Brexit: a vitória do populismo extremista de direita

O ex-embaixador Jorio Dauster relaciona o resultado ao erro dos estadistas em não admitir o salto do populismo radical

Por Jorio Dauster*

Você se lembra do que sentiu quando a Alemanha marcou o quarto gol contra o Brasil a caminho da goleada histórica de 7 x 1? Pois bem, essa sensação, de quem sabe que está acordado, mas não consegue espantar um pesadelo, se espalhou pelos corredores do poder em todo o mundo na manhã de 24 de junho ao ser conhecido o resultado do plebiscito que retirou o Reino Unido da União Europeia.

Convocado em 2013 pelo primeiro ministro Cameron para fazer um afago à ala antieuropeia de seu Partido Conservador, o plebiscito não foi visto como ameaça real em Bruxelas e outras capitais até recentemente. Predominou por longo tempo a ideia de que, malgrado a famosa insularidade britânica e a desconfiança histórica para com os habitantes do outro lado do Canal da Mancha, o pragmatismo e a fleuma dos súditos da Rainha Elizabeth predominaria no final e, conquistadas algumas concessões, eles continuariam a compartilhar seu destino com os cidadãos de outros 27 países europeus.

Doce ilusão, reforçada pelo trágico assassinato da jovem deputada trabalhista Jo Cox no dia 16 de junho, vítima de um radical de direita que teria gritado “Britain first” antes de atacá-la, o que teria gerado uma onda de repúdio ao extremismo. Mais ainda, nos últimos dias as casas de apostas, tão populares naquelas ilhas, pareciam confirmar o favoritismo do voto pela permanência, influenciando até os mercados financeiros.

Onde erraram, então, tantos estadistas, observadores políticos, financistas e apostadores? O ledo engano estava em não admitir – na verdade em não querer admitir – o crescimento explosivo do populismo radical de direita em muitas partes do globo, a imensa e crescente frustração do cidadão comum com os políticos que deveriam representá-los, mas não oferecem solução para o aumento das disparidades de renda entre os muito ricos e as classes menos favorecidas que veem seus padrões de vida corroídos, sua segurança individual ameaçada, seus valores tripudiados.

No Reino Unido, os fatores atávicos antes mencionados e o tradicional euroceticismo foram, sem dúvida, exacerbados nos últimos anos pelo aumento da imigração – mais de 300 mil pessoas desde 2015 e o risco de ter de admitir, segundo as regras da União Europeia, novos contingentes daquele assustador rio populacional que continua a fluir rumo à Europa das áreas conflitadas da Ásia e da África. O corte social e etário do voto a favor da saída da UE mostra isso de forma insofismável, com os eleitores de menor renda e de maior idade demonstrando sua insatisfação com o status quo, enquanto os mais abastados e mais jovens favoreciam a coabitação europeia.

O tempo confirmará ou não as previsões mais negativas sobre os efeitos econômicos do Brexit na economia do Reino Unido, conquanto no primeiro momento a queda da libra já represente um empobrecimento de quem recebe naquela moeda. Mesmo que as complexas negociações de desmembramento não provoquem choques substanciais nas relações comerciais entre o Reino Unido e seus sócios anteriores, o que no momento está longe de ser pacífico, dificilmente o papel da City como centro financeiro poderá deixar de ser afetado. De todo modo, porém, a primeira consequência política do voto plebiscitário, além da queda inevitável de Cameron, será a retomada das pressões separatistas na Escócia e na Irlanda do Norte, que votaram maciçamente em favor de permanecer na UE.

Para a União Europeia, o voto britânico, por mais que se tente dourar a pílula, é um desastre de grandes proporções. Acossados pelo crescimento medíocre e o alto desemprego desde a crise de 2008, às voltas com a recorrente fragilidade da Grécia e a presença ostensiva de uma Rússia revigorada na Ucrânia, os membros da União se dividem diante do influxo aterrador das levas de imigrantes desesperados, que não temem arriscar suas vidas na travessia do Mediterrâneo rumo ao paraíso imaginado do continente europeu. Sem que a contestada hegemonia alemã traga soluções duradouras, crescem por toda parte as pressões xenofóbicas graças à ascensão dos partidos de direita. Com eleições gerais em 2017 nos seus dois principais sustentáculos, Alemanha e França, só se pode esperar dos “sábios” de Bruxelas, confrontados com a conflituosa retirada do Reino Unido, um patético esforço de sobrevivência, enquanto na própria França, na Holanda, na Dinamarca, na Suécia e em certos países da Europa Central e Oriental crescem as vozes separatistas. 

Embora muitas vezes apenas só em retrospecto os historiadores possam assinalar dias decisivos na História, qualquer leigo é capaz de compreender que acabamos de viver um momento de inflexão. É impossível prever todos os seus desdobramentos, no Reino Unido, na União Europeia, no Ocidente em que se insere a OTAN, em todo o mundo. Mas o recado está dado: as forças do populismo extremista de direita, com seus aterradores ecos fascistoides, estão soltas na Europa e, como se vê na surpreendente campanha de Trump, também nos Estados Unidos. Esperemos que não se instalem em nossas terras.

*Diplomata, ex-secretário no consulado do Brasil em Montreal e nas embaixadas em Praga e Londres, ex-presidente e da Companhia Vale do Rio Doce e ex-embaixador do Brasil junto à União Europeia.


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