Reflexões sobre a crescente instabilidade do sistema global

Mauro Guillén revela as causas das crises econômicas no mundo

Por Universia Knowledge@Wharton*

Há mais crises hoje do que em décadas passadas – seja no campo econômico, político ou social. É como se as fraturas dos sistemas mundiais estivessem só piorando. À medida que elas se multiplicam, duas perguntas parecem fundamentais: o sistema global será capaz de resistir e de atenuar o impacto dessas crises? E por que tudo isso está acontecendo agora? Mauro Guillén (foto), professor da Wharton, responde a essas duas perguntas e a muitas outras em “A arquitetura do colapso: o sistema global no século 21”, seu novo livro. Guillén, que é também diretor do Instituto Lauder da Wharton, responde na entrevista a seguir o que está causando o surgimento de problemas complexos, e o que, na verdade, pode ser feito para melhorar a situação.

Até que ponto o sistema global é forte ou fraco atualmente?
Com relação à estrutura da economia global, há muita pressão atualmente. Um sintoma muito claro disso é que desde 1982 ou 1983, durante 25 anos aproximadamente, tivemos várias outras crises ? bancárias, cambiais, da dívida ? em diversas partes do mundo, mais do que nas décadas anteriores. Já nos habituamos a ler nos jornais sobre uma nova crise praticamente a cada duas semanas. É uma mudança e tanto em relação ao que acontecia em outras décadas, o que resulta em um stress muito grande em se tratando dos índices que tanto prezamos e que são essenciais para que as coisas aconteçam na economia global.

Qual foi o ponto de inflexão que nos levou ao quadro atual?
A década de 1970 nos deu a resposta para isso, portanto vou me deter mais aqui no que aconteceu depois desse período. Os anos 1970 foram basicamente de convulsões no mundo ocasionadas pelas crises do petróleo de 1973 e 1979, além do fim do sistema mundial criado pelo Reino Unido, isto é, daquela arquitetura financeira que emergiu depois da Segunda Guerra Mundial e, de modo especial, da decisão de 1971 do presidente Nixon de dar fim à conversibilidade do dólar em ouro. Daí por diante, o que temos são moedas flutuantes e muita volatilidade nos mercados. A situação piorou ainda mais, creio eu, nas décadas de 1980 e 1990, pois introduzimos uma série de outras políticas no mundo todo, especialmente associadas à liberalização dos influxos de capitais de um modo que não foi construtivo.

No livro, você usa o termo “complexidade”. Quando se pensa sobre o que está acontecendo atualmente na Europa, na zona do euro, com tanta gente tomando decisões movidas por tantas filosofias diferentes, era de se imaginar que só podia mesmo ser uma coisa complexa. Contudo, essas pessoas conseguiram administrar a situação nos últimos 30 anos e fazê-la funcionar. Por que chegamos a essa ponto de inflexão? Onde foi que a “complexidade” apareceu de novo?
Vejo a complexidade como alguma coisa que não é necessariamente ruim, no sentido de que tudo no mundo se tornou mais complexo. Temos mais países no mundo hoje do que antes ? cerca de 200. Temos mais relações entre eles. Algumas dessas relações giram em torno do comércio ou da atividade de empresas multinacionais que investem em vários mercados ? todos esses elos, na verdade, funcionam como um sistema de segurança ou como amortecedores. Temos mais recursos para lidar com os transtornos, choques ou com uma pequena crise em uma parte do sistema global, de modo que ela não se irradie por todos os lados. Para mim, o problema está num conceito relacionado, que é o de acoplamento. Em outras palavras, até que ponto os diferentes componentes do sistema global e da economia global estão de tal modo unidos uns aos outros com pouco espaço para erro? Se houver um distúrbio em algum lugar e as partes estiverem todas firmemente acopladas, esse choque reverbera por todo o sistema e se espalha de forma extremamente rápida.

Recentemente, o FMI finalmente reconheceu isso.
Exato. E há três coisas principais por trás dessa atitude. Uma delas é o crescimento substancial do portfólio de investimentos, com fluxos de capital de curto prazo, por exemplo. Em seguida, temos o crescimento dos bancos internacionais. Por fim, há o enorme crescimento do mercado de câmbio que criou a seguinte situação: sempre que há um desvio da situação normal dos mercados em alguma parte do mundo, ele rapidamente se espalha por todo o sistema. Um artigo publicado por três economistas do FMI no início de junho ganhou as manchetes do mundo porque foi a primeira vez que o Fundo reconheceu que a liberalização de fluxos de capital a curto prazo que a instituição havia imposto aos países durante as décadas de 1980 e 1990 havia aumentado a probabilidade de crises. Os autores apresentaram algumas estimativas segundo as quais a possibilidade de uma crise atualmente ? sobretudo nos mercados emergentes ? é três vezes maior nas situações em que há níveis muito elevados de influxos de capital a curto prazo. Foi a primeira vez que o FMI reconheceu isso, e é notável que tenha levado 20 anos para que a comunidade financeira mundial compreendesse que alguns dos passos tomados para a liberalização nos anos 1980 e 1990 resultaram no efeito oposto. O objetivo era que fossem reformas que estabilizassem a situação, que ajudassem a alocar o capital de forma mais eficiente no mundo. O que estamos vendo é que os efeitos foram, na maior parte das vezes, bastante negativos.

