Desemprego, desespero e desesperança

Médico, alfaiate, engenheiro e cozinheiro sofrem em igual medida o impacto brutal dessa quadra

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo

Acho que foi no começo dos anos 1970, quando vivíamos o que então se chamava "Brasil Grande" ou "País do Milagre", que meu pai ficou desempregado. Eu devia ter 13 anos e meu irmão uns 10. Com voz de quem segreda algo muito grave, mamãe nos chamou a um canto e disse que doravante tínhamos que nos mostrar solidários, tolerantes e econômicos. Não sabíamos quanto tempo duraria a tempestade, mas o certo é que convinha manter as luzes apagadas, não nos queixarmos da comida e entender que se impunha dispensar empregadas domésticas porque papai recém fizera 40 anos e, nessa faixa, uma recolocação seria muito difícil. Assim sendo, na hora de nos despedirmos à noite para dormir, íamos até a sala de estar e só lhe adivinhávamos a presença pela brasa do cigarro. Se o telefone tocasse, não podíamos nos precipitar para atender. Convinha deixar que ele mesmo o fizesse. Ou mamãe. 

Foi assim que se estabeleceu pouco a pouco nova rotina doméstica. Minha mãe passou a fazer o que até hoje mais detesta que é acordar cedo. Com o tempo, passou a se queixar que as mãos estavam ásperas por conta do detergente com que lavava pratos. Por precaução, escondeu o revólver de meu pai e eu economizei o dinheiro do lanche da escola para comprar um pequeno tabuleiro de xadrez onde passamos a jogar pela manhã. À tarde, quando eu estava na escola, um primo que morava apenas uns andares abaixo, subia para lhe fazer companhia. Deprimido, meu pai parecia divagar em pensamentos inescrutáveis. Mamãe dizia que a demissão se devera a uma discussão que tivera com um diretor da montadora que fora visitar o escritório regional do Recife. Ao que tudo indicava, papai havia sido soberbo, sei lá. Já tinha acionado contatos influentes, mas o novo emprego tardava para chegar. 

Ora, estar desempregado naquela época era um pouco diferente do que é hoje. Em um período em que vivíamos o pleno emprego, os sem trabalho se enquadravam basicamente em duas categorias. Ou bem eram pessoas de grande brilho que tinham sido alijadas de cátedras universitárias por conta das perseguições do regime militar – e tínhamos alguns casos assim em nosso ciclo de amigos – ou se tratava de pessoas com notória dificuldade de ajuste comportamental a um meio. Ou seja, a culpa não era atribuída neste caso ao sistema, senão ao indivíduo. Era nessa vala que parecia se enquadrar meu pai. Nas horas em que ele resolvia conversar conosco, era comum que fizesse uma longa prédica em favor da educação e que nos chamasse a atenção para a importância de ler. Ler tudo o que nos caísse nas mãos. Apesar de morarmos num endereço privilegiado e eclético, vez por outra ele bradava contra os ricos.

Um belo dia, tudo isso ficou para trás. O telefone tocou, papai voltou de uma conversa perfumado e animadíssimo, tomou um uísque nacional antes do almoço e, como era de sua natureza, esboçou grandes planos para o período que se iniciava. Minha mãe nos contou que precisaríamos de um tempo para pagar as dívidas contraídas no período das vacas magras, mas que tudo tendia a voltar ao normal. Disse que jamais duvidara da capacidade de papai e deu a entender que não via a hora de voltar a dormir até tarde. Quanto a mim e meu irmão, tínhamos nos mantido em boas escolas e nada de fundamental nos faltara. Papai parecia ter se aproximado um pouco de nós, duas crianças fundamentalmente desinteressantes, e aquele período não nos ficou como tão tétrico quanto foi para mamãe. Certo é que até hoje ela fala desses dias como se tivessem sido os piores de sua profícua vida. Para nós, nem tanto.

Vendo as coisas em retrospectiva, não há dúvida de que a chaga que ficara aberta era a moral. Desemprego era uma pecha, uma vergonha, uma exclusão. Desde então, ele parece ter se tornado mais estrutural, o que lhe desbastou o caráter pessoal e intransferível. Mesmo assim, o dano que traz à autoestima das pessoas é brutal. Deixar de exercer seu ofício, seja ele qual for, mutila o cidadão e lhe subtrai a identidade. Pescador, médico, alfaiate, engenheiro, designer gráfico e cozinheiro sofrem em igual medida o impacto brutal dessa quadra. Ademais, não são poucas as pessoas que precisam desesperadamente sentir que pertencem a um determinado grupo. Simplesmente não veem sentido em voar solo e elas próprias estruturarem suas tarefas, metas e objetivos. Produzir riqueza requer um conjunto de habilidades intrincadas e que não resultam sempre combináveis para a maioria das pessoas. 

Daí o mistério de empreender. São milhares, senão milhões, os que preferem a segurança às incertezas da gestão numa conjuntura eivada de incertezas. Tantos anos passados depois da queda do Muro de Berlim, são muitos os cidadãos dos países da antiga órbita soviética que se ressentem dos humores de um regime excludente e cruel, apesar de eivado de atrativos para uns poucos. O desemprego engendra problemas sérios nessa parte do mundo e o alcoolismo não é o menor deles. Quanto ao Brasil, vejo com perplexidade o estrago devastador que ele começa a trazer a alguns segmentos. Embalados pela perspectiva de reverter os danos causados pelo populismo irresponsável, seria bom que isso se verificasse antes que os danos se agravem. De onde menos se espera, espoucam focos de angústia e desesperança, o que só agrava o "Brain Drain" – a evasão de cérebros rumo a países mais legíveis.      

De minha parte, cumpri minha trajetória de executivo de grandes empresas muito mais por desencargo de consciência do que por aspiração verdadeira. Durante os anos em que estive à frente de áreas de exportação, trabalhei com amor e dedicação. Nunca soube o que foi pedir um aumento e as coisas iam acontecendo naturalmente. Cumprida essa etapa, passei a sonhar com a incerteza. Longe de me angustiar, ela se revelou estimulante. Talvez por não ter dependentes, as oscilações da vida financeira jamais comprometeram uma noite de sono, mesmo quando os sinais de alerta começavam a piscar. Mas nunca esquecerei aqueles dias da infância em que meu pai ficou enfurecido com mamãe ao perceber que ela escondera seu revólver calibre 38. Que história era aquela? Acaso não confiava nele? Desde então, tenho enraizada solidariedade para com os desempregados embora nem sempre consiga entendê-los.                


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