Quais os possíveis impactos do colapso depois do Brexit?

Restam ainda muitas dúvidas sobre os termos da saída e como deverão ser as negociações entre o Reino Unido e a UE

Por Universia Knowledge@Wharton*

O voto surpreendente do Reino Unido de deixar a União Europeia, apelidado de Brexit, fez com que a libra esterlina caísse a seu nível mais baixo em 30 anos em relação ao dólar e deixou histéricos os índices de ações em todo o mundo. O espectro resultante de incertezas levou os investidores a buscar um lugar mais seguro. A Média Industrial Dow Jones caiu 3,4% e o índice S&P 500 repercutiu essa queda. O ouro teve a maior alta em dois anos enquanto os futuros de petróleo caíram. Na Europa, o FTSE 100, em Londres, teve uma perda de 3.2%, o CAC francês caiu 8% e o Índice DAX alemão fechou o dia com queda de 6,8%. Jeremy Siegel, professor de finanças da Wharton, analisa que os mercados responderam conforme esperado em face do que ocorreu no Reino Unido, um resultado não previsto pela maior parte dos políticos e corretores. Contudo, Siegel não tem dúvidas quanto à reação do Fed. Os acontecimentos estão esvaziando “completamente qualquer expectativa de um aumento do índice este ano”, projeta ele, acrescentando que “os futuros de janeiro baseados na taxa de juros básica dos EUA [fed funds] estão sendo negociados exatamente pelos valores de hoje”.

João Gomes, professor de finanças da Wharton, também acha que o Fed fará uma pausa. “No caso dos EUA, a resposta certamente consistirá em atrasar os aumentos da taxa de juros e talvez umas poucas declarações tranquilizadoras que deixem claro para os investidores que há um porto seguro e que qualquer risco de impacto negativo será limitado”, avalia. Siegel ainda acredita que a tragédia atual que vive o mercado será passageira. “Creio que haverá uma série de mudanças por causa do que aconteceu”, aposta. Siegel ainda ressalta que o FTSE continuou a ser negociado acima do valor registrado há uma semana e que o mercado, em dólares, caiu apenas 3% se comparado aos 7% a 9% de outros mercados regionais da Europa. “Além disso, não houve pânico. Havia muita liquidez nesses mercados. Todos os grandes mercados abriram com muita efervescência, mas sem grandes transtornos. Havia liquidez. Esse quadro diz muita coisa sobre uma reversão de peso nesse cenário”, pontua. Ele acrescenta que os futuros de ações nos EUA tiveram uma queda de 700 pontos, porém os mercados abriram normalmente e reagiram à queda. “Embora esse seja o tipo de incerteza e de volatilidade a mais que pode atenuar as perspectivas de crescimento de curto prazo, no longo prazo o impacto do Brexit deverá ser contido. Na hora em que baixar a poeira, o efeito não deverá ser substancial. A Europa não cresce significativamente desde 2008 e não crescerá significativamente outra vez no ano que vem. Já estamos acostumados a esse cenário e a esse modo de crise permanente.”, argumenta Gomes. 

De que maneira isso afetará os Estados Unidos? “Além da volatilidade dos mercados, perdemos efetivamente nosso paladino do livre mercado, da globalização, nossos olhos e ouvidos in loco no que diz respeito à segurança e a outros interesses hoje postos sobre a mesa da UE ? uma vez que ele não estará mais junto com os demais reunidos a portas fechadas”, reprova Scheherazade Rehman, diretora do Centro de Pesquisas da União Europeia na Universidade George Washington. 

