Para cima, para baixo

Classe AB compra em “atacarejos”. Por quê?

Por André D´Angelo

Segundo pesquisa da Kantar Wordpanel, aumentou o contingente de integrantes das classes A e B que fazem compras, ainda que esporádicas, em “atacarejos” (estabelecimentos voltados primordialmente a vender para pequenos comerciantes, mas que comercializam também em pequenas quantidades, para famílias e consumidores individuais; matéria completa aqui). Seria esse o sinal mais evidente  da crise econômica, segundo os autores da pesquisa: famílias mais ricas sujeitando-se a se deslocar até longe para comprar mantimentos mais baratos e em maior quantidade, estocando-os. 

Concordo, mas há outros insights mais interessantes nesse levantamento. O primeiro deles é que esses dados talvez não devessem nos causar surpresa. Como bem mostra um estudo norte-americano, aqueles com renda maior conseguem aproveitar melhor os descontos oferecidos pelas lojas, uma vez que contam com liquidez (dinheiro em caixa) e espaço físico para comprar produtos baratos em maior quantidade e estocá-los em casa (leia aqui). Ainda que, geralmente, na parte de cima da pirâmide opte-se por economizar tempo pagando mais caro por produtos vendidos nas proximidades, usufruindo da conveniência, a crise pode ter sido o gatilho para uma mudança de comportamento.

Essa mudança, especulo eu, pode estar ligada a outro comportamento, identificado nos EUA na primeira década de 2000, e que recebeu o nome de “trading up”. Nele, o consumidor opta por economizar o máximo possível nas categorias tidas como essenciais e com baixa diferenciação, como a de suprimentos cotidianos, e gastar o excedente em produtos mais elaborados, nos quais percebe diferenciais concretos, seja de desempenho, seja de imagem (saiba mais aqui). Dessa maneira, as famílias que visitam o atacarejo podem estar pagando menos por produtos de limpeza e alimentos in natura para conservar poder de compra em supérfluos como cosméticos de marca ou cervejas artesanais.

Nessa troca, contudo, é possível que a classe AB economize menos do que imagina. A própria Kantar aponta que, em média, os preços do atacarejo são 7% mais baixos que os de outros formatos de varejo. É bem provável que a percepção de preço esteja sobrepujando a realidade e que esses estabelecimentos estejam atraindo clientes com uma estratégia High-Low: mercadorias essenciais a preço baixo atraem os consumidores, enquanto as de preço mais alto compensam a diferença quando acabam adquiridas em uma mesma cesta de compras.


comentarios




Adelino Dias Pinho

André, pessoas esclarecidas não gostam de pagar produtos com margens fantásticas dos supermercados tradicionais. Hoje essas margens são de 50% a 100%, o que é um absurdo. Faço comparações em diversos produtos, alimentação, limpeza, frutas etc e fico indignado com os sistemas de precificação dos supermercados. Incentivo as pessoas a procurar o atacarejo para economizar e para não passarem por bobos.

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