Fórum Mundial da Paz chega ao Brasil pelo Sul

Evento é liderado pela colunista de AMANHÃ Dulce Magalhães

Da Redação

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A filósofa Dulce Magalhães, que assina a seção “Carta de Floripa” em AMANHÃ, está vivendo dias particularmente atribulados. Integrante do comitê de 80 lideranças da Paz, coordenado pelo ex-presidente americano Bill Clinton com o objetivo de elaborar um Programa Global de Cultura de Paz, e apontada como uma das cem lideranças da Paz no Mundo pela Geneve Peace Foundation, Dulce tem a missão de liderar a 10ª edição do Fórum Mundial da Paz, que pela primeira vez será realizado nas Américas, entre os dias 22 e 25 de setembro, com sede em Florianópolis.

Antes disso, Dulce, que também milita pela causa em palestras e workshops, estará em Porto Alegre para ministrar o curso Formação em Coaching Maiêutica na sede da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs) a partir desta sexta-feira (22), em uma programação que se estende até domingo (24). 

Em entrevista a AMANHÃ, Dulce revela alguns dos caminhos possíveis para a paz e antecipa uma proposta efetiva que será apresentada às Nações Unidas, ao final do Fórum Mundial da Paz, em setembro.

Qual é a importância do Fórum Mundial da Paz?
Para conspirarmos uma nova realidade é preciso conhecer as pessoas, os saberes e as tecnologias para a construção de uma nova cultura. Por isso, um fórum da paz é tão importante, pois é uma plataforma que permite o encontro, a partilha e a transferência de conhecimento e soluções para uma convivência pacífica e justa e igualitária.

Por que o Brasil e Florianópolis foram escolhidos?
A Schengen Peace Foundantion, que é a entidade promotora do fórum, entendeu a necessidade de trazer esta plataforma para a América do Sul como uma maneira de aproximar os agentes da paz da região do grande contexto internacional e Florianópolis foi escolhida pelas atividades da UNIPAZ - Universidade Internacional da Paz, que tem uma das suas unidades na ilha e já trabalha ativamente num cenário global.

O Fórum nasceu em Schengen, onde também começou o tratado da União Europeia, mas a votação do Brexit no Reino Unido e os movimentos de intolerância e rejeição a refugiados se opõem aos princípios originais de união. Como é possível analisar esse cenário diante de uma proposta de paz?
Esse cenário apenas reforça a relevância e urgência de uma plataforma de encontro para trazer à pauta o tema da paz. Unidade é um dos princípios mais caros e um mundo sem fronteiras é o objetivo máximo desse movimento.

Como construir uma cultura de paz em tempos de acirramento de violência, terrorismo, pedidos de liberação de armas, preconceito?
Estamos vendo uma verdadeira crise das desigualdades, inimizades e dificuldades por que passa a humanidade há tantas eras. A guerra, o terrorismo e a violência não são novidades, mas pela primeira vez há um movimento organizado, global, multi-cultural e com tecnologia de comunicação acessível para propor uma nova forma de convivência. A grande novidade é o movimento de Paz.

O Brasil vive um cenário político e econômico conturbado. É possível superar uma cultura de corrupção que perpassa todos os níveis? Como a educação para a paz pode ser inserida nesse contexto? 
Esse é o contexto que permite que os argumentos de uma cultura de integridade, cooperação, solidariedade e unidade seja possível. Se não houver crise as pessoas ficam pouco propensas à mudança. De fato, nós mudamos mais por necessidade do que por consciência e a vida se encarrega de oferecer os meios para que a humanidade siga em progresso.

Qual deve ser o impacto econômico e social do Fórum Mundial da Paz em Florianópolis, na região Sul e em todo o país?
Como ação social, estamos mobilizando as escolas, os centros culturais, os artistas, as instituições públicas e toda a comunidade ligada à cultura de paz para pensar o tema, rever desafios, encontrar soluções e conhecer o que já existe no mundo. Como impacto econômico vemos um cenário de longo prazo, imediatamente teremos a presença de cerca de 2 mil pessoas de 60 países que vão fomentar cerca de R$ 6 milhões em passagens aéreas, hotéis, alimentação, consumo, etc. Porém, o mais significativo é levar o nome de Florianópolis como uma cidade de paz para o mundo e aumentar o fluxo de turismo, vocação natural da ilha, de uma forma positiva e altamente produtiva para a própria cidade e para o turista que atrairá.

