Além do horizonte

Por que o avanço tecnológico é perseguido, mesmo quando parece pouco útil

Por André D´Angelo

Em tempos de promessas tecnológicas grandiosas, como internet das coisas, analytics e carros autodirigidos, a antropóloga Amber Case pode ser vista como uma espécie de grilo falante do universo nerd. Segundo cobertura de palestra proferida por ela durante o Festival de Publicidade de Cannes, no último mês de junho, “muitos dos novos aparelhos que estão sendo desenvolvidos não levam em conta que o usuário está farto de ser interrompido”. Por isso, “a quantidade ideal de tecnologia na vida de uma pessoa é a mínima necessária”. Para exemplificar, referindo-se à internet das coisas, ela lembra que “a proposta de conectar os aparelhos mais mundanos da vida diária pode não decolar”, pois “o ser humano sabe quando uma banana está estragada e não precisa que a tecnologia faça isso por ele” (leia mais aqui). 

 Em tese, concordo com a antropóloga. Algumas promessas tecnológicas soam mais como excessos do que utilidades, mesmo. No entanto, do ponto de vista da concorrência empresarial, incorporar novos recursos pode ser fundamental, mesmo quando sua utilidade imediata soe mais como um capricho tolo. O motivo dessa imposição reside nos chamados “pontos cegos”.

 Pontos cegos são aqueles usos que uma tecnologia pode vir a oferecer e que, quando de sua criação, são ignorados – e que tendem a ser maiores quanto mais radical for uma inovação. Afinal, quanto mais nova é uma tecnologia, menos referenciais existem de suas potenciais utilidades. Engenheiros desenvolvem algo com uma finalidade e acabam cegos para uma série de outras tantas, que os usuários tratam de descobrir e implementar.

 As redes sociais são um exemplo disso. Nascidas para conectar amigos e expor preferências pessoais, tornaram-se o meio principal de comunicação de boa parte da humanidade, um espaço virtual pelo qual passa a mídia tradicional, eventos de todos os portes e a repercussão de assuntos polêmicos. As câmeras fotográficas dos celulares também constituem um caso de ponto cego: projetista nenhum imaginou o famigerado selfie, que se tornou um fenômeno comportamental contemporâneo. 

 Pontos cegos podem ser negativos? Podem. E o spam é um exemplo disso. Conectar as pessoas via mensagens de computador era a intenção do e-mail, jamais a de permitir a intermitente propaganda em massa.

 Por isso, a despeito do alerta de Amber Case, não vejo muita alternativa para a indústria a não ser seguir o passo da evolução tecnológica, esperando que, uma vez colocada no mercado, as inovações recebam dos consumidores usos antes impensados. Pode ser, de fato, que ninguém precise ser avisado do mau estado de uma fruta. Mas vá lá saber o que se poderá descobrir de útil no momento em que tivermos uma geladeira que “conversa” conosco.


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