Defasado, não. Vintage

Aparelhos eletrônicos ultrapassados viram objeto de culto

Por André D´Angelo

Um ou dois meses atrás, uma aluna me contou um episódio curioso. Em Tóquio, Japão, ela foi a uma imensa loja de eletrônicos em busca de um carregador para seu iPhone 4. O vendedor fez pouco caso do pedido: iPhone 4 era coisa do passado e não havia mais nenhum acessório para ele em estoque. Ela então consultou sobre o carregador para o iPad 2. A resposta foi o mesmo desdém. Até que ela, meio de brincadeira, meio a sério, consultou sobre um toca-fitas. Sim, aqueles players de fita K7 tão comuns nos anos 1980. Surpresa! Havia quatro peças em estoque. 

Qual a lógica de produtos relativamente recentes não terem seus periféricos à venda, mas velharias quase inúteis ainda constarem nos acervos das lojas? Aparentemente, eletrônicos têm passado por uma mudança de status que repete, em períodos mais curtos de tempo, aquela observada entre os automóveis ao longo das décadas, e que tem a forma de uma curva em “U”. Quando de seu lançamento, o equipamento tem sua atratividade e seu preço nas alturas; ambos vão caindo à medida que o tempo passa, até chegar ao fundo do poço, quando o produto parece irremediavelmente ultrapassado. A partir daí, tem início a fase de recuperação, quando colecionadores e saudosistas passam a cultuá-lo, fazendo seu preço aumentar. Ele muda de categoria: de eletrônico, passa a ser objeto-fetiche, item de colecionador; de velharia, torna-se cult, vintage.

 Foi o que aconteceu com o vinil e o K7, nos últimos anos. E é o que tem ocorrido com outros aparelhos, estes bem mais recentes, como o iPod, a primeira geração de iPhones e até os modestos celulares da Nokia, como o clássico 3210 (relembre). Estão à venda em sites de leilão on-line por preços que podem fazer valer a pena escarafunchar gavetas e armários em busca de algum modelo esquecido, como mostra esta reportagem

 A velocidade de renovação desses aparelhos tem sido tão rápida que o consumidor tem sentido saudades de coisas com as quais conviva até outro dia, e não apenas daquelas que ficaram em um tempo mais distante. Nossa época, ao que parece, tornou-se especialista em chamar de passado tudo o que supera uma década ou década e meia de lançamento, e a acelerar os sentimentos de saudosismo que costumavam demandar 30, 40 ou 50 nos para aparecer. Eis o paradoxo: somos tão avançados que, simultaneamente ao moderno, estamos produzindo o que logo trataremos como retrô.


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