As questões culturais e peculiares de povos diferentes são sempre lembradas como barreiras de integração ou relacionamento. Elas são mesmo fatores influenciadores negativos da efetivação de educação pela paz? A educação pela paz consegue transpor barreiras? Como?
Nossas diferenças não nos afastam, ao contrário, é isso que nos atrai e nos une, é por isso que há um fluxo tão grande de turismo no mundo, para conhecer o diferente, a outra cultura, a outra forma de sociedade. O que nos afasta é a intolerância, o preconceito e o medo, que são filhos diretos da ignorância. Quem viaja pelo Oriente Médio não terá medo de muçulmanos, pois os verá como pessoas sorridentes, gentis e amorosas, profundamente pacíficas, assim como alguém do extremo oriente poderá se encantar com a cultura, a alegria e a acessibilidade de um brasileiro, ou um escandinavo ficará emocionado com a gentileza e elegância de uma africano - só tememos o que não conhecemos. A cultura de paz e seus processos de educação são uma forma efetiva de aproximação, não para dissolver as diferenças, mas para aproximar pessoas que, mesmo muito diferentes, têm em comum o desejo de uma vida mais próspera, digna e feliz.

Com o avanço e a popularização da internet, e o poder dos celulares, fala-se muito na liberdade de expressão e na velocidade de propagação de noticias. Quanto os meios digitais podem ajudar ou atrapalhar a cultura da paz? 
Como qualquer tecnologia, desde a era do ferro, um instrumento pode servir a qualquer propósito. A internet é um poderoso instrumento de comunicação que permite a aproximação de pessoas, ideias, soluções e possibilidades que antes estavam nas mãos de um pequeno grupo de detentores da mídia. Um episódio exemplar disso foi durante o ataque israelense à faixa de Gaza em 2013, quando um judeu de Israel fez um vídeo doméstico informando aos palestinos que ele não era a favor desse ataque, que não via os palestinos como inimigos, mas como irmãos, foi o suficiente para um grande movimento de vídeos de cada lado da fronteira falando de paz e amizade. Isto se estendeu até para rixas entre outros povos e até brasileiros e argentinos juntos celebrando o futebol, numa animada brincadeira. Porém, o mais importante, é que por razão desse movimento o ataque cessou em 3 dias, a repercussão era forte demais para não ser ouvida. Esse é o poder individual que temos, podemos nos manifestar e coletivamente guiar o rumo de nossas sociedades.

Qual é a necessidade de que se pense a paz? Ela não deveria ser o estado normal das coisas? 
De fato, a paz é a condição natural do ser humano. Todo bebê nos mostra isso, a criança é pacífica. Aprendemos o conflito, o medo, a insegurança, o preconceito, a intolerância. E podemos aprender a viver em paz, até que sejamos capazes de não mais ensinar a cultura da violência e aí o ser humano vai ser simplesmente o que sua própria natureza clama: um indivíduo vocacionado, que exerce seus talentos, cuida mais de seu tempo do que de suas posses, olha para cada outro como um irmão e vê o mundo como uma só e mesma nação humana.

As religiões que deveriam ter a paz como um desses preceitos básicos acabam servindo para justificar atos de terrorismo, preconceito, violência e perda de direitos para minorias, como pode ocorrer no Brasil e já acontece em outros países. Uma das bases para a paz não estaria no Estado Laico?
Não é a religião, o estado ou as instituições, somos nós, os seres humanos que fazemos as coisas acontecerem. Não é o mundo que está em crise, é cada indivíduo que entra em seu próprio processo de crise que produzimos a crise. Não existe nada que nos desorganize que não seja feito por pessoas e nada que nos organize que não possa ser feito por nós mesmos. Assim, a questão está centrada na consciência e não na instituição. O Butão é um estado budista e o lugar mais pacífico que já visitei. Às terças-feiras ninguém usa automóvel para criar o hábito de caminhar, todos são vegetarianos, as orações são feitas ao amanhecer e antes de dormir, o consumo é baixo, as pessoas são serenas e felizes, não á violência, nem polícia, nem exército. O Butão prova que esta condição é possível para todos nós. 