Você fala também do impacto do investimento externo direto sobre a complexidade, não?
Sem dúvida. O investimento externo direto, diferentemente dos investimentos de portfólio, ocorre quando as empresas montam uma fábrica em um país estrangeiro. Ou fazem uma aquisição. Elas o fazem não como investimento; mas porque querem fazer negócios naquela parte do mundo. Sob vários aspectos diferentes, isso é algo que, creio firmemente, contribuiu nas últimas décadas para a estabilização do sistema global. Um exemplo bem simples: vamos analisar uma empresa japonesa, nos anos 1960, que estivesse produzindo no Japão e que estivesse exportando para o mundo todo. Essa companhia, e a própria economia japonesa como consequência disso, estava mais exposta a choques. Vamos imaginar que ela estava mais sensível a coisas que afetavam a taxa de câmbio porque produzia em um lugar apenas e vendia para o mundo todo. Vamos pegar agora a mesma empresa 20 ou 30 anos depois ? como a Toyota, Hitachi ou Sony ? uma empresa que tem atualmente fábricas em 50 países diferentes do mundo. Essa rede de produção que elas construíram através de investimentos externos diretos as capacita a lidar muito melhor com transtornos e choques em diferentes partes do planeta. Elas não estão muito expostas. De certo modo, elas se acham naturalmente protegidas contra distúrbios porque têm uma rede estrutural de fábricas no mundo todo. Portanto, eu, pessoalmente, considero o investimento externo direto, diferentemente do investimento de portfólio, um fator de estabilização, como algo que contribui, através da complexidade, para a estabilidade da economia global.

Nesse sentido, a possibilidade que têm as empresas de ter várias unidades pelo mundo produz um resultado oposto ao do acoplamento.
Exatamente. E elas podem colocar em prática suas opções. Podem reorganizar suas operações em resposta a mudanças abruptas e imprevistas de cenário. Contudo, outra coisa que é importante ter em mente é que ao mesmo tempo que observamos a proliferação de crises no mundo todo, estamos vendo também um enfraquecimento do Estado, dos governos. A iniciativa pública, em outras palavras, dispõe de menos ferramentas. Observamos isso, por exemplo, quando os governos se veem impossibilitados, em grande medida, de recorrer à política fiscal, já que estão endividados até o pescoço. Só lhes resta a política monetária. Vemos isso acontecer em muitas outras áreas. É o que acontece no mundo em desenvolvimento com os Estados falidos. Temos cerca de 50 países no mundo na categoria de Estados falidos. Um caso extremo, é claro, é o da Líbia atualmente. Ou o Afeganistão. Contudo, há muitos outros com graus variados de falência e que, por isso, têm grande dificuldade em lidar com os choques quando eles acontecem. Ou seja, temos observado uma deterioração nas estruturas dos Estados no mundo todo. Há algumas outras coisas que vêm tornando a situação realmente difícil. Uma delas é o aumento da desigualdade de renda e de riqueza, já que isso representa uma pressão muito grande sobre o sistema político. Causa atritos. Aumenta os riscos sempre que há uma eleição. Vimos isso acontecer em países ricos da Europa e nos EUA. Essa divisão da desigualdade está reformulando o cenário político. Vemos isso também nos mercados emergentes, onde a desigualdade vem crescendo rapidamente. Todas essas mudanças conspiram para produzir uma situação em que as crises não apenas aumentam, como também há menos ferramentas para lidar com elas quando surgem.