Com relação ao Reino Unido, Rehman assegura que a economia será abalada. “Ficará mais caro para negociar com a União Europeia. O Reino Unido ainda terá acesso ao mercado comum, mas terá de pagar por isso. Terão de pagar mais do que pagam hoje, só que agora sem poder de decisão”, avalia. Contudo, Brian Klaas, pesquisador da London School of Economics, lembra que a UE só pode punir o Reino Unido até certo ponto. “Se o castigo for severo demais, a UE também será prejudicada, uma vez que o Reino Unido responde por 6% da economia europeia. No entanto, se a punição não for severa o bastante, outros países podem querer sair”, justifica. O Reino Unido tentará preservar o comércio existente e os acordos de investimentos com a UE, mas o bloco não facilitará nada. “No início, veremos uma postura, no mínimo, muito inflexível de Bruxelas nas negociações com o Reino Unido”, projeta Gomes. Olivier Chatain, professor da HEC Paris e pesquisador sênior do Instituto Mack de Gestão de Inovação da Wharton, acredita que a UE ? França e Alemanha, em especial ? vai querer fazer do Reino Unido um exemplo para impedir que outros países saiam.

Restam ainda muitas dúvidas sobre os termos da saída e como deverão ser as negociações entre o Reino Unido e a UE. Na sexta-feira (24), uma reportagem do Financial Times discorreu a respeito de um artigo publicado em um jornal alemão segundo o qual ele teria uma cópia da “estratégia do referendo pós-Brexit”.  A reportagem dizia que o Reino Unido não deverá ser tratado com leniência nas conversações sobre sua saída porque isso poderia encorajar outros países a segui-lo. O Handelsblatt informou, de acordo com o Times, que não haveria nenhum acesso automático ao mercado único porque outros países, entre eles a França, Áustria, Finlândia, Hungria e Países Baixos, poderiam buscar acordos semelhantes. “A extensão de tais efeitos de imitação dependeria em grande medida do modo como o Reino Unido for tratado”, relata a matéria. 

No entanto, o receio de que possa haver uma corrida para a porta de saída talvez seja exagerado. Siegel considera que os países da UE que adotaram o euro como moeda estão menos propensos a deixar o bloco. “Ninguém quer abrir mão da moeda. Essa é a diferença em relação ao que está acontecendo no Reino Unido. Para um país da UE que usa o euro, mudar de moeda é uma coisa de uma magnitude muito complexa e pouco popular em comparação com o Brexit. Veja o caso da Grécia. Apesar das suas dificuldades financeiras, os gregos não vão jogar fora o euro para voltar à dracma e amargar sua desvalorização. Se a Grécia ficar, é provável que outros fiquem também”, calcula Siegel.

Futuramente, Gomes espera que haja um acordo entre o Reino Unido pós-Brexit e a UE. “Depois de algumas recriminações mútuas, que podem durar algum tempo, todos em Bruxelas e em Londres trabalharão a favor de uma reaproximação porque ambos têm um forte interesse pessoal de que esse relacionamento funcione. Isso significa, basicamente, elaborar um novo tratado que preserve o máximo possível os laços econômicos mais importantes, tranquilizando ao mesmo tempo os britânicos de que a imigração pode ser controlada”, argumenta Gomes. 

Na opinião de Rehman, seria irônico, porém, se a UE usasse sua influência nas negociações para forçar o Reino Unido a adotar suas políticas imigratórias. “O referendo foi usado como plataforma para negociar os desdobramentos da crise de imigração que hoje toma conta da Europa. Será interessante observar se, em caso de negociação da UE com o Reino Unido, a imigração entrará na pauta de discussão novamente. Em outras palavras, ‘concordaremos com os termos de comércio se vocês concordarem com ? seja lá o que for ? na questão da imigração.’ Isso seria um tanto irônico”, justifica ele. 

Gomes pondera que o grande fator imprevisível será o papel dos movimentos nacionalistas e antieuropeus em países como a França, Polônia e Espanha. “Haverá tensão nas próximas semanas e meses entre dois pensamentos e visões de mundo opostos”, aposta. De um lado, ele espera que a corte central em Bruxelas aja rapidamente para tranquilizar as empresas de que não haverá nenhuma mudança fundamental. Por outro lado, ele acha que os políticos enfatizarão que a Europa está quebrada e que alguma coisa tem de mudar. “Há um desejo por parte dos que defenderam o Brexit, dos partidos antieuropeus e de eleitores de vários outros lugares, a começar pelas eleições recém-realizadas na Espanha, de explorar o assunto, de conseguir concessões especiais da UE ou simplesmente de ganhar as eleições”, avalia. 

Escócia na berlinda?
Entre os muitos resultados políticos do Brexit, um que dá muito o que pensar é a possibilidade de que a Escócia exija um segundo referendo sobre sua permanência, ou não, no Reino Unido. No primeiro referendo, de 2014, os escoceses votaram a favor da permanência no Reino Unido. “A Escócia é pró-Europa, e se os escoceses acharem que estão sendo tirados da Europa pelo voto dos ingleses, de quem não gostam muito mesmo, poderão pedir um segundo referendo”, opina Sebastian Mallaby, pesquisador sênior de economia internacional do Conselho de Relações Exteriores.

Depois de concluído o Brexit, a primeira-ministra da Escócia, Nicola Sturgeon, afirmou que é muito provável que se faça um segundo referendo. Ela anunciou ainda que começaria a criar a legislação necessária a uma nova votação sobre a independência da Escócia. Ironicamente, alguns dos argumentos mais fortes defendidos na Inglaterra para convencer os escoceses a permanecer no Reino Unido em 2014 diziam que a Escócia poderia ser forçada a sair da UE em caso de separação do Reino Unido. Agora, é o voto do Brexit que vai tirar a Escócia da UE, a menos que, conforme acham possível alguns analistas, a Escócia aprove sua independência em um novo referendo e decida ficar onde está. O placar do voto dos escoceses foi de 62% a 38% a favor da permanência no bloco.  A resposta dos escoceses dependerá também do próximo primeiro-ministro do Reino Unido, de como as negociações correrão e da força de crescimento da economia nos próximos anos. “Em última análise, o referendo foi reflexo da conclusão de muita gente de que a economia pode melhorar muito fora da EU. A Escócia, em particular, terá de tomar sua própria decisão ? o que é melhor, ficar atrelada ao Reino Unido ou à UE?”, reflete Gomes. 

Próxima curva
O principal problema da crise europeia é falha da liderança, que não soube lidar com os problemas das pessoas, justifica Gordon Brown, político do Partido Trabalhista britânico, ex-primeiro-ministro e ex-ministro das Finanças do Reino Unido, em palestra proferida no Fórum Global da Wharton, em Amsterdã, na Holanda. “O nível do debate durante o referendo no Reino Unido foi tão pobre que ninguém tentou explicar os problemas dos quais as pessoas se queixam. Imigração e segurança no emprego são duas questões fundamentais”, recordou. Brown avaliou que as pessoas são deslocadas por grandes forças globais em rápida mutação, e não pela União Europeia, enquanto isso, ataques terroristas por radicais islâmicos e grupos extremistas também geram preconceito, intolerância e ódio. “Há um ceticismo em vários países da Europa onde as pessoas culpam injustamente o bloco por problemas que decorrem basicamente da mudança global. A menos que haja líderes preparados para assumir isso, o ceticismo aumentará”, ressaltou. 

No momento em que alguns questionam se a União Europeia ainda mantém sua importância, Brown defende que a Europa ainda precisa dessa estrutura institucional única. “A Europa teve de lidar nos últimos 30 anos com o fato de que as identidades nacionais continuarão sempre fortes. Temos 28 nações com tradições, culturas e línguas próprias e um jeito particular de pensar de que maneira podem se integrar. É preciso equilibrar esse sentido de identidade com a necessidade de cooperação. Não se pode partir do pressuposto de que é possível enterrar as identidades e seguir adiante rumo à formação de um superestado federal”, cobrou.

No fim das contas, os cidadãos do Reino Unido decidiram que eram mais britânicos do que europeus. “O voto a favor do Brexit foi essencialmente nacionalista, de orgulho nacional e de reafirmação do controle sobre as decisões que afetam os cidadãos britânicos”, acredita Gomes. Chatain, porém, crê que o Reino Unido bem sabe das implicações de deixar o bloco. “O arrependimento do consumidor pode se manifestar mais cedo do que se imagina”, considera ele. 

*Serviço gratuito disponibilizado pela Wharton, Escola de Administração da Universidade da Pensilvânia, e pela Universia, rede de universidades que tem o apoio do Banco Santander.


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