Por um futuro promissor

Para Renato Meirelles, brasileiro intensificará procura pelo melhor preço para se adaptar ao ajuste econômico

Por Renato Meirelles*

Por um futuro promissor

O ano de 2015 traz preocupações – algumas delas, maiores que nos anos anteriores. Mas, para refletirmos sobre elas, convém recordar as transformações profundas pelas quais passamos recentemente. Nos últimos 14 anos, período em que estudo o mercado emergente brasileiro, tenho acompanhado de perto as intensas mudanças pelas quais o país passou. O aumento do emprego formal e a alta do salário mínimo acima da inflação fizeram com que milhões de brasileiros saíssem da pobreza e ascendessem a uma nova classe média. Com potencial de consumo mais alto do que o de países como Holanda e Suíça, essa parte da população movimentou R$ 1,2 trilhão no ano passado e se tornou protagonista da economia doméstica do Brasil.

A ascensão econômica dos últimos anos fez com que muitos percebessem que a vida poderia ficar melhor e mais confortável com a aquisição de bens e serviços, até então, considerados inalcançáveis. Exemplo disso são as viagens a lazer – só no ano passado, mais de 10 milhões de brasileiros embarcaram em um avião pela primeira vez. Vimos também o acesso à educação se tornar mais fácil. Temos, hoje, em muitos lares, a figura do primeiro universitário da família. Um filho muito mais escolarizado que os seus pais e que vê no estudo a oportunidade de conquistar um futuro mais promissor.

No Brasil, a expansão econômica ocorreu por meio da redução das desigualdades históricas. Quem sempre ganhou menos teve um crescimento de renda maior. A renda da mulher cresceu mais do que a do homem, a do pobre mais que a do rico e a do negro mais que a do branco. As mulheres, especialmente, têm contribuição fundamental nessas mudanças. O forte crescimento do emprego formal feminino colaborou de forma significativa para o aumento do consumo no país. Em 2014, o Brasil alcançou a menor taxa de desemprego dos últimos dez anos. Com mais salário e maior acesso ao crédito, o consumo se democratizou. Por meio de pesquisas realizadas pelo Data Popular, vimos que os brasileiros reconhecem que melhoraram de vida. Mas essa melhora está atribuída, fundamentalmente, ao próprio esforço, e não acompanha a percepção de melhora do país. Embora otimista em relação à própria vida no futuro, a maioria dos brasileiros tem a percepção de que o Brasil – como um todo – não está no rumo certo.

Economia e inflação, melhoria dos serviços públicos e controle da corrupção são temas centrais, tidos como prioridade para os brasileiros. Atualmente, constatamos em nossas pesquisas que as expectativas, tanto dos empresários quanto dos consumidores, deterioraram-se em comparação às do início do ano passado. Vemos, ainda, um consumidor muito preocupado com o aumento dos preços, enfrentando mais dificuldades para pagar as contas. Nesse cenário desafiador, a tendência é o consumidor levar o ano de maneira contida e, no decorrer dos meses, ir ganhando mais fôlego. Não acredito em retração do consumo. A nova classe média conquistou a ascensão econômica, experimentou marcas de qualidade e não vai deixar de consumir em momentos de crise. Vai é intensificar a procura por descontos e pelo melhor custo-benefício. Por outro lado, vejo o brasileiro mais consciente dos seus direitos, posicionando-se como um consumidor que preza por serviços públicos e privados de qualidade. Vamos viver um período de ajustes. Mas, como todo ajuste – quando bem executado –, este também poderá trazer benefícios para o futuro do país.

*Presidente do instituto de pesquisa Data Popular


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