A Confraria da Conversa e do Prazer

Somos quatro amigos e todo ano viajamos para uma parte do mundo para descobrir juntos as delícias do "terroir" local

Por Fernando Dourado Filho, de Medonza, Argentina

Somos quatro amigos e todo ano viajamos para uma parte do mundo para descobrir juntos as delícias do "terroir" local e reinterpretarmos, à luz das experiências somadas, o local visitado, quando não nossas próprias vidas e vicissitudes. A variedade de nossos repertórios individuais já nos fez pensar em transformar essas duas semanas de julho numa viagem extensiva a alguns convidados, interessados em aprender com nossa azeitada dinâmica e em compartilhar reflexões. Mas, afinal, concluímos que democracia demais não se aplica ao grupo, e essa intrusão desvirtuaria o espírito saudável que embala a pequena aventura. Isso porque esta não prescinde de longo lastro de amizade e sólida cumplicidade. Assim sendo, colocamos sutilmente um pouco dos problemas que nos afligem na mesa e, ao final, descobrimos vales e montanhas ao mesmo tempo em que nos renovamos interiormente para enfrentar mais um ano.

No primeiro almoço da chegada, foi a vez de A. nos premiar com uma amostra de desventura. O filho menor, de brilhante formação na área científica, está namorando uma croata e, nesse momento, desfruta as maravilhas do verão na ilha de Hvar. Determinado a viver com ela e tentar a sorte profissional em Zagreb quando o outono chegar,  aproveitou uma breve estada em São Paulo para dizer aos pais que vive uma crise existencial numa idade pungente e que, de maneira nenhuma, trabalharia na empresa da família. Segundo ele, dificilmente alguém o convencerá de que há estrada mais fascinante no mundo do que aquela que trilhamos embalados pelo amor a uma mulher e à humanidade. O novo casal tem planos de morar na África e se dedicar a trabalhos voluntários por muitos anos. Se a mãe não consegue camuflar algum orgulho, certo é que meu amigo e a esposa estão num guerra sutil de atribuição de culpas recíprocas pelo gesto inusitado do filho único.    

Ontem coube a F., meu xará, abrir o coração. No auge de uma guinada de vida que o tirará da seara previsível de negócios que não se renovaram, deixará de lado a pesquisa em favor de uma desafiante posição na área de cinema. Lá jogará os últimos recursos de que dispõe, mas está tão empolgado com a perspectiva de renascer para o que sempre amou que o risco lhe parece de somenos. Afinal, nunca foi grande poupador e pode recomeçar por onde quiser mais adiante, por mais que saiba que, aos 60 anos, o mercado de trabalho não reluz mais como nos tempos em que os "headhunters" o caçavam dia e noite. Em linha com nossa filosofia de viver com intensidade e sem maiores preocupações com o que possa nos reservar o futuro – mesmo porque ele mal existe conceitualmente –, renovamos nossos votos de assim continuar. Afinal, "carpe diem" é nosso moto e a pedra angular da amizade. 

No caso de S., talvez o "sommelier" mais rodado do grupo, o desmonte do circo Brasil faz com que se sinta estranhamente nostálgico dos tempos de juventude na Europa, quando teve todas as condições de se estabelecer. Segundo ele, é fácil concluir hoje que teria vivido uma vida muito mais rica em aprendizado se tivesse cedido aos apelos de professores e namoradas. Um certo sentimentalismo o ligou de forma pueril ao Brasil – sempre sob pretexto de que precisava dedicar tempo aos pais. O resultado é que os viu tanto quanto teria acontecido se morasse fora – talvez até menos. Agora eles já tinham falecido e já se fazia tarde para retomar um plano de vida mais audaz. Mesmo porque as fragilidades da saúde começam a aparecer, mesmo em se tratando, ademais de um amante dos vinhos, de um ciclista que faz 50 quilômetros ao dia e amanhece sem dor algum nas articulações. "Não é bem assim", costuma dizer. 

Quanto a mim, tenho um pouco de tudo o acima e nada em específico. A exemplo de A., tenho que admitir com resignada melancolia que não posso contar com algumas das pessoas que tinha em mente. Seria chancelar o oportunismo e, por conveniência, me curvar à falta de profissionalismo dos que criam castelos no ar e, sem nada combinar, assacam de chofre o rosário comezinho de pedidos fantasiosos, sem quaisquer reconhecimentos de grandeza ou generosidade – mesmo porque ignoram-nas desde sempre. Como F., admito que também teria sido reconfortante viver num país mais são do que o Brasil, onde a tentação de morder propinas oblitera até o trabalho bem feito e espatifa, na decolagem, qualquer sentido de parceria longeva que se possa ter alimentado. Todos riem: bem-vindo ao Brasil, Fernando. Seu alheamento às demandas do universo familiar podem dar uma sensação de impunidade, mas essa miséria é de regra. Não conte sequer com família. Com amigos, muito menos. Salvo aqui. 

Os dias que nos restam nessa parte fria do continente serão dedicados a conhecer o Aconcágua; esticar a Santiago por terra; visitar mais vinícolas de ambos os lados da Cordilheira e, no final, fazermos uma rodada de negócios multidisciplinar em Buenos Aires para que todos se informem sobre tudo o que interessa aos demais. Assim, nos reuniremos com um conhecido produtor de filmes; com um cientista politico do mais notório instituto de pesquisa do país que nos falará um pouco sobre os mitos políticos que volta e meia pairam sobre o cenário do Prata, sendo o "Macrismo" o mais recente deles. Estaremos, ademais, com um atleta de alta performance que vai atuar nas Olimpíadas e, por fim, culminaremos, no dia 25, em Colônia do Sacramento, Uruguai, quando, então sim, poderemos abrir e-mails e jornais. Então, saudosos, e muito mais leves de espírito, nos despediremos até o próximo mês de julho. 


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