Você menciona no livro o relacionamento entre os EUA e a China, um assunto que vem ocupando muito o noticiário atualmente. Qual a sua principal preocupação, primeiramente com a China e, em segundo lugar, com o relacionamento entre EUA e China?
É um relacionamento que me preocupa muito. Ele é, de longe, o relacionamento bilateral mais importante da economia global. São duas economias que evoluíram de maneiras muito significativas nos últimos 30 anos. A China era uma presença sem importância, agora é uma potência mundial, financeiramente e economicamente, e também no plano comercial. Os EUA são uma sociedade impulsionada pela tecnologia e pela economia, o que não era verdade 30 anos atrás. Minha preocupação é que os termos desse relacionamento, a forma como ele está estruturado, não tenha evoluído. Ainda estamos sob o antigo sistema em que os EUA são o consumidor de última instância e a China a fornecedora dos fundos para todo o nosso consumo. A China tem um excesso de economias, os EUA têm um excesso de consumo, e o relacionamento entre ambos é todo ele direcionado por essas duas suposições. Há um limite, que não se sabe qual é, para a duração desse relacionamento. Bem, é claro que essas economias são muito importantes, essenciais ao mundo. Parte do problema é que a China ? que enfrenta hoje algumas dificuldades domésticas em sua economia ? ainda está muito longe do momento em que desempenhará um papel mais importante e construtivo globalmente, em parte porque não dispõe dos mecanismos para isso à sua disposição. O país não tem uma moeda em que as pessoas confiem. Não tem as instituições com que as pessoas possam se relacionar. Portanto, temos uma economia fabulosa, quase tão grande quanto a dos EUA, e que vem se firmando cada vez mais, especialmente em sua região, política e militarmente e assim por diante. Contudo, não temos bons canais estabelecidos para consolidá-la. A China se tornou atualmente a maior potência comercial do mundo. Está perto de se tornar também a maior economia, mas não dispõe das estruturas que permitam ao mundo aceitá-la como uma grande potência capaz de tomar decisões juntamente com a Europa, EUA, Índia etc.

Qual a sua expectativa em relação ao sistema global nos próximos 20 anos?
Tudo depende de uma série de fatores. Quando pensamos em cinco ou dez anos no futuro, muita gente acha que será impactada. Se dissermos 20 anos, alguns dirão: “Tudo bem, outra pessoa vai ter de lidar com isso.” Há riscos específicos aqui no sentido de que podemos entrar em outra série de crises. Esse é um risco específico que temos diante de nós. O outro, porém, é apenas o caos. Nós nos tornamos muito indiferentes ao fato de que há um crescimento muito lento em várias partes da economia global; ou que o índice de desemprego é elevado, o que, a propósito, é o que vem acontecendo não apenas na Europa. Está acontecendo também em alguns mercados emergentes, ou nos mercados que ficam na base da pirâmide, onde há muita gente jovem desempregada. Existe a impressão de que será difícil introduzir um elemento de dinamismo. Nossa única esperança é que nem todas as economias sejam apanhadas ao mesmo tempo nesse tipo de situação. Atualmente, a Índia está indo muito bem, e alguns países na África subsaariana continuam a apresentar uma situação relativamente próspera ? por exemplo, a Etiópia. O problema é que se as coisas nas economias mais interconectadas com o restante do mundo, como a europeia, a americana e a chinesa, não estiverem realmente muito bem, os efeitos benéficos dessa união não se espalharão rapidamente. Como a economia indiana não está voltada para a exportação, sua contribuição para o comércio mundial é modesta. Portanto, não ajuda muito o resto do mundo.

Ou seja, esses mesmos países continuarão tendo impacto sobre os outros no futuro. 
Exato. É por isso que, na minha opinião, devemos continuar a prestar muita atenção ao que se passa na China, Europa e EUA, pois essas são, de longe, as três regiões do mundo com maior impacto sobre a economia global ? em termos de comércio, investimentos, mercados financeiros, tudo. A falta de dinamismo é basicamente sinal de que há problema nesse mundo interconectado. Isto porque a tentação é raciocinar da seguinte forma: “É um mundo interconectado, não estou me saindo bem, deixem-me desconectar-me.” Foi o que aconteceu nos anos 1930, quando isso se deu sob a forma de protecionismo. Hoje, temos tratados internacionais que impedem os países de práticas protecionistas no velho estilo, isto é, por meio da criação de tarifas e de restrições. Contudo, há outras maneiras pelas quais é possível fazê-lo. E, infelizmente, nos últimos 6 ou 7 anos, vimos muitos países do mundo pondo em prática outro tipo de protecionismo igualmente danoso: o da manipulação cambial. Muitas manchetes dos jornais chamam nossa atenção para o fato de que países tão improváveis como o Japão, China, Suíça e os EUA manipularam em vários momentos suas moedas desde a crise de 2008. Isso é muito perigoso.

*Serviço gratuito disponibilizado pela Wharton, Escola de Administração da Universidade da Pensilvânia, e pela Universia, rede de universidades que tem o apoio do Banco Santander.  


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