As graves consequências da saída do Reino Unido da UE

Decisão causará entrave ao crescimento econômico

Da Redação

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Não foi por falta de aviso: na semana passada, 10 vencedores do Nobel divulgaram uma carta alertando para consequências graves e duradouras caso o Reino Unido optasse pelo desligamento da União Europeia. Em uma sondagem, 88% dos economistas britânicos concordaram que a economia britânica seria prejudicada pela Brexit. 

De acordo com um estudo da consultoria PwC, deverão ser eliminados cerca de 950 mil empregos. O Tesouro Britânico calcula que cada domicílio britânico perderá US$ 6.143 anualmente. A economia do país é bastante dependente do comércio internacional e 44% dos bens e serviços exportados pelo Reino Unido têm a União Europeia como destino.  O desembarque da EU dispara negociações não só com o resto do continente, mas também com cerca de 50 países que tem acordos com o bloco, além de novas tarifas e barreiras. Como já anunciado por alguns líderes, a União Europeia deve dificultar a vida dos britânicos, sob risco de estimular a debandada de mais países – esse, aliás, é o maior dos temores. 

As negociações com a União Europeia devem ser delicadas. “A relação não será mais a mesma, pois o Reino Unido terá que se acostumar a ser visto como um terceiro Estado", declarou Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia.  Um estudo realizado pelo HSBC prevê queda de 15% a 20% no valor da libra, inflação de 5% e perda de 1% a 1,5% no PIB. Londres perderia seu "passaporte europeu", e algumas empresas, como a JPMorgan e o próprio HSBC, anunciaram que transfeririam milhares de postos de trabalho para Paris e Frankfurt.

A imigração é um dos temas centrais da campanha do Brexit, que anunciou sua intenção de criar um sistema de pontos para aceitar imigrantes. Nesse caso, cada solicitação de permissão de residência ou trabalho seria tratada de acordo com as habilidades e qualificações do solicitante. Com a saída da UE chega ao fim a livre circulação de pessoas.

Ex-prefeito de Londres e líder da campanha do Brexit, Boris Johnson é cotado como o favorito para suceder David Cameron como primeiro-ministro. A chefe do governo escocês, Nicola Sturgeon, afirmou que a saída da UE provocaria a convocação de outro referendo, dessa vez para decidir a permanência da Escócia no Reino Unido. A Irlanda do Norte pode se tornar a única fronteira britânica com um membro da UE, a Irlanda. A restauração do controle das fronteiras pode causar tensões na região.

O Instituto de Finanças Internacionais divulgou uma nota qualificando a decisão da maioria dos eleitores como perturbadora. De acordo com a entidade, o resultado do referendo será um entrave para o crescimento econômico no longo prazo. “A extensão do impacto da decisão sobre a economia e o mercado financeiro não será clara por algum tempo, mas é certo que será muito perturbadora no curto prazo e será um entrave ao crescimento econômico e ao emprego no longo prazo, especialmente para o Reino Unido. Formuladores de políticas no país e na União Europeia têm, agora, a responsabilidade de esclarecer rapidamente a relação de longo prazo entre eles de maneira a minimizar incertezas e promover investimentos e contratações”, relata o documento. 

FMI
Em uma tentativa de acalmar os mercados financeiros ao redor do mundo, a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, divulgou um comunicado em que defende "uma transição suave" para a saída do Reino Unido da União Europeia, decisão adotada pelo povo britânico em plebiscito realizado ontem.

Segundo Christine Lagarde, os bancos centrais do Reino Unido e da Europa vão atuar para evitar volatilidade financeira nos mercados. Hoje, os mercados financeiros em todo o mundo amanheceram agitados com o resultado do referendo. A libra esterlina começou hoje com queda de 12% em relação ao dólar, e as ações de empresas britânicos despencaram em bolsas da Europa e da Ásia.

No comunicado, Christine Lagarde afirma que o FMI está consciente da decisão da população do Reino Unido. "Solicitamos que as autoridades do Reino Unido e da Europa trabalhem em conjunto para garantir uma transição suave para uma nova relação econômica" entre as duas parte, acrescentou Christine. Para a diretora do FMI, o processo de saída do Reino Unido do bloco europeu tem de ser feito com procedimentos e objetivos bem definidos. "Apoiamos firmemente os compromissos do Banco da Inglaterra [Banco Central do Reino Unido) e do BCE [Banco Central Europeu] de fornecer liquidez ao sistema bancário e reduzir o excesso de volatilidade financeira."

Christine Lagarde disse que o FMI vai acompanhar de perto os acontecimentos. "Estamos prontos para apoiar os nossos membros, conforme necessário", afirmou  a diretora-geral da organização.


Brasil
Antes da votação do referendo no Reino Unido, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) alertou que a saída dos britânicos da UE enfraqueceria a demanda das economias da região e afetaria o resto do mundo. Segundo cálculo da entidade, isso pode reduzir em 0,6% o PIB do Brasil e das outras economias do Brics (Rússia, Índia, Indonésia, China e África do Sul) em 2018. O impacto negativo nos emergentes, incluindo o Brasil, virá pelo comércio. 

O Banco Central (BC) informou que está monitorando continuamente, nos mercados global e doméstico, os efeitos da decisão dos britânicos de deixar a União Europeia. Em nota, o BC afirma que adotará as medidas adequadas para manter o funcionamento normal dos mercados financeiro e cambial. "A economia brasileira tem fundamentos robustos para enfrentar movimentos decorrentes desse processo, especialmente, [um] relevante montante de reservas internacionais, o regime de câmbio flutuante e um sistema financeiro sólido, com baixa exposição internacional", afirma a nota.

O chefe do Departamento Econômico do BC, Tulio Maciel, declarou que a saída do Reino Unido da União Europeia agrega incertezas no curto prazo ao mercado brasileiro, mas o Banco Central (BC) está preparado para essa situação. “É possível que a gente observe oscilações nos preços de ativos, como, de fato, já tem observado nos mercados. Cabe reiterar que o Banco Central está preparado para situações dessa natureza”, reiterou Maciel. De acordo com ele, o regime de câmbio flutuante, com cotações definidas no mercado, tem se mostrado exitoso em contextos dessa natureza. “O mercado financeiro do país é robusto. Os indicadores de liquidez são bastante positivos, o nível de reservas do país é superior a US$ 350 bilhões, há baixa exposição ao exterior em termos financeiros. Isso tudo contribui para que o país possa enfrentar essa situação”, acrescentou. Sobre as exportações e importações, Maciel disse que apenas 1,5% do comércio do Brasil é feito com o Reino Unido. “O impacto no curto prazo é limitado. A gente prevê mudanças muito graduais nesse processo de saída”, resumiu.


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