Como as empresas podem contribuir para a paz? Elas têm esse compromisso ou é um papel das pessoas individualmente?
As empresas são feitas pelas pessoas, dentro de todas as instituições são as pessoas que definem o rumo das coisas. Se quisermos juntos um modelo de paz, nossas empresas serão empresas de paz. Há 30 anos, apenas 30 anos, não existia a palavra meio-ambiente, nem reciclagem, e nem se pensava em proteção ao meio-ambiente (se sequer a palavra existia). Esse foi o primeiro salto de consciência coletiva que tivemos, hoje qualquer pessoa entende a necessidade de poupar água, de cuidar da reciclagem do lixo, de preservar o ambiente e as empresas têm departamento de sustentabilidade. Hoje há 18 milhões de postos de trabalho no mundo para o tema meio-ambiente - uma palavra que sequer existia há 30 anos.

E os governos? Qual é a responsabilidade deles em promover (ou não) a cultura de paz?
Estamos num ponto importante de virada cultural. Logo depois da segunda Grande Guerra, tínhamos 220 ministérios de guerra no mundo, hoje só há 1, todos os outros se transformaram em ministérios de defesa, essa não é uma mudança semântica, é uma mudança paradigmática. E já temos um Ministério de Paz, na Costa Rica, um país que não tem exército, nem investe em armamentos e desde a década de 1950 tem um ativo Ministério de Paz, que lhes proporcionou a primeira Universidade da Paz no mundo - o Brasil tem a segunda e Hiroshima, a terceira. Estamos no caminho, um século não é muito na história da humanidade, porém este século foi fundamental na história da Paz. Há 70 anos que não acontece uma guerra na Europa. Este é o período mais longo de paz que o continente Europeu já viveu em paz, isto mostra a efetivação de uma nova era consciencial.

Qual é o resultado esperado do Fórum? Existe alguma ação/proposta efetiva?
Vamos apresentar às Nações Unidas um projeto que se chama “1% para Paz”. De tudo que os governos investem em combate à violência, exércitos, armamentos, prisões, polícia, etc., 1% desse montante deverá ser investido em educação para paz, especialmente com crianças. Ao final do ano, será feita uma medição do impacto dessa educação na comunidade e tendo resultados, no ano seguinte se investirá 2%. Em 100 anos, mudamos a lógica e o investimento será maior em educação para paz e um pequeno investimento para o combate a violência.

Quais os princípios da educação para a paz?
Inclusividade, inteireza e plenitude. Incluir todas as pessoas e possibilidades, isso é a paz interior; ter integridade de relações e de propósitos, representa a paz entre nós; e exercitar a plenitude do ser para reconhecer a vida como sagrada em todas as suas dimensões, esta é a paz no mundo.

Em seu trabalho, você também desenvolve ações de coaching e pelo empoderamento das mulheres. O que é o Feitiço das Lobas? Qual é o objetivo da ação?
É um projeto de inclusão de 1 milhão de mulheres maduras, que estão acima dos 40 anos e que têm menos oportunidades para inserção social e econômica. As estatísticas demonstram que as mulheres são as mais atingidas pela pobreza, 73% de todas pessoas que estão na faixa da pobreza são mulheres e dessas quase 80% tem mais de 40 anos. Essas mulheres são o esteio de nossa base social, estão cuidando sozinhas de famílias inteiras e estender nossa mão para apoiá-las em seus propósitos, aumentar sua auto-estima, estimular seus potenciais e gerar condições para novas soluções de vida é o que mais impacto pode produzir em nossa sociedade, tanto imediatamente como numa visão de longo prazo.


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