em correr riscos e diferenciar-se dos demais que marcam o empreendedorismo.

Não existe decisão fácil nesses casos. Evidente, apenas, é que  os mercados nem sempre se comportam como os livros preveem.


leia também

Momento McDonald´s - Aqui concorrência é tudo. Pulsante, cruel e incessante

Sul perde voo direto da American Airlines até Miami - Companhia justifica redução de custos para encerrar linhas

Uber, foie gras e resorts - Quando há muita gritaria, é sinal de que o argumento é fraco

comentarios


Seja o primeiro a comentar a notícia!



Comentar

Adicione um comentário: