Um ano decisivo

Para Maurício Molan, precisaremos decidir entre o Brasil que parou no tempo ou aquele que retomará os avanços econômicos

Por Maurício Molan*

Um ano decisivo

Imagine o Brasil em 2020. Para começar, são promissoras as perspectivas para a economia. Apesar de um ambiente ainda caracterizado por crescimento mundial moderado e preços de commodities baixos, o Brasil tem conseguido manter a renda em expansão, com uma simultânea melhora nas condições sociais e redução da desigualdade. A evolução da produtividade e da infraestrutura tem ocorrido de forma lenta, mas a consolidação de um ambiente macroeconômico saudável proporciona condições para novas reduções na taxa de juros real, além de aumentos nos investimentos. Tudo isso certamente contribuirá para elevar o crescimento potencial do país de 3% para 4% ao ano, ao longo da próxima década. Essa relativa resiliência do país a um ambiente global desfavorável decorre da persistência de uma abordagem adotada desde 2015. Houve custo social nos primeiros anos de ajuste, é claro, mas ele foi compensado pela melhora do poder de compra nos últimos anos.

Imagine, agora, um cenário alternativo para 2020. A inflação se consolidou em um patamar elevado, a despeito das sucessivas promessas por parte do Banco Central de que faria o que fosse preciso para cumprir a meta. Assim, é de se esperar um novo ciclo de aperto da política monetária. O país perdeu o grau de investimento em 2016, mas os gastos do governo finalmente se estabilizaram em relação ao PIB. Não por iniciativas de corte de despesas e aumento da eficiência, e sim em função do efeito da inflação – que elevou a arrecadação e reduziu o poder de compra do funcionalismo e dos benefícios previdenciários. O governo tem expressado comprometimento com o ajuste das contas e com o combate à inflação. Por isso não devemos esperar por um crescimento do PIB muito maior do que 1%.

De volta ao presente, podemos imaginar que 2015 seja apenas um ano difícil, caracterizado por ajustes que vão gerar pequenos e temporários desconfortos, com substanciais e permanentes benefícios. Mas a verdade é que 2015 é mais do que isso – como mostram os dois cenários hipotéticos expostos anteriormente. É o momento de escolher entre dois caminhos: sacrificar fundamentos para extrair uma melhora efêmera e temporária de indicadores sociais; ou fortalecer a economia de forma a consolidar um processo sustentável de melhoria de vida da população. Em 2015, teremos de decidir entre o Brasil que parou no tempo ou o Brasil que retomará os avanços institucionais, econômicos e sociais iniciados na década de 1990 e aprofundados a partir de 2003.

*Economista-chefe do Banco Santander